"Vão Divã"


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Brazil, SP, Interlagos, Portuguese.

"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."
(Fernando Pessoa)

 

NEM SONHOS, NEM DRAGÕES

Não os vi mais, nem sonhos, nem dragões. Dos cuspidores de fogo folgo em saber que deles nem sombra me assombram, mas com a partida dos sonhos ausentam-me as esperanças. Quiçá um dia ao menos os sonhos, o "filme da alma*", regressem e ainda resgatem o quão melhor de mim sei ser, até lá reportarei meus devaneios ao travesseiro que docemente me acolhe enquanto me encolho na noite fria que está porvir.

ps: talvez seja meu último post, talvez tire o blog do ar, talvez...


*E.Martins

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Julho 19, 2010


 

ASSOMBROS DE SÁBADO À NOITE

Em um sonho, de noite mal dormida, os delírios alcançaram a proeza de se situarem entre a sensatez e o absurdo. Prendi-me ao insensato de mim, pois só ele tem razão de ser louco, e num debate silencioso quis a resposta para quais das verdades seriam às que defenderia. Disse-me serenamente Tom Jobim:
“Vou te contar. Os olhos já não podem ver. Coisas que só o coração pode entender. Fundamental é mesmo o amor é impossível ser feliz sozinho”. *
Do outro lado do quarto docemente suplicava, quase em oração, Marisa Monte:
“Quem foi que disse que é impossível ser feliz sozinho? Vivo tranqüilo, a liberdade é quem me faz carinho. No meu caminho não tem pedras, nem espinhos. Eu durmo sereno e acordo com o canto dos passarinhos”. **
Do alto da minha sapiência soturna, amassei o travesseiro, deixando-o confortável, deitei-me de lado, somente virei um pouco o pescoço para trás e disse: ”Desculpem-me. Mas vocês dois que entrem num acordo que eu vou dormir. Boa noite...parecem loucos!!!!!!!!!!!”

* Wave (Tom Jobin)
** Satisfeito (Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown)

Por: André R. Melchiades Domingo, Janeiro 24, 2010


 

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA CHAPEUZINHO VERMELHO - CAPÍTULO II

E era noite outra vez. Na noite seus sonhos ficam mais etéreos e solitários. Ela até teme por seus sonhos, mas os sonha cada vez mais em rosa, e, sem pressa, sem presa. Quando então, no limiar da madrugada, cai delicadamente sobre a cama, perdendo o foco da luz que lhe alumiava o cantinho dos olhos e vai se ausentando dos pensamentos que talvez nem lhes fossem seus. Põe-se em sono entre lívidos lençóis e a alta madrugada se apresenta lhe trazendo fulguras para seu descontente sossego. Logo sente seus lábios serem tocados por outros tão sutis quanto os dela, corresponde ao afeto, o descompasso do coração é intenso, sente-se ruborizada. Mãos ávidas tocam-lhes os cabelos deslizando pelos ombros, escorregando pelos braços, acariciando seus dedos que bem de pouquinho vão de se separando, dando um adeus ao estalar macio do beijo que se foi. Na mesma delicadeza bruta daquele devaneio, ela desperta, suada por assim dizer. Espia pela fresta da janela que a luzinha já não mais lhe dava guarida, agora tinha um sol de uma vida, como o sonho de há pouco que lhe trouxera um amanhã de desejos.

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Dezembro 03, 2009


 

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA CHAPEUZINHO VERMELHO - CAPÍTULO I (conto)

Da noite mais branda, do céu de mais estrelas, da lua mais brilhante desce até a mim o sorriso mais lindo. Veio tímida, meio pink, meio não. Ela sorria, apenas sorria, espreitava e sorria, julgava e sorria, sonhava e sorria. Seus olhos desacreditavam do carinho de cada palavra que lhes diziam meus lábios, e, era desejo, era delírio, era paixão, era o futuro se escrevendo na rapidez de um suspiro, uma avalanche de emoções em frases soltas e perdidas nesta madrugada e agora seu olhar fica absorto sobre (a) folha de papel, esboçando um sorriso, talvez uma alegria contida, não mais, nem menos...só desejando que tudo fosse verdade.

Por: André R. Melchiades Domingo, Novembro 08, 2009


 

NUNCA MAIS ONTEM

Ela deitou encolhidinha embaixo do edredom que lhe servia de afeto. Choramingava o medo vasto em seu peito e lamentava por nele só habitar quem ali nunca deveria estar. Um travesseiro entre as pernas se tornara o pecado mais permissível que seu corpo ousara ter naquele restinho de madrugada fria, chuvosa e negra de primavera. Pelo rosto escorriam um par de lágrimas que laceravam sua pele branquinha como se fossem duas adagas de fogo e os soluços lhe martirizavam a alma. A pouca luz do abajur iluminava a imensidão daquele quarto gélido que se tornara a prisão dos seus sonhos, e, seus lamentos eram contidos para que nem mesmo ela se compadecesse de sua dor. Enfim, com o alvorecer seu choro minguou e seus olhos vermelhos, de noite mal dormida, espiavam a tímida luz da manhã que invadia seu leito de martírio. Ainda que mesmo incerta, o tímido olhar vislumbrou o prelúdio de uma nova vida; como se fosse um recado divino viu que após uma noite de tórrida tempestade, com céu em pesadas cores, o sol não se furtou da vida e renasceu belo e brilhante na manhã seguinte, assim como sua vida deveria ser dali por diante.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Outubro 27, 2009


 

NÃO SOU O QUE CANSA, SOU AQUELE QUE SONHA

Acordei no meio da noite. Com pensamentos confusos por alegrias incontidas. Eu sonhei. Como tudo sobre o que escrevo, era um sonho. E sabe, se eu deixar de sonhar eu morro. "Se você parar de sonhar não é você", me disse o dragão dos sonhos. Meus sonhos estão cada vez mais etéreos, bem menos palpáveis e infinitamente mais simples; um apanhado de coisas antagônicas e abstratas. Tenho vontade das gentes e medo delas também. Amargamente eu diria que cansei, mas não sou o que cansa, sou aquele que sonha.


"você constrói um mundo só seu, repleto de perfeições e vive feliz nele, poucos entram ali, se entram, isto é raro de se ver hoje." (S.Leal)

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Outubro 21, 2009


 

NEGROS OLHOS (CONTO)

Então o anjo dos negros olhos, como a noite mais escura, me achou perdido em meus pesadelos. Seus longos cabelos de cor em fogo bailavam nervosos ao vento, buscando repouso sobre a tenra pele alva que era salpicada por mínimas sardas. Ah, e ela sorria o mais inocente e acolhedor de todos os sorrisos. Caminhava com mansidão em minha direção e estendia os braços, as mãos delicadas para mim. Tocou-me docemente, conhecendo cada parte que em mim arrepiava. Sutilmente me deitou no seu colo, acalentou minha alma perdida, deixou com que eu delirasse com seu perfume doce na vã certeza de uma proteção infinita. Senti seus lábios úmidos me encherem de desejos vis e os indizíveis sussurros, quase em pecado, se perpetuarem no beijo mais longo de toda uma vida. Quando meus olhos abriram não mais havia ela ao meu lado, meus delírios se foram numa brisa mais intensa que passou, mas eu sentia que a brisa voltaria e meu anjo ao meu aconchego viria de volta e de novo e outra vez; até que fosse para sempre e nunca mais fosse embora.

Por: André R. Melchiades Sábado, Outubro 17, 2009


 

NEM VULTO, NEM DRAGÃO

O dragão que me deixou à vida, num repente lampejo me deixou a alma e já que de tão turvo nem mais estrelinhas no céu desponta, desaponta o coração meu que jaz sem rumo, sem prumo, sem dragão.

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Setembro 24, 2009


 

MONOCROMÁTICO

Que me venham todos os sonhos, os viverei até dentro do pesadelo que possa ser a vida, mas que eu os tenha dentro de mim, sem cores algumas, quero vê-los monocromáticos para serem fieis aos seus suspiros e aos meus desassossegos. É sonho apenas, nada mais.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Setembro 01, 2009


 

J’EN AI MARRE D'EN AVOIR MARRE!

Não tenho medo dos olhos que me vêem nas meninas destes, se tenho é somente daqueles que me espiam de viés, daqueles que fazem vã toda sagacidade que supunha ter. E, é quase frio agora, caiu um tanto de chuva para silenciar uma tarde inteira, abafou até os lamentos e quando o sol ousou criar cores sobre as águas pude ver nas poças pelo chão apenas uns olhos, os quais não temia: meus.

(ouvindo Alizée...)

Por: André R. Melchiades Domingo, Agosto 23, 2009


 

USAIN BOLT

Lá das profundezas do inferno ouve-se um urro ecoar:
-Outro negro?
E o diabo açoita Hitler novamente com um sorriso quase divino.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Agosto 21, 2009


 

A “ANJA” DO SONHO

Era ela de toda docilidade do mundo e não enjoava.
Era de uma beleza incomensurável e não se achava.
Era por demais sorridente, mesmo quando triste estava.
Era a meiguice escondendo as artes que pensava.
Era um contido choramingo de amor no coração que apertava.
Era a boca mais linda que entre os lençóis me beijava...

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Agosto 19, 2009


 

O VOO CEGO DA BORBOLETINHA

Voava em meio às flores a borboletinha toda graciosa e faceira. Salpicava seus encantos através das suas longas asas coloridas, brilhantes e levemente arredondadas. Contudo, estava tristonha, de olhos marejados e vívidos.
Descia ela por entre um jardim quando ouve um sussurro e sente a baforada doce do sempre enigmático dragão azul:
-Oi, tá mais azul hoje? – diz a borboletinha apoiando suas perninhas sobre uma folha.
-Quisera eu ser você, dona de toda as cores, pois quando todas elas se juntam um simbólico branco nasce. Eu me contento com este azul que herdei.
-Ah, gosto deste azul, cabeção!
-Por isto você é mais bela entre as demais. Mesmo triste é um encanto – disse o bicho, meio de revés.
-Hoje estou meio perdida... e como se fosse só hoje.....Mas o que tem a beleza com isto?
-Tem muito sim. A beleza é e vai além das suas asinhas vibrantes.
-Explica... – pede já se esboçando um sorriso.
-A borboletinha perfeita não precisa ser linda, mas se fosse feia, não seria perfeita.
-Só sou isto? Bonitinha? Não passo disto? Afff...
-Não, bocó! A perfeição exige imperfeições*, para ser perfeitinha tem que ser rude o bastante e sutil o suficiente para realizar os desejos mais insanos e negar outros tantos.
-É, sou meio ruim, sabia?- timidamente ela confessa.
-Todo mundo é meio mau uma hora e você tem mais que isto. Sabe rir, fazer rir, da dor e para o amor.
-Muitas vezes.... – suspira a borboleta
-Pense, você é forte, lutadora, destemida, mas tem um coração mole, mole. Pode sonhar coisas impossíveis e se encantar com as simples.
-Vim de uma larva, sei o que é o todo da vida. Sou e serei sempre uma larva.
-Não lhe disse que a beleza vai além das lindas asas?
-Ai, explica de novo.
-Larva. No final da vida, só teremos uns aos outros, sem cores, sem luzes; somente teremos nossas almas despidas de quaisquer máscaras ou efêmeras belezas.
-Sinto o tempo acelerando dentro de mim, mas dá medo, parece tudo perto e também distante.
-Deixe a natureza e o coração seguirem seus cursos.
-Medo, dá medo, escolher o caminho dá medo. – então ela deixa uma solitária lágrima escapar.
-Olhe, proíbo você de resmungar pelos cantos, fazendo com que lhe tenham pena, mas lhe deixo choramingar no meu colo toda vez que precisar.
Ela se aconchega sob a guarda do seu protetor e se acalenta com o último carinho:
-Das ambições lhe permito todas; só não anseie amor maior que o meu, não quero que perca o seu tempo, borboletinha.....

*citação recorrente.....lsh

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Agosto 13, 2009


 

A MUSA DO ADEUS

Era quase meia-noite quando, descalça, ela atravessa correndo o jardim daquele parque escuro e sombrio, usando apenas um singelo vestidinho levemente translúcido. Chorava. Como se fora permitido aos anjos chorarem, ela chorava. Uma dor apertada, de quase sufocar seus soluços, a fez se debruçar sobre a relva úmida da noite de garoa fria, fina e constante. Um pranto incontido rasgava-lhe os olhos brilhantes e tristes. Contorceu-se no chão, juntou seu destino à lama que grudara ao seu corpo. Sua mente viajava em busca de um momento de paz, mas nada, só lhe apareciam o medo, a dúvida, a incerteza, o choro. Dos céus então desabou uma forte chuva com gotas que explodiam ao tocar o solo. Eram águas mornas, quase adocicadas, quiçá serenas. O bálsamo que nela espocava, em forma de gotas d’água, vertia imagens coloridas, abria janelas tridimensionais de sorrisos seus, como se fosse um portal de uma doce premonição. Ela se levantou timidamente, ergue em dúvida, ainda, a cabeça para o alto e aos poucos vai sentindo cada lágrima de Deus lavar sua alma, despir-lhe do rancor da vida que até então vivera. Brotou timidamente um sorriso, o sorriso! Seu vestido agora parecia ser parte de si, grudado deixou-a quase como nascida, renascera enfim. Uma enxurrada divina parecia lhe banhar os cabelos negros e este carinho molhado escorreu pelos ombros, descendo pelas costas, deslizando pelas pernas e esvaindo-se na mãe-terra. Cada gotícula que penetrava a terra levava consigo uma lasca de seus temores, de seus desassossegos e ela se sentia imponente. Olhou seu reflexo numa poça que se formara aos seus pés e se viu reluzente, viu além da beleza, viu seu futuro, seus sonhos juntados àquele sorriso inocente de outrora. De olhar de esguio pode ver que o as nuvens negras e pesadas se foram e que uma luz lhe abria um caminho, talvez sinuoso, um tanto longo, porém mais claro e cheio de esperanças antes perdidas. E ela se foi...e nunca mais a vi...nunca mais...

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Julho 31, 2009


 

O VOO DA BORBOLETA (conto)

Não foi o torpor devido ao seu olhar lascivo, nem o seu colo ávido como um leito quente em noite de lua fria, sequer foi sua malícia fescenina de tantos devaneios, tampouco foram suas nuances voluptuosas em falsa ingenuidade; não, nada disto foi maior que a alegria que seu sorriso me deixou, nada foi páreo à esperança quase vã que me trouxe aqui, ao julgo dos seus olhos, em jura pedir-lhe um beijo.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Julho 28, 2009


 

O POÇO E O DRAGÃO

Corria em desenfreada disparada. Seus olhos fixos nas estrelas acima, meio em prece, talvez em lástimas, não lhe permitiam vislumbrar a tamanha emboscada que seus passos lhe causariam. Perdendo os pés do chão sente o corpo guinar para as profundezas de um poço de paredes avermelhadas e seco. Estatela o corpo sobre uma camada de lodo verde. Ainda com as dores que mais lhe chegavam à alma, circula no fundo do poço, e, o rumo óbvio era para cima, mas inatingível, como os sonhos da vida, pensara. Preso ali naquele lodo de alma boreal, de um medo visceral, sentiu que se fosse ali o fundo do poço, bastasse! Seu desassossego seria maior ali dentro e nunca seria vergonha implorar clemência, aos céus quiçá. E então ele bradou e muito timidamente o fez. Não precisou esperar muito e lá no alto, uma cabeça de dragão escurece a pontinha de luz que vinha da beira do poço. Como por magia os olhos se cruzam, talvez uma real empatia de quase afeto lhes juntou, porém o poço era profundo demais e o dragão, de medo, de pressa, talvez do não saber, virou suavemente e partiu, deixando-o ali, só. Conformado por não se sentir surpreendido, ali permaneceu, mas, ainda que conformado estivesse, isto não lhe furtou as lágrimas e um choro de horas se avolumou naquele poço. As lágrimas foram se somando por tempos fazendo com que ele se banhasse nelas. O volume de tanto desabafo, das dores que se iam era tamanho que o poço se encheu até a boca de tantas lágrimas e ele assim foi cuspido do buraco como se jorrasse lava de um vulcão. Demasiadas eram as lágrimas que limparam tudo a sua volta, todos seu caminhos estavam às claras, incertos, mas claros, e assim ele partiu, sem olhar para trás, pois sabia do estrago que havia no fundo do poço da sua alma.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Julho 28, 2009


 

“BOREAL”

O dragão, de bocarra aberta e olhos em brasa, esbravejou:
- Você não sonha mais? Conta outra!
E numa mastigada só me engoliu por inteiro, levou-me consigo. Agora sim, posso sonhar de novo, aqui de dentro do dragão é escuro e vazio, porém nada me atinge, estou protegido. Psiu! Não fale nada, podem ouvir, apenas sussurre bem baixinho, pois o que eu não ouvir, eu invento, é o meu alento.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Julho 17, 2009


 

ESTRELINHA

Quase serenava na noite densa de ventania desmedida e eu caminhando assombrado com os fantasmas que carregava em meus ombros. Talvez fosse a garoa, talvez fosse a sombra negra, talvez fosse nada, nada, era porque não havia nada para carregar em meu coração, e eu, me largava lânguido naquela trilha sem fim, sem luz.
Cabisbaixo espiava a vida passar a cada passo que dava e de tanto olhar para baixo, não via o brilho das estrelas, não via sequer uma estrelinha. O céu então se partiu em dois e lá das suas alturas, cadente uma estrelinha, veio a mim. Era de um brilho só, único, lindo e terno. Tirou-me do chão, levando meu sorriso aos pés de Deus e num gestual gracioso me mostrou que nem os meus olhos perdidos, de até então, impediriam a cumplicidade dos nossos destinos.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Julho 17, 2009


 

DRAGÃO
Talvez haja mais dragões, talvez na vida só haja dragões; e os Cometas que passam vêm e vão e não me lembro de como era a vida antes, sem os dragões e com sonhos.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Julho 03, 2009


 

O DESCAMINHO (O DRAGÃO AZUL SEIS - EPÍLOGO)

Quase era noite quando o destino me colocou de frente com o Dragão Azul. Era um belíssimo e exótico animal que amedrontava numa primeira espiada, pois tinha um olhar enviesado, poucos sorrisos e soltava fumaça pelas ventas.
Cambaleava, o Dragão, meio capenga e devido à asinha machucada sequer voava. Parecia ele perdido, sem rumo, sem prumo, sem ninguém. Eu também estava, talvez até mais, mas não me permiti ter tempo para mim e o amparei. Havia ele, noutros tempos, voado mundo afora, visto tantas agruras, sentido tantas dores que seu corpo ficou envolto por uma couraça rústica que lhe protegia e que também machucava aos outros que lhe queriam acalentar, porém tanta blindagem não foi o bastante para proteger o que eu achava que seria o seu coração.
Ali ferido estava, sem autopiedade, mas implorando afago. Aos poucos fui conseguindo acariciá-lo, meio aos rugidos que dava consegui ainda um sorriso, um olhar menos tenso. Os dias ficaram cada vez mais longos e em muitos deles germinavam expressões sinceras de alegria em sua aura. Não demorou e o reensinei a voar e semeei mais vida em seu horizonte. Era prazeroso lhe dar o caminho, afinal sua inteligência era tamanha que parecia saber tudo de antemão, que conhecia tudo. Sem ele saber, apesar de sua paciência ranzinza, aprendi um universo de coisas também, roubei um pouco da sua determinação e guardei muito mais dentro de mim, pois chegaria a hora de aprender a usar. Nossas trocas de afago e experiências ficaram cada vez mais profundas e por vezes cheguei a crer que ele me tinha afeto, mas é da natureza dele ser Dragão, somente gosta enquanto lhe convém.
De tanto dar pequenos voos circundantes sobre mim pegou gosto pela coisa e retomou o sabor da vida, então quis alçar sonhos mais altos. Certo dia as nuvens ficaram pesadas no céu, parecia que o tempo havia parado, algo escondera o sol, trazendo a noite para o dia. Eu estava distante da vida, afinal também posso ser Dragão e cuidar um pouco só de mim. Quando dei por mim passou um Cometa flamejante lá nas alturas, bem mais alto do que eu poderia sonhar que o Dragão pudesse alcançar, mas ele o alcançou. O Dragão se encantou com as cores reluzentes, com a novidade que lhe traziam aos olhos e não se fez de rogado, amparou-se na cauda do Cometa, e egocêntrico como o escorpião que lhe tem a alma, disparou rumo ao desconhecido. Quando olhei para o céu somente me coube um aceno em forma de gratidão, sem afeto, somente um afago e ficou em mim ainda uma lágrima sentida, mas contida.
Como é próprio dos Cometas, eles voltam e um dia ele voltou trazendo o Dragão consigo. E veio triste, mais ferido que da outra vez, a história se repetia. E me doeu toda a dor do mundo. Chegou de asinha murcha, quase um trapo, estava irreconhecível e pela primeira vez eu achei que tinha visto um coração ali batendo. Chorou rios de tristeza e quase pensei que não era o meu Dragão, afinal este nem rugia mais. Nada como o tempo. Sua asinha curou e seu sorriso vinha brotando, porém, como não era conto de fadas, eu desabei. Desta vez eu caí a sua frente e estendendo a mão implorei ajuda, umas poucas, mas inconsoláveis vezes. Mas, é da natureza dele ser Dragão, eu sabia, não era por mal, não mesmo, e sendo assim, ele não me deu guarida e sem hesitar deu uns passos para trás. Quando meu desapontamento chegou aos seus olhos ele me disse que veio a mim como teria ido a qualquer um. Aquilo não me tornava único, talvez especial como tantos outros, mas não o motivo principal da sua volta, tampouco o que eu desejara ser.
E, novamente, como é próprio dos Cometas, este teria que partir. E foi. Pegou rabeira no Cometa com choro nos olhos desta vez, pois eu lhe feri a carapaça com o olhar mais cruel que consegui ter. Mas não doeu muito, ainda o pude ver de longe gargalhando com o Cometa.
Agora está ficando tarde na minha vida. E sinto que o Dragão Azul só vive dentro de mim, ainda sinto suas dores, seus medos, mas não sinto mais a sua alma. Talvez o Dragão nunca tenha existido e fosse apenas uma projeção da perfeição dentro da imperfeição que a vida exige. Vou seguir sem os tantos anis que coloriram minhas histórias, minha vida, meus anseios, e, como é próprio dos Cometas voltar, se um dia o Dragão Azul por aqui passar, não mais estarei...espero....

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Junho 12, 2009


 

A BORBOLETA GRACIOSA II (conto)

Era uma vez uma princesa de codinome Borboleta. Tinha os olhos tão tristes que
pareciam pedir colo. Sua pele era branquinha como a lua mais cheia da noite mais límpida.
Os cabelos pretos e brilhantes escorriam pela sua boca, boca esta que parecia delicadamente
desenhada à mão. Os traços firmes e sutis de sua face aveludada se compunham com seus
lábios densos, desejosos. A princesinha possuía um ar de maliciosa inocência naquele belo
rosto de grandes cílios arqueados. Seu colo era um convite ao aconchego, quiçá à perdição.
Era uma deusa com as curvas de seu corpo em harmonioso e ousado feitio, roubando
suspiros por onde exalava o odor doce de sua presença.
Naquela tarde de quase noite, a princesa passeava pelo jardim do castelo quando se
viu desesperadamente sozinha dentro de si mesma. Abriu os braços girando seu vestidinho
longo e branco no bailado que seu corpo insistia em realizar. Olhos voltados para o céu,
mãos espalmadas para cima e um giro seguido de tantos outros tiram seus os pés do chão.
Ela levita, transcende sua alma a um mundo multicolorido, assim como seus sonhos mais
íntimos, junto aos seus arcanjos serpenteia no ar, fazendo uma dança mística e sensual.
Seus pensamentos levam seus desassossegos para bem distante e ela sorri, o sorriso mais
lindo de todo o reino, o seu! Seu coração bate num compasso suave, lhe trazendo uma aura
de paz, então ela chora, um choro de lágrimas puras e felizes.
Valsando por seus desatinos, ela recompõe suas vestes, seus segredos, seus desejos
e, já saltitando descalça em meio às flores, mira em direção à masmorra que achava ser o
sepulcro de sua vida. Agora, presa também em seus delírios, ela põe o queixo sobre as
mãos, espiando lá bem além das montanhas e num suspiro bem profundo aguarda ansiosa
ao príncipe que lhe mostrará a magia que tão intensamente sonhara há pouco.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Junho 05, 2009


 

CURTAS IX – UM CONTO EU CONTO

Nem era tanto o frio da tarde cinza com seus úmidos ventos cortantes, foi sim a candura de um olhar perdido, de um corpo suspirando afago, que lhe trouxe aos meus braços para um breve refúgio e que agora aniversaria renovando os delírios de ontem para sempre.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Junho 02, 2009


 

A VERDADEIRA LAGOA AZUL
(ou EU E O DRAGÃO NA ILHA AZUL)

Dois corpos enfim chegam à praia após um dilúvio que tombou o barco em que viajavam. Uma moça de olhos amendoados, cabelos negros e compridos, pele lisa e branquíssima. Ele, um rapaz magro, de pouco mais idade que aparenta e traços de quem sorri muito.
Nunca se viram, mas sempre se amaram. Era um amor que brotara no navio e culminou numa troca de olhares e apertos de mãos nas ondas que os levaram à ilha deserta.
E lá estavam. Na beira da praia. Areia clara. Arbustos baixos, cachoeira de águas claras, frutos que caem do céu.
Então, era o primeiro dia no paraíso na Terra. Teriam que construir um abrigo, pois a noite logo chegaria. Pequenos galhos e folhas secas seriam seu material e daria certo?
-Bem, vamos amarar com o quê? – pergunta ela.
-Com cipó ou fibras trituradas de alguma árvore de casca solta.
-Ah, facinho. E vai cortar com a língua? – diz ela docemente.
-Ehhhhhh bom humor!!!! Sei lá, podemos pegar duas pedras, batermos uma na outra e forjarmos um instrumento para corte.
-Vem cá, você anda assistindo muito Discovery? Isto é pra hoje.
-Olhe lá, podemos ficar naquela caverna adiante, ainda é perto da areia.
-É, e como saber se já não tem dono, tipo um bicho?
-Você é difícil de agradar, né?
-Façamos uma tocha e eu espanto o que tiver dentro da caverna.
-Fogo a gente faz como mesmo, já esqueci – diz ela com ironia
-Vamos recomeçar, eu pego duas pedras...
-Ah vá se f...
-Mal educada!
-Tenha paciência! O que a gente vai fazer?
-Para de perguntar e faz algo também, dê idéias se possível.
-Tá. Pede uma pizza que to com fome! – Diz ela de sorrisinho esperançoso.
-Pode deixar, vou ligar deste telecôco e pedir pro babuíno mandar uma meia capim, meia erva-cidreira, assim você se acalma.
-Aproveita e pede cicuta também para acompanhar.
-Menos, menos. A gente ainda vai rir disto um dia.
-E estes frutos aqui? São de comer?
-Podem ser de comer e de depois morrer, vamos experimentar?
-Passo a vez.
-Eu como um, se eu não morrer você come também, certo?
-Ai, para com isto! Joga isto fora! Pronto! Não quero que você morra, poxa!
-Nossa, quanto amor, me emocionou.
-Quê amor o quê! Eu que não fico nesta merda sozinha, não mesmo!
-Eu também não fico sem você, então ninguém come! Pronto. O que foi, tá com dor?
-É que queria era fazer xixi. Onde faço? Oh, tem papel aí?
-Papel higiênico? De que cor você quer? Lavanda ou jasmim?
-Babaca!
-Linda!
-Bobo. Fala vai, quero ir ao banheiro!!!!
-Bem, pode ficar ali atrás daquele mato.
-Dali você vai ficar me vendo, o rosto pelo menos você veria.
-Quê tem? Você vai fazer número um, né?
-É.
-Então, você não vai fazer careta.
-Grosso. E se me der outra vontade? Vai dizer que você nunca foi pra um e fez o outro?
-Tudo bem. Então vamos fazer nosso banheiro atrás desta pedra.
-Mas, não quero ser chata, e os dejetos, pra onde vão?
-Você chata? Imagine....A gente pode fazer uma latrina, um buraco no chão.
-Tenho até medo de perguntar....mas como vamos cavar?
-A gente pega duas pedras...
-Vai tomar no seu...
-Pára! Já sei, já sei....Faz no mar...mas espera a corrente mudar de direção.
-Ah, ta, farei isto todo dia até vir o Greenpeace reclamar que to poluindo o meio ambiente. Não rola poluir, ainda mais se vamos morar aqui um tempo.
-Tudo bem, pega esta sacolinha do Carrefour e se diverte enquanto eu penso no futuro.
-Afff...deixa pra lá, travou! Daqui não sai nem pensamento agora.
-Nossa, você ficou toda rosada. É prisão de ventre? Se for é a mais louca que já vi na vida!!!
-Nada a ver. Males de ser branca, após a água salgada e o sol. Sem dizer que estes malditos mosquitos também não ajudam. To ficando empolada.
-Você podia passar algo na pele pra evitar insolação.
-Alguma ideia Magaiver?
-Lama.
-Isto você sabe fazer e nem precisa de pedra, presumo.
-Opa, claro. Vem comigo. Chegamos. Ta vendo esta terra escura.
-Estas bolinhas não são cocô de rato não?
-Eu não entendo de merda, vai ter que se arriscar. Olha, com água, ficou uma lamazinha pretinha.
-Nem vem, prefiro torrar no sol.
-Pensa bem, isto é a verdadeira linha Natura, vai aí?
-Não. Vou nadar aqui perto da cachoeira, vai me aliviar da ardência.
-Você nada bem?
-Como uma pedra, se não fosse o colete salva-vidas nem teria sobrevivido ao naufrágio. Só vou até o raso.
-Legal, mas como vai saber se é raso? Quando afundar? Eu também nado que nem uma bigorna, não conte comigo.
-Inútil. Peguei este galho e vou ver a profundidade.
-Cuidado, pode haver piranhas, jacaré...nunca se sabe.
-Você é terrorista, né? Pode falar, você me odeia? Meu beijo é ácido?
-Calma lindinha, estou só lhe protegendo. Agora veja, que lagoa linda, todinha azul, os raios de sol reluzindo, cascata de água cristalina....Olha que bonitinha aquela cobra d’água...
-Caramba!Anda, anda, dá que ela saia correndo atrás da gente! – Sai em disparada a mocinha.
-Correr não é o forte dela porque não tem pés, mas não vou discutir contigo.
-Puf, puf....cansei....não aguento correr mais. Será que ela vem atrás da gente? – diz a moça de mãos nos joelhos.
-Não sei, mas deixou sua camiseta lá de lembranças. Era feia mesmo, né?
-Era sim, nem gostava da cor. Ganhei de amigo secreto.
-Presentes de amigo secreto é o ó; né?
-O que a gente vai fazer? To com fome, cansada, com sono...
-Senta aqui ao meu lado. Vem cá. Assim. Pelo menos temos um ao outro nesta ilha paradisíaca, quase afrodisíaca.
-Capaz! Nem vem. Não há amor que resista a estas condições. Olhe meu cabelo!
-Tá lindo assim meio, bege?
-Quê? Ta descolorando?
-Deve estar, mas você continua linda e esta sombra escorrida no canto dos olhos dá um ar quase vampiresco, exótico mesmo!
-Socorrrrrooooo!
-Hei, não precisa pedir socorro por causa disto!
-Ai, tonto, é um helicóptero! Ajuda a acenar! Grita, porra!
-Ah, sim. Deve ser o resgate que eu chamei pelo celular. Demorou, ne?
-Você tinha um celular? E não me disse nada?
-Ah, você não perguntou, você quase não pergunta....

Moral da história: Ilha deserta só é paradisíaca se tiver um hotel e muita gente!

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Maio 07, 2009


 

AMORES DISSOLUTOS
(Vatukaiéks)

Tem quase um mês que não amo ninguém em meus sonhos. Ah, cadê meus desassossegos soturnos de noites de luas vagas? São estes os únicos amores fiéis, os mais ternos, eternos, etéreos que alguém possa conceber, conceder, conseguir. Venham a mim, amores dissolutos, renascerem em meus braços nas doces vigílias desta noite.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Maio 04, 2009


 

CURTAS VIII – REMINISCÊNCIA, QUASE, INCOLOR

Não há caminho que me leve ao seu coração, pudera, não há estrada para o lugar nenhum.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Abril 14, 2009


 

SOLILÓQUIO

Nunca.
Nunca a vi.
Nunca a vi por dentro.
Nunca a vi por dentro da alma.
Nunca a vi por dentro da alma na noite.
Nunca a vi por dentro da alma na noite mais serena.
Nunca a vi por dentro da alma na noite mais serena e soturna.
Nunca, jamais a vi, nunca e jamais é tempo demais.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Abril 07, 2009


 

RASGO-ME, E, FIM

Já não me tens no furor exarcebado de outrora,
Quiçá nunca o tiveras no amanhecer da aurora.
Minto! O tivera sim, roubaste-o de mim,
Puseste-me em desassossego enfim?
Quimera que nunca fostes qual tamanho que me devora, Rasgo-me eternamente o coração mundo afora!

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Abril 01, 2009


 

O DRAGÃO AZUL CINCO (AOIRYU)

É noite. Caminho pela rua, meio trôpego, meio distante, meio vivo, meio não.
Poucas são as luzes que me alumiam pelas ruas asfaltadas e ainda com uma garoa fina se achegando parece mais pesado o andar. Encosto cansado numa mureta próxima à calçada. Olho pra bem longe, lá próximo de onde está mais escuro. Um mosaico se forma em reviravoltas de luzes amareladas com densos pingos de chuva e moldam uma lembrança, talvez um sorriso, não sei. Esfrego os olhos, a imagem se vai, se foi. Forço o olhar naquele ponto ali distante das minhas mãos. Fixo-o. Repentina e vagarosamente a garoa se ajunta à neblina, que nascera sem aviso, e constroem um caminho acolhedor, quase manso, com postes altos de madeira, casinhas miúdas, estradas estreitas de terra, um sotaque de erres arrastados, uma brisa com gosto de mato, um silêncio ensurdecedor e novamente o sorriso, o mais belo que os deuses permitiriam aos mortais merecerem, enternece a seara da minha madrugada, mas, como se fosse surpresa, dura pouco e vai. Emblemado em meu peito repousava a figura tatuada do dragão que assolava os azuis de meus tormentos e parece sorrir, o mesmo sorriso da noite. Sob um raio luminoso vindo dos céus, ele, rompe o espaço que lhe tinha (entregado) em meu peito, abre as asas em curva ascendente, fita-me como se fora o adeus de toda uma vida, sacode a cauda, esbafora seu hálito quente secando suas lágrimas antes que chegassem ao chão. Rasga minha pele, despe minha alma, subjuga meus delírios e se vai. Tudo turvo, olhos em chamas, ardendo; ardentes cúmplices de outros tempos. Há mais neblina, mais molhado, afinal garoa é quase chuva (lembro...).
Ando, de novo. Ruas escuras, molhadas, vazias, nem dragão, nem nada.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Março 24, 2009


 

CURTAS VII – ÉRATO

Numa vila muito distante dos dias de hoje, era sabido que somente aos cegos seria permitido receber as dádivas das Musas: deusas das poesias, arte e inspiração....sábio que não sou, voltei a enxergar....

Por: André R. Melchiades Sábado, Março 07, 2009


 

“SAUDOSA MALOCA”

E era quase chuva. Era quase verdade. Era quase gente.
Talvez não sã, talvez uma mente vã, talvez carência do divã.
Ausente, nem sente, nem crente, nem gente, apenas mente.


Por: André R. Melchiades Sábado, Fevereiro 28, 2009


 

TULE DE BEIJOS (conto)

Sutilmente se ouvia Cure ao fundo. A festa estava animada, mas com uma névoa letárgica, quase deprimida.
Era uma casa de dois andares, pintada de trepadeiras por toda sua fachada, mal se via as janelas e tampouco o portão de entrada. Com custo se achava a entrada: negra como a noite. O corredor de acesso à festa era coberto de junco seco e as paredes tinham, a um intervalo irregular, algumas tochas feitas de bambu. A sensação que aquilo pegaria fogo era assustadora. Caminhando lentamente pela passagem, via alguns casais se entrelaçando aos beijos, outros, de olhares esbugalhados, indagando sua presença.
Antes de entrar na casa, havia a recepção solitária de um isopor, escuro, e dentro algumas bebidas de teores alcoólicos variados. O enorme salão era a própria festa. No meio deste desciam véus de tule que faziam as pessoas se sentirem presas, abraçadas à força por aquele tecido áspero e com um cheiro adocicado pela fumaça branca que vinha do chão. Estava bem escuro, além da fumaça pouco se via e se via, eram vultos e falsas imagens. A luz negra criava um clima ainda mais denso e os poucos que então lançavam seus corpos ao balanço da música, pareciam embriagados pela canção, outra vezes, não só pela canção.
Cada um que passava mais perto deixava um pouco do seu semblante na memória, afinal a festa à fantasia, um quase dia das bruxas, causava mais curiosidade que medo.
E lá ele estava. Com seus pensamentos distantes, roupa que era o próprio breu, olhos avermelhados, sobrancelhas eriçadas, cabelos bem espetados, um corte longitudinal no rosto pálido, totalmente descaracterizado e com as mãos irrequietas. E assim, completamente ensimesmado, bem de perto, sentiu uma coisa tomar forma, alva, e mais doce que todo o perfume da sala:
- Quem é você? – a bruxinha de tubinho preto e bem colado pergunta.
- Eu, sou seu pior pesadelo! – responde meio rouco, nervoso com a beleza da musa, mas com um tom de sarcasmo, quase malícia.
- Hum, que medo. Você morde? – diz a mocinha de sorriso acolhedor, cabelos escorridos e corpinho de deusa.
- Só mordo mocinha bonita!
- E será que passo ilesa por aqui então? – deixando quase cair a tacinha de algo vermelho que bebia.
Ela então brinca de fugir por meio do véu. Ri, e foge, mas não muito. Olha, para trás, se vê calmamente perseguida. Os véus se entrelaçam, ela fica presa como numa teia de aranha e aos poucos sente os braços dele apertarem os seus. Seu coração acelera freneticamente ao deixar-se ser trazida para cima do peito daquele estranho. Ele a agarra pela cintura, fazendo com que seus pés flutuassem. Um beijo seco, voraz foi nascendo e aos poucos uma paixão inesperada adoça o momento. O contato dos lábios fica mais íntimo, as mãos delineiam o corpo de ambos, brotam os primeiros sussurros. Uma cumplicidade de olhares, de leves mordidas, de encantamento até, acirram os desejos e ao som de Torch se ouve um gemido acutíssimo selando a aflorada paixão.
Os dias se vão. Não há mais festa. Tampouco a fantasia que cobria seu rosto. Ele chega ao bar. Poucos eram os amigos que ali estavam e os que estavam só falavam da festa de semanas atrás. Subitamente o último chega, trazendo consigo uma companhia diferente:
- Gente, esta é a minha namorada que estava na festa comigo. Lembram dela? Ela adorou a farra. Disse que nunca se divertiu tanto......
Todos a cumprimentam. Aqueles que a viram na festa, os que não viram e ele também. E assim ele disse, sussurrando calmamente no ombro dela, ao lhe dar um beijo de boas vindas:
- Muito prazer, sou o seu pior pesadelo.......

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009


 

GRACIOSA

Ela mirava um ponto distante, vago naquela vasta paisagem. Cercada de árvores com troncos espessos e por montanhas com as bases se encontrando no horizonte; não percebia vultos, não ouvia sons nem de seus suspiros, sequer sentia um sinal de vida, nada além das palpitações do próprio coração extenuado. Os olhos felinos perdiam-se na imensidão de si mesma, havia somente seu vazio e todo aquele mundaréu ao seu redor não passava de um beco escuro e solitário. O riso, de tantos gracejos fáceis, permanecia ali, mas estava opaco e mesmo assim, morno, permanecia cativante. Cansada dos dias insossos, ela lentamente se pos a caminhar pela relva, já vinha o despencar da tarde, com o sereno vespertino daquele fim de desassossego. E foi, e tropeçou, e se ergueu e ainda mais longe de sua mente, foi. Exaurida dos passos que dava em torno de si, estatelou-se no chão! As mãos, em cunha sobre a pele branca, cobriam o rosto deixando escapulir algumas furtivas lágrimas de um choramingo carente. Súbito, outras mãos lhe recobrem os vãos entre os dedos, impedindo que estas poucas lágrimas caíssem. Timidamente ela ergue os olhos, libera um sorriso tanto mais doce, estende delicadamente os braços, cerra suavemente os olhos e se permite a um abraço longo, apertado, eterno. Após infindáveis minutos, sente lábios umedecerem levemente os seus, brota um suspiro profundo e sutilmente abre os olhinhos marejadamente esmeraldinos e então se vê só outra vez....mas sorri, o sorriso mais lindo de Deus, pois sabia afinal que nunca poderei caminhar todos seus passos, mas estarei em você, lhe guiando, amparando e lhe esperando em cada porto por que passar.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009


 

BAILAR DAS MELENAS NEGRAS

Brotou a vida num sorriso
Vasto, terno: ardor sem fim!
Resenha de um mundo conciso
Paraíso, seu colo, meu jardim.

Bailam melenas negras na rua
Emolduram seu rosto com afã
Vertendo a noite escura em lua
Colorindo o raiar da manhã.

Tez de anjo e lábios delicados,
Sutis sussurros, tenros delírios,
Doce heresia do arcanjo em pecado.

Olhos, duas pedras, uns cristais:
Verdejantes brilhos ofuscantes,
Daqueles que não esqueço jamais

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009


 

(OLHOS COM) BRILHO DE MANGÁ

Havia ainda uma caverna abaixo do precipício. O acesso parecia intransponível, tantos eram os percalços, os medos e o desconhecido também.
Ainda assim, trôpego, fui capengando, ladeira abaixo, sentindo os passos se afundarem na lama negra do meu caminho. Teimosamente, sabe-se lá por quê, insisti nas passadas duras, na busca sem jeito, quase sem prumo, mas com o destino claro de explorar o fim do todo. De pés postos firmes sobre uma pedra lisa, observava a escuridão na entrada daquele buraco sem término. Sons pouco inteligíveis aceleravam meu pesar, me vi perdido, mesmo que o ambiente me viesse no obscuro da mente, senti meu espírito léguas dali.
Como se em perspectiva crescente duas luzes de um esverdeado cristalino propagam uma aura sobre mim. Apesar do estranho inesperado, nem senti desejo de me mover, fiquei inerte apreciando a luz tomar forma. Negros e longos eram os fios das melenas que se entrelaçavam sob a garoa, o sorriso, que compensara cada tristeza que eu tivera na vida, se vislumbrou a minha mercê, os contornos, nem tão pueris, colocavam ternura no jeito voraz de quem protege, e num levante ágil, aqueles olhos, de um brilho de mangá, me atravessaram a alma, verdejaram meus sonhos mais lindos e os mais infames também. As mãos, que de tão gentis pareciam angelicais, acariciaram meu queixo, ergueram meu rosto, me puseram de frente ao brilho cândido daquele olhar e, inebriado pelo odor do seu perfume acre, deitei os medos no abraço mais apertado que uma gentileza permitia. Suspirei a eternidade daquele abraço e quase percebi o mesmo, mas não ousara pensar isto por muito tempo. Docemente ouvi sussurros sem freio, comprometido com a pureza da verdade, mesmo as impuras. Vivi a eternidade num breve momento de ternura.
Quando as asas então se abriram, percebi: anjo. Suas mãos se afastaram e no seu semblante percebi também uma lasquinha do seu medo medo, um tantinho de tristeza. Numa revoada celestial outros tantos anjos se juntaram e acalentando quem me dera guarida até então se foram. Meio perdido, mas com a alma repleta de esperança, entrei na caverna que agora luzia com todas as cores. Não havia mais temor de invasões desmedidas dentro de mim, e, quando por um segundo uma sombra me assolou o coração, outros olhos, de um tom mais escuro, mas de igual candura ao que me deteve à porta, valsou dentro de mim...então olhei para o céu e disse: - Eu que queria tanto ser o anjo de alguém, agora tenho que aprender a desejar os anjos por perto.....

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009


 

OLHOS DE BRONZE

Parei em frente à estátua. Era uma tarde de nuvens densas e gotas de um pesar lacrimal despencavam de Deus. Vislumbrei um colo naquele esboço de mulher, me vigiando, dominando meus deslumbres tortos, espiando de viés se dos meus olhos escorriam. Acho que se passaram séculos e eu não me mexia, sequer sentia o pulsar do meu corpo que estático virou alvo para os olhares curiosos, até para mim mesmo que me via absorto em pensamentos de afago que mais me vinha da alma fria e gélida da estátua sóbria do que de quaisquer outros olhos mais vívidos.


Gloria Imortal Aos Fundadores de
São Paulo - Amadeu Zani - 1925



Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Janeiro 30, 2009


 

OPONHO-ME

Sou o oposto. Oponho-me às saudades. E só tenho saudades distantes. Minha saudade nasceu na primeira vez que a vi, pois eu já sentia a sua falta no amanhã por vir. O dragão que se acha fênix, afinal renasce das cinzas, das minhas, é parte da minha saudade, saudade de ausência. Ainda assim, oponho-me às saudades, ninguém sabe, psiuuuuu...silêncio!!!!

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Janeiro 26, 2009


 

O DRAGÃO AZUL QUATRO (AOIRYU)
(Op's, Se tiver curiosidade e paciência, leia bem mais abaixo O Dragão Azul (um), Dois e Três.)

Daí como num delírio desmedido o Dragão insurge e se põe com as patas dianteiras curvadas, cauda eriçada e cuspindo labaredas, doces, de fogo, questionando:
- Por que sou Dragão?
O céu, de tantos azuis que até doía os olhos, tornou-se pálido, um anil com secura de cores, e se pos a alimentar o saber daquele ser tão enigmático:
- É Dragão porque assim se fez. Porque tem a candura e a crueldade nos olhos. Ser Dragão é ser forte, é ter a alma repleta de si, é ter ainda a alma muitas vezes vazia. Também é ser Dragão descender dos céus, ser divino, mais ainda, é proteger aos que lhe cabem. Dragão descende do pecado, ascende ao pecado, permanece no pecado e foge todo dia do pecado. Amanhecer Dragão é ter a plena consciência de sua dualidade; mas sempre em sua plenitude; se é bom, ótimo, se é ruim, melhor.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Janeiro 19, 2009


 

O DRAGÃO AZUL TRÊS (AOIRYU)

O Dragão Azul se foi. Nunca mais se ouviu falar dele. Era sabido que quando o Dragão encontrasse seu caminho o faria sem pestanejar, sem deixar traços de sua ida.
Acontece que parte do Dragão vive em mim agora:
“Sinto uma névoa de hálito acre envolvendo meu peito quando meu coração se deleita, é como se fora um presságio e assim ponho minha vida em eterna resistência.
Outras vezes sinto minhas palavras saírem quentes como se estivessem sendo guiadas por labaredas intensas com odor de enxofre que antes ataca para me proteger.
Em muitos momentos saem das pontas dos meus dedos enormes garras que se põem contra meus lábios tentando me impedir de ter um sorriso fácil.
Quando eu choro, se choro, as lágrimas escorrem ferventes sobre minha pele, me fazendo amenizar qualquer dor, impedindo meus lamentos, secando meu pranto.
E nas horas em que meu pensamento busca o pretérito perfeito ou ainda sonha com o futuro mais que perfeito sinto a cauda pontiaguda do Dragão aniquilar meus neurônios, trazendo-me aos infortúnios subjuntivos do meu presente, sempre.”
De outra forma, vejam, agora também virei Dragão, sou o todo de uma parte dele, ainda aprendiz, mas já ferino, desconfiado e caminhando pra viver num mundo só meu.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Janeiro 19, 2009


 

GOTEIRA

Debruçada próxima à janela, ela via a água escorrer pela telha de cerâmica que sobrava no beiral da casa. Havia na verdade um gotejamento, cada gota era, espiando de longe, simetricamente perfeita como às demais que nasciam naquela sobra de casa. Contudo sabia que não poderiam ser tão semelhantes assim. Olhando de perto todo mundo é diferente, nem pior, nem melhor, diferente. É só ouvir e deixar sentir, logo não seria o contrário com as lágrimas do telhado, seriam diversas de uma mesma forma diferente. Por mais que olhasse os pingos d’água não podia senti-los, não percebia suas singularidades; assim como ninguém sente as dores alheias, por mais que vejam, que ousem entender e criar paralelos, ninguém sente suas dores, só você.

Por: André R. Melchiades Domingo, Janeiro 18, 2009


 

A FÁBULA DOS PINHEIROS

Era uma vez um pinheiro bem alto que vivia expondo seus longos galhos para o céu azul toda dia que amanhecia. Estava cada vez mais virtuoso e deslumbrante, ainda mais, parecia exalar o mais nobre dos perfumes. Não havia um sopro de vento que lhe despenteava as folhas cuidadosamente arranjadas pelo destino. Ficava o pinheiro numa planície repleta doutros tantos tais como ele, porém imaginava que talvez fossem menos glamourosos. Sabia ainda que era mais belo que os outros pinheiros que ficavam à margem da planície. Aqueles coitados não vislumbravam do mesmo solo farto de nutrientes, sequer se esbaldavam da água que desciam pela encosta da montanha em fortes cachoeiras e que trazidas pelo vento massageavam os troncos com sutis gotículas.
Então nasceu uma outra manhã e um estrondo medonho tremeu a relva toda, um feroz terremoto alargou o chão criando um vale imenso. O largo vale que se formou sugou os pinheiros que estavam distantes, aproximando todos, os mais e os menos frondosos.
Aquele pinheiro mais charmoso bem que tentou não se sobrepor aos demais, mas era da natureza dele ser assim, era de ser altivo e imponente. Os outros pinheiros, alheios aos desassossegos que lhe causavam aos nativos daquela planície, tentaram ser servis, gentis, mas suas atitudes apenas não lhe bastavam, faltavam folhas, galhos, imponência.
Deu-se então tempos depois uma intensa tempestade de ventos uivantes e cortantes. Tantos eram os trovões e raios que se espatifavam ao chão que a terra chacoalhava como se fora outro tremor. Labaredas de um fogo laminado sapecavam algumas das árvores. O vendaval contínuo não deixava folha alguma presa nos pinheiros.
A noite se foi, deixando amanhecer uma nova vida. O belo pinheiro agora era qualquer uma das árvores, não mais havia beleza de que ser sobrevivente de todas os infortúnios da vida e os poucos galhos que sobraram de pé eram como ombros para acalentar aos que deles sempre precisariam.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Janeiro 06, 2009


 

OUTRO JANEIRO (FELIZ ANO NOVO!!!)

Donde estava podia contemplar o pouco de céu azul que as copas das árvores permitiam. Fragmentos do pálio que recobriam o dia iam se decompondo, esvaindo-se lentamente. O mundo passou a ter sons estrondosos, nuvens espessas fatigavam meu repouso de olhar ao infinito. As nebulosas eram densas, carregadas de tanta água que mais pareciam lágrimas abundantes de um amor que se foi ainda cedo. E rompeu a aurora do meu primeiro dia, ainda que exausto, abria-se sereno e resignado, pois sabia que talvez nunca mais haveria um azul sobre meu jardim, mas sabia, sabia sim, que oazul , daquele céu de outono no berço do verão, permaneceria vivo em cada lembrança que eu desejasse.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Janeiro 02, 2009


 

LUZES

Tantas eram as luzes tingindo a cidade com cores resplandecentes que meus olhos rebrilharam todos estes contrastes dentro dos meus mais secretos desejos. Compunha nos meus desatinos o afã de um abraço longo, um beijo úmido, talvez de um arrocho devassado. Com a noite partindo, levou-me também, deixei os deleites para trás, os medos trouxe comigo e a luz que me vinha agora era o alvorecer tímido de toda manhã de delírio.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Dezembro 26, 2008


 

SONHAR, SONHAR GRANDE

Foz.
Quiçá de meus desejos e afeto, talvez dum grande amor assaz.
Faz.
Algo simples que me marque a vida, talvez um beijo estalado e fugaz.
Fiz.
Tranquei o dragão de meus pesadelos, talvez já na eternidade voraz.
Voz.
Seu sussurro em desatino, talvez súplicas de carinho ou ainda lascivas demais.
Vás.
Que tu sigas comigo de mãos dadas, talvez nunca a soltes ou ainda a apertes mais.
Vis.
Infames medos que deixemos atrás, talvez todos ou ainda nem os lembraremos jamais.

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Dezembro 24, 2008


 

OLHOS VERMELHOS

Então caiu um pedaço do céu sobre meus ombros. Os pés descalços sentiam o cascalho transpassando a pele, era uma dor acutíssima, letárgica, fingindo ser timidamente discreta. A poeira, que enfim baixou, tapou a luz que alumiava a manhã dos meus olhos vermelhos, enganei a vida e usei a vermelhidão para deixar escapar as lágrimas que banharam meus lábios e inundaram meu coração.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Dezembro 23, 2008


 

RASGO DE LUZ

Alvoreceu naquela desesperança densa e negra. Jaziam tempos de emoções escassas, até castos. Brotavam ofuscantes, na escuridão da noite insólita, tantas luzes daquele olhar graúdo que me rompia a alma. E veio, me deu guarida, me cercou em seus cuidados, e assim, timidamente, me pus a dar os passos à porta que se abria. Abriu-me por fim uma fresta, tão insegura quanto eu, mas o universo por trás daquele rasgo de luz versava cantigas de afago, de ternura, rompantes e fui, fomos.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Dezembro 22, 2008


 

ALENTO

Sou um anjo sem a quem guardar. Às vezes parece tão tarde nos anos da minha vida, mas vejo de longe o derradeiro dia deste filme. Assim, esperançoso na minha resignação fortuita, guardo o anjo dentro de mim e aguardo de olhos vívidos, ávido por um coração miudinho, apertado mesmo, querendo afago, desejando ter sonhos para se encantar. E quando finalmente cruzarmos os olhares, então lhe darei asas, criarei doces fantasias, remontarei seus medos, menos fortes, menos que medo. Sempre, sempre estarei quando os sonhos escaparem dos seus delírios, os juntarei todos para você e cada pedacinho do seu sorriso que eu resgatar nas suas noites de vão desamparo, alumiará a minha alma pagã, e enfim, serei sim o anjo da sua guarda.

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Dezembro 18, 2008


 

SEM A ALMA NOS OLHOS

Hoje não quero ver seus olhos. Nem que fossem os olhos do desejo me inspirariam vê-la neste dia, em um dia. Fugiu-me da alma o doce dos seus carinhos, não lhe reconheço nos meus pensamentos rompantes, minha mente não lhe desenha mais, foi-se de mim o perfil que tanto acariciei, perdi sua lembrança, perdeu você.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Dezembro 05, 2008


 

APENAS RUDE

Que naquele coração já não cabia mais amor, ainda que lhe faltasse tal sentimento, ali não lhe insurgia mais nada, estava todo tomado de si; doce e rude, agora, apenas rude.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Novembro 25, 2008


 

SETE MINUTOS DE UM ABRAÇO

Havia uma voz em soluços naquelas linhas tremidas, meio perdidas, talvez um tanto sozinhas de vida. Percebia-se um pouco de choramingo que prendiam alguns fios de cabelos naqueles lábios grossos, pairava o medo latente de que a existência fosse ainda mais penosa e em meio ao seu desassossego lutava para prender a alma sorridente no corpo cansado pelo alto das horas. Assim foi nascendo um abraço dentro do meu corpo que em acelerada insanidade queria protegê-la, detê-la de si mesma, ainda que o espaço o qual nos unia era o do universo. E ela, ah, ela sentiu o aperto forte dos meus braços, se aninhou e adormeceu que nunca mais despertou para a vida, afinal agora estava em sonho.

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Novembro 20, 2008


 

"BEIJO DE UMA ROSA"

                           Ainda é cedo para o amor,
inda que seja tarde:
                          Inda que não seja capaz,
inda assim ame-a mais.
                           Inda nos dias sem anis,
inda breve não mais vis.
                           Inda mais que nunca se apaga,
Inda que o fogo de amar se arde, ainda assim, doce propaga.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Novembro 10, 2008


 



Daí vi a luz da manhã surgir trazendo um “estranho belo dia para se ter alegria”. Recolhi a última lágrima antiga e tirei a felicidade do armário. A cada compasso repunha minha alma desassossegada no prumo. Pus meus pensamentos nos deleites antigos em que à beira do barranco, com os pés sob a terra vermelha e úmida pela água da chuva, minha conquista maior era ter onde pisar no seco, e, ali eu era o centro do universo, o pilar das minhas emoções. Revi sem pressa, sem apego, sem nada mesmo o quão a ausência de mim é mais importante que qualquer outra; se me falto ao meus delírios, me falta tudo.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Novembro 03, 2008


 

MINHA IRA POR TECHNICOLOR

Talvez mundo melhor fosse o de antes da Technicolor. Os meus filmes das noites soturnas as deixam inda mais, as películas se casam com o acaso e maquinam um apanhado de cenas para um desfecho lacrimoso. Quando pior, advêm as reminiscências não bem quistas, maldição Technicolor, e o coração aperta, coração dói sim! É um olhar enviesado que lhe põe noutro lugar, um lugar que lhe põe num afago, é um beijo não dado que você meio relembra o gosto daquele já esquecido, é uma jura quebrada que agora lhe aviva o gosto, amargo, do beijo.
Se não fosse a Technocolor ainda me furtaria de momentos menos abstratos dos filmes, os pastelões e romances com auge de sutis selinhos me verteriam numa alma inocente e acredito melhor.
Hei, que tal fazerem filmes com começo, meio e fim felizes? Basta de quem vê a magia somente na pluralidade dos seus neurônios insanamente nervosos, que vê a vida através de um prisma obscuro e funesto, fazendo os minutos de abraços perderem espaço para horas de desatinos por causa de frases perdidas num vazio de alma. Quem pensa demais morre só.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Outubro 28, 2008


 

BLUES MOON

Tornou-se lua minguante. Que antes, quando mais sutil, permissiva ficava em até duas vindas e assim ganhara nome de cor. Talvez a candura desconhecida lhe trouxera cansaço, tantos à espreita como se ofertassem suas lágrimas fizeram lhe desbotar o brilho. Ser a ribalta dos sentimentos mais etéreos não lhe mais cabia lida, quiçá nunca o devesse. O farol dos anjos sucumbiu, uma lua se enegreceu, a vida segue, meio sem graça, meio sem jeito, e, antes que o tempo feneça amanhece um sol com as luzes que se negaram à noite passada.

Por: André R. Melchiades Sábado, Outubro 18, 2008


 

SANTA RITA

Tudo era branco demais, até o manchado em algumas das vestes era branco demais. Todos os sorrisos, alguns nem verdadeiros, traziam os trinta e tantos dentes alvos o bastante. As roupas de cama ofuscavam com tanta brancura. Agora passavam pessoas que mal tinham rostos, estavam cobertos por máscaras claras e o branco dos olhos ressaltava alguma candura. Noutro aposento, por assim dizer, vinham luzes fortemente brancas sobre mim, iluminavam até minha alma. Lá quieto fiquei e via gente sem rosto, vozes sem fala, barulhos irreconhecíveis e depois um silêncio interminável. Aquilo poderia sim ser algo deprimente, não passava de um vazio; estava eu comigo mesmo e nada, nem ninguém mais. Na lentidão que o momento carecia, senti uma necessidade de abrir os olhos que havia posto insistentemente cerrados. Traído pela visão turva apenas vi uma mancha verde que foi paulatinamente tomando a forma de uma máscara, sim, uma máscara esmeraldina que cobria os lábios que dizia “Sou a Melissa”. Desfez-se da máscara, pois eu não me permitia ouvi-la de tão petrificado que fiquei e assim, inocentemente ela achava que a ouviria melhor. Encantado pude vislumbrar que havia muito vermelho dos lábios pintados, um leve verde escuro sombreando os olhos miúdos que eram de um castanho escuro e uns fios longos de cabelos pretos que ficavam no cantinho da boca que calmamente sentenciou: “Vou lhe deixar nos sonhos daqui a pouco”. E o daqui a pouco veio de uma vez, perdi novamente o colorido, tudo ficou branco de novo e nunca mais tive suas cores.

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Outubro 16, 2008


 

QUANDO EU FOR ANJO DA GUARDA

Todo dia ela se levantava pelo lado esquerdo da cama. Era um ritual de que não se dava por conta, mas o fazia religiosamente. Acordou naquele dia em que deixara de véspera seu vestido mais decotado estendido ao seu lado e como o pôs a sua esquerda teve que contornar a cama fazendo um trajeto diferente do leito ao mundo. Pensou que o caminho até era mais curto e nunca o fizera antes, sempre teve todo espaço, todas as direções, contudo, usava invariavelmente o mesmo, o mais seguro, o mais cômodo:
-Por que eu nunca vi que fazia isto antes?
-Na verdade era o que não fazia.
-Como assim?
-Arriscar-se, isto é algo que você desconhece, pois vive sua vida abaixo do limite, abaixo dos riscos.
-E isto é incorreto por acaso?
-É uma maneira de viver, se pode caminhar séculos nesta baladinha, evitando infortúnios, contendo emoções e desassossegos ou se pode dar um sprint e ter a vida passando como um raio a sua frente, repleta de laços e carregada de histórias.
-Tenho minhas histórias, muitas e posso ter quantas mais quiser...
-Claro que sim. Quem vive começa a escrever páginas de história a todo amanhecer, mas quem escolhe o lado da cama?
-Eu sempre escolho o lado esquerdo!
-Porque sua história é monótona, só você a escreve, são variações sobre o mesmo tema, nunca entrega a pena para versar a quatro mãos.
-Assim me vejo desinteressante e sei que não sou.
-As pessoas não são o que elas acham que são, elas são o que os outros acham dela. Você é uma pessoa diferente para cada um que lhe conhece, inclusive para você mesma.
-Sou a mesma pessoa para todos. Tenho uma só personalidade, gostem dela ou não.
-Não acredite nisto. Cada um vê o que quer ver, o que sente ou até o que lhe passam.
-Olha, eu sou muito objetiva e sincera, não deixo brechas para dúvidas quanto ao que sou, ao que penso, ao que faço para pensarem de mim.
-O que você traz no coração como sinceridade pode ser indelicadeza algumas vezes; suas verdades são suas, não reproduzem sempre a opinião do universo.
-Julga que sou má?
-Ninguém julga, todo mundo vê com os olhos que têm. A única cobrança tem que vir de si mesma, do seu próprio coração e nem todo mundo tem coração, ainda.
-Sei que tenho coração, eu até choro......
-Padecer por dor própria não é ter coração. Chorar a dor de outro, engolir a seco uma resposta doída, sacrificar-se pelo que lhe pediram; isto sim é ter coração.
-Então o que tenho eu se não tenho coração?
-Nascemos bons, a vida, as influências nos modelam, daí extirpamos as emoções ou ficamos escravos delas. Temos a semente do coração lá no íntimo, mas nem todas germinam.
-Ninguém pode dizer que fiz mal a outro, nunca tive intenção de magoar alguém em toda vida.
-Mas o fez, todos fazemos. É inevitável.
-Padece do mesmo pecado?
-Doutros tantos talvez, mas tenho por ânsia ser melhor que hoje.
-E escolhe que lado da cama?
-Divido a escolha e quando não tenho com quem dividir levanto cada dia de um lado, de um modo, com uma perna só, aos pulos, sorrateiramente, arrastando, mais tarde, mais cedo, bom, menos em dias de números primos porque daí saio de joelhos pelo meio da cama.
-Só para ser diferente e engraçado?
-Não, para ser novo mesmo sendo igual.
-Parece bobeira. Diferenciamos-nos porque entre os lados da cama escolho o esquerdo e você, você não escolhe nenhum!!!!
-Pode ser, pode ser....mas se esqueceu de um único detalhe: minha cama é redonda, tenho mais escolhas


Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Setembro 26, 2008


 

ARTROS ATROZ

Pela primeira vez na vida não terei controle de mim.
Não estou com medo, talvez meio triste, mas a terça-feira vai chegar e isto não passará de somente um ontem.


Por: André R. Melchiades Sábado, Setembro 20, 2008


 

DEPOIS DO NUNCA MAIS

-Respire fundo, calmamente....Agora me diga onde você mora?
-......eu..moro aqui em........aqui próx...hummmm
“Havia uma névoa se dissipando. Era clara, quase fina se pudesse, com um leve odor almiscarado. Quando se foi de todo, ao longe havia um clarão intenso e vivo, mas não de doer os olhos. Ficava ainda mais forte na medida em que se caminhava ao seu encontro, era hipnotizante, cativante, amansador. Num instante de segundo viu toda sua vida passar e se prendeu às agruras, aos erros, aos desencantos, às decepções recorrentes. Em um brilho de magia uma lágrima de arrependimento por seus pecados, que fossem, bastou para nunca mais assolarem sua paz, renascia melhor a cada passo que dava. Estava como se banhado por bálsamos de luzes, pego no colo, despido dos medos e assim deixou-se ser seduzido, possuído pela cúpula que lhe envolvia. Sentiu que não havia mais peso sobre os ombros, nenhum físico, nem mesmo os da alma. Caminhava sem pressa de chegar a qualquer lugar, era como se pisasse em flocos de algodão. Todos que lhe viam passar acariciavam seu coração apenas com sorrisos belos por serem verdadeiros. Relembrava seus dias de plena felicidade em desregradas gargalhadas e sentia que era como se fosse um gozo constante cada passo, cada lembrança boa. Olhou para um dos cantos, viu uma pessoa que conhecia, mas ninguém possuía rosto, sequer forma, era uma abstração. Trocou gestos, sabia que era uma pessoa querida que também lhe queria bem. Sentou-se no banco de madeira ao lado do singelo lago e viu pássaros darem rasantes sobre o espelho cristalino de água. Jogava pedaços de pão, sabe-se lá de onde apareceram, para o deleite das aves. Neste instante uma moça passou o braço pelos seus, uma janela se abriu no meio do lago e ele se viu na cama, prestes a cair em sono profundo, clamando a Alguém que lhe desse caminho à vida, de preferência dos braços de um amor recíproco. A janela foi esmaecendo, eles se olharam através da alma e soube então que assim seria, o afeto que vinha de dentro, não pereceria pelo tempo, muito menos pelos caprichos e desejos mundanos. Uma casa de espetáculos foi se erguendo quase sob seus pés, abrindo as portas e ambos caminharam, mal sabiam que eles seriam os artistas principais, pois era uma vida que se abria, o teatro de uma vida quase real, pois tinha a prerrogativa da pureza e sinceridades comedidas.”
- Desfibrilador!!!! Nós o estamos perdendo.


Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Setembro 05, 2008


 

OLHOS DE NARCISO

Amparando o espelho pelo cabo, deixou-o a frente do sorriso maroto e pode contemplar a beleza mais bela, o olhar penetrante, o jeito meigo. Fechou os olhinhos e passou a suspirar, devaneando com seu ego inflado dum tantão de si.
Ao mesmo tempo, com os pés flutuando naqueles deslumbres todos, começou a se ver com outros olhos que não os seus e parecia que sua beleza ainda era mais atraente, que seu olhar ainda era mais cativante e que sua meiguice era ainda mais doce; eram todos apenas estes seus encantos.
Jogou o espelho longe. Quebrou-o em tantos pedaços quantos eram suas lágrimas e nunca mais se viu frente a si mesma, tampouco de olhos fechados.
Seccionou o tempo, o estagnara ali com o que tinha de melhor, pois de sabido tinha que somente o tempo poderia aniquilar seu maior legado.

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Setembro 03, 2008


 

CLARA

Quando Clara adentrou ao saguão todos os olhos da fidalguia eram para ela. Tornou-se costumeiro ter a beleza reverenciada por tantos e a moça viu nisto um ardil conveniente. Já não se vestia mais para ela mesma, cada peça de seu vestuário, sensualmente casual, passou a ser preocupação aos que outros causariam. Tanto isto lhe rendia os frutos desejados que não foram poucos os momentos em que lhe faziam a corte, mesmo sabendo que Clara fora prometida a outro e aqueles menos desavisados nem eram desencorajados por ela. A moça passou a receber em surdina pequenos mimos os quais deixava despreocupadamente dispostos nos aposentos como se fosse um troféu. Permitiu-se aos desfrutes que sua beleza e inteligência lhe trouxeram, bem como a toda conveniência de mulher inocentemente dada, pouco se importando ou até sem saber com o que a sociedade comentava. Talvez Clara nunca imaginasse que seu também prometido fosse desconfiar de sua honestidade, pois vinham de suas expressões, sob quaisquer questionamentos, respostas secas e contundentes. Com um vão desassossego o viril calava-se mesmo olhando-a com uma ternura em forma de dúvida, cegueira de quem não queria ver. Os dias de esplendor da jovem atingiram o ápice e nada a satisfazia mais, tampouco o mancebo que lhe cortejava fazendo seus caprichos dias a fio, na verdade o jovem já lhe parecia enfadonho. Tudo ficou demasiadamente insuficiente para seus caprichos e também para suas expectativas. Desejava nem sabia o quê, levava seus passos de acordo com suas banalidades e necessidades, pouco se importando com quem lhe rodeava. Não mais havia um dia em que a plenitude das suas vaidades bastava, ainda assim suas atitudes maliciosas, as intencionais e as não, traziam um lampejo vital para seus momentos. De tão evasiva não percebera que os beijos que ofertara ao seu parceiro de noites ao luar já não traziam mais carinho, eram secos como ela tornou-se. Permaneceu ainda mais distante que não se deu por conta quando o jovem se foi, sentiu-se aliviada de fato assim que notara sua ausência. Clara agora estava noutros lençóis, talvez os mesmos de noites sem luar, mas eram outros momentos e intensificava sua feminilidade com o toque de crueldade.
Recordou certa vez seu antigo pretendente, sabia que o amor que ele lhe tinha permanecia forte, aquilo a deixava toda mimosa, mesmo sabendo que o jovem sofrera e ainda sofria; pensava a moça que ninguém é dono das suas emoções, cada um que arcasse com as suas. Nisto ela sorriu e abraçou o estranho que alojara as pernas entre as suas... num breve instante, cerrou os lábios e imaginou:”Será que o mancebo de outrora também agiu comigo assim como eu agi com ele?”.... mas logo este pensamento desagradável foi-se de vez , sob um aperto carinhoso e amoroso do seu lindo afeto, voltou a sorrir como sempre o fizera...
Viu, vil!?!

Por: André R. Melchiades Sábado, Agosto 30, 2008


 

NA 71

Sob o crepúsculo, lá se vai.
Vai-se tarde, talvez dia, inda assim resignada, vai. De certo já havia ido; ‘ que os momentos se foram, que suas emoções se foram, agora então vai. Que é tardio o beijo do adeus, o acenar de partida, a lágrima na janela. Deixe-me as marcas, que o tempo as alojará num canto mais manso dentro de mim, leve consigo seu sorriso mais belo, qualquer um o é, pois aqui aliciaria minhas lembranças menos pueris.
Vai, amor, que eu posso chamá-la assim, só eu, vai.

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Agosto 28, 2008


 

DESLIZE INSONE

Não foram poucas as noites, nem os lugares em que vigiara seu sono.
Sentia prazer, nem aprendi com o tempo, isto me veio na nossa primeira manhã. Dei sentido às minhas tantas noites insones: namorei você lhe espreitando, tocava seus beicinhos úmidos de menina se alvoroçando nos sonhos de medo, tirava seus cabelos sobre os olhinhos semicerrados para vê-la ainda mais bela, lhe cobria o corpo de beijos e lençóis.
Agora que o tempo tornou distantes as lembranças, as noites voam e não a espio, não a venero, nem lhe cuido...não mais lhe tenho.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Agosto 22, 2008


 

SEMPRE SETEMBRO

Batem à porta, não ouço, baterão bem mais e ainda assim não ouvirei, tampouco verei, não me permitirei, inconsciente consciência. Hum, e se chorar? Talvez chore também, certeza, chorarei junto, entretanto não serei cruel, como poderia se tanto choro sozinho eu tive. Adiante só olharei meu reflexo nas lágrimas que cairão no chão, meio alívio, meio dor, de toda forma estarão à frente e nelas pisarei, atingindo uma por uma, assim não me distrairei espiando para trás.

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Agosto 20, 2008


 

ESCULTURA

Veio a mim como uma pedra bruta, um lasco de mármore perdido em meio a tantas outras peças menos vistosas. A vi ali, especialmente encantadora, mesmo tendo recoberta de musgos suas várias carapaças, doce rude camuflagem.
Aos poucos foi se lapidando, lentamente a fui esculpindo; não; fui deixando-a seguir seus instintos, tomando sua forma mais bela, quaisquer que fossem. Inspirava-me abrir os olhos toda manhã e vê-la, mesmo que distante, pois o amor se reverencia quando dois têm uma única alma e assim nos permitíamos sermos únicos. Cativado como estava apreciei todas suas formas, deliciando-me com a doce insanidade da fase quase Renascentista que seu coração vertia, caprichos ilusórios da Vênus latente.Quando se formou por completo foi o deslumbre de uma vida inteira, traços sutis em lábios de sorrisos de todos os encantos, expressões tênues e fortes para ricochetear os agouros. Assim ficou ali exposta para a visitação do mundo que a circundava e foi criando vida, mais que vida, mais desejos, já não era mais uma pedra bruta, era uma obra de arte. Então, desvencilhou-se do pedestal que lhe dera guarida e indo, se foi. Talvez pensasse não ser mais uma escultura, mas nas suas vagas lembranças sabia que seu coração ainda, infelizmente, era de pedra.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Agosto 18, 2008


 

QUANDO UM SONHO NÃO MORRE

Quando estive nos sonhos, sabia que o era. Mansos, vorazes, fortes, doces, medrosos, destemidos; dualidade de sentimentos, sonhos assim mesmo que são. Os sonhos em terra podem ser fugazes, mas são eternos, mesmo que apenas dentro da alma. Naquele deleite cada música era trilha sonora de um romance shaksperiano, houvesse uma paisagem sob nossos olhos tornava-se o Cezanne de minhas lembranças e, ainda que somente eu sonhasse, trazia dos céus toda existência divina nos afagos e promessas mutuamente perpétuas, mais ainda, vinham dos sorrisos de travessura, manhas e alegria a inspiração para minha vida inteira.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Agosto 11, 2008


 

CACHOEIRA

Havia uma cachoeira de águas abundantes que lambiam as encostas dos morros. Era uma manhã fria com o sol timidamente despertando em meio à vegetação densa. Alguns raios de luz rompiam o casulo gélido do orvalho, umedecendo o ar ainda mais à beira do rio. Pedras pontiagudas despontavam no meio da água como se buscassem respirar o dia novo. Uma rajada de vento, quase brisa, lascivamente passa por nossos abraços e ela, ah, ela busca abrigo com olhinhos pecaminosos e também inocentes; coisa delas. Saltitamos um córrego que fluía à margem da cascata e nos colocamos na mais alta pedra esverdeada pelo musgo que lhe recobria a parte mais à sombra. Mais dispersos pela beleza do lugar nos sentamos de frente para a parede d'água, pouco importando se estava úmido, tendo as árvores e os pássaros como platéia. Com as mãos entrelaçadas fechamos os olhos e só ouvíamos o som da água se arrebentando quando caía do alto do rochedo; mais ainda, sentíamos o deslizar do rio sobre nossos pés. Assim, nossas vidas se passaram, com as vicissitudes dos dias tal como a correnteza que levava as folhas caídas das árvores, cada instante se fazia novo e renascia e renasce; pois que seja eterno quando é difícil ser terno; isto é amor.

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Julho 30, 2008


 

AZUL DO JERIMUM

Do meu coração nasce toda manhã uma lembrança, por vezes sorridente, outras melancólicas, da certeza incerta do caminho erroneamente correto e das mãos entrelaçadas laçadas por mim.
Trago no suspiro contido, no peito, uma dor contida; disfarço, refaço e rechaço quaisquer desalentos.
E se agora desatino os pensamentos no malquerer que me foi quisto, o minuto de agora já é depois e passa, só não passa a fantasia de toda, pouca, vida da certeza incerta, sim, fui pleno, estive no meu devaneio e estou nele em toda manhã azul.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Julho 18, 2008


 

DIAMANTE

Porque seus olhos espiam o mundo que versa apenas sobre si, e assim fere, na docilíssima razão de proteger o âmago mais perto.
Agora, pois, que meu ópio é a angústia de seus caprichos de quase maldade e das palavras que atiram farpas, parti.

Por: André R. Melchiades Domingo, Junho 01, 2008


 

DEPOIS DA LÁGRIMA

Se eu fosse uma reta criada com meu próprio punho, por mais que me esforçasse, por mais preciso que conseguisse ser, nunca conseguiria a plenitude de uma reta exata. Eu teria imperfeições, meus traços seriam distorcidos em alguns pontos e talvez fossem curvilíneos em outros trechos. Mesmo lutando pra ser uma reta teria orgulho das curvas que faria e muitas vezes me enrubesceria pelos desvios mais acentuados. Contudo eu sei que por mais torta que fosse minha reta ela teria um destino, um doce objetivo e jamais atropelaria alguém para a ele chegar.

Por: André R. Melchiades Domingo, Maio 25, 2008


 

ANTÍTESE

Queria apagar todos os poemas de amor, pois não os sinto mais. Não sinto os pés levitarem, parece que tamanha incongruência virou desamor. Tantos amores e tantas dores, quiçá o não amar traga menos desalentos. Não suponho tornar-me amargo, mas quero tornar a olhar o horizonte, e, assim aceleradamente seguir seguro dos meus medos, que sou parte deles, mas não seu refém. Sou ainda parte de tudo isto, parte igual de cada um de vocês, apenas com uma singular diferença: se lhe magôo, me magôo mais.

Por: André R. Melchiades Domingo, Maio 18, 2008


 

À PERSÉFONE
por Zeus

Que lhe darei, dos céus advindo, uma beleza sem igual. Encantos todos serão suas armas. Terá olhos miúdos e olhar instigante. Longas madeixas serão as telas de sua vaidade. Sorriso em pecado nos lábios grossos nascerá a cada suspiro seu. Haverá, sei que sim, um acolhedor e belíssimo colo de dar vontade de ninar, inclusive. Verterá medos em doces alegrias. Como se fossem seus, terá a todos de seu caminho. Ainda lhe virá a sapiência de quem finge não saber e terá a gana do não ganancioso.
Porém, que lhe caiba, usar do encanto para acalentar quem careça, abrir os olhos miúdos por quem lhe dê (daria, dará) os atalhos da vida, ceder o colo num carinho sem dia ou razões certas e que você aprenda também, até mesmo aprenda a amar.



Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Maio 16, 2008


 

CONTO PARA MINHA MORTE

No dia em que o cometa se foi levou minha alma embora. Foi o fim do mundo. Não houve mais dias de céus azuis, ficaram escondidos por trás das caudalosas nuvens postas pelo cruel corpo celeste. Passaram dias fingindo-se dum colorido quase lindo, mas eram tão falsos quanto meus desejos de acreditar neles. Mas houve um dia de tempestade avassaladora. O cometa regressou e por mais que eu não reconhecesse meus sorrisos eles voltaram na expressão mais pura de afeto. Os dias então começaram a retomar cores, alento e coisas comuns aos sonhos dos mais infantis aos menos pueris. Porém, como é próprio dos cometas, eles vêm, eles vão e assim todo dia eu morro um pouco vendo o cometa indo e nunca me levando...

Por: André R. Melchiades Domingo, Maio 11, 2008


 

ADEUS QUIMERA

Este é(?) o último conto de um cansado sonhador.
Não tenho mais tempo para sonhar, talvez seja até porque a todos eles, sonhos intensos, já reverenciei e não posso ousar ambicioná-los pela eternidade, nem que pareça curta a minha.
Minhas longas falas de anseios melosos talvez pecaram pelo excesso. Palavra curta foi-se de mim há tempos, parece que nunca a tive, nem me lembro se tive, só me encontro em longas e desarticuladas serenatas ao pé do ouvido.
A complexidade de ser nascido sob câncer e atormentado por escorpião ainda tornou-me mais turvo aos olhos de outrem e causou pena aos sonhos escassos agora.
Então ao acaso, que é o único Deus que conheço, deixo entregue os sonhos perdidos, uns quase esquecidos e vou semear sorrisos gratuitos nos lábios de quem em meu caminho passar, sem sonho, sem delírios, sem deleites, sem você, amor.


Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Maio 05, 2008


 

MAIS QUE AMOR

Eu vou cuidar do seu coração partido.
Farei seguras suas noites de medo e desesperança.
Redirecionarei cada passo incerto que sua vida queira dar.
Não deixarei jamais o sorriso abandonar seu rosto, pecado mortal se não o fizesse.
Guiarei seus olhos quando estiver no sereno e a serração lhe turvar o destino.
Ainda lhe farei forte para que seus entes possam tê-la quando for do acaso.
E assim, querida, quando estiver pronta para amar irei embora, levando meu coração comigo.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Maio 02, 2008


 

ESQUIFE

Já não aspiro sentimentos que acolham meus medos. Também nem querem que eu tenha medos, mas eu tenho sim, um monte deles, contudo não os deixo me dominar, só não os nego e os controlo a todos, a todo instante.
Aspiro sim me encontrar nos medos de outrem. Trazer acalento àquela lágrima perdida de fim de noite, sem causa, mas que causa um imenso efeito. Que um café quente naquela manhã fria seja amor e não se paga amor com algo além de um inocente sorriso.
Se não for demais, aspiro ainda um abraço demorado, daqueles em que as mãos vão se apertando, juntando, acariciando e não querendo mais soltar. Que uma pressa não seja maior que a vontade de dar um beijo, dois até e não ir mais embora, mesmo já estando longe, apenas delirando de saudades.
Eu não busco nada, não espero nada; apenas sonho, como sempre foram meus contos desde a infância, e assim, com alma de pecados perdoáveis, gasto meu ultimo resquício de fé suspirando meus doces delírios em oração.

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Abril 30, 2008


 

O INFERNO

Conheci também o inferno. E se não havia peitos desnudos é porque no inferno os desejos são mais sutis e nem por isto menos cruéis. Não via trevas, tampouco odor de enxofre, espocavam sim balões cintilantes dum prata mais vivo que a própria vida e o cheiro doce que dava feições ao ar era entorpecente vindo da mais primaz papoula. Acreditem, caros, o inferno é aqui, nos braços de quem lhe afaga, na mão que lhe toca, nos lábios que roçam o seu, no sorriso despretensioso. O inferno está nas coisas que lhe deixam perder o controle, que lhe deixam à mercê de suas fraquezas. Ah, o inferno seduz, conduz, mas espreita nosso choro contido no refugo da noite mal dormida e se regozija disto, mesmo que por vezes nem se dê por conta. Agora eu que o vigio, de longe que não sou nenhum Serafim, de fato por medo, e digo para que nunca fechemos os olhos ao dormir, não convém à alma vaguear, mantenhamos o inferno dentro de nós que já basta.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Abril 29, 2008


 

EROS E PSIQUÊ

Nada mais era que uma obra de arte para os meus olhos.
Via expressões fortes, marcantes, delineadas por traços arqueados, trazendo uma robustez delicada em volumes perfeitamente moldados. Pus-me sentado aos pés dela que não me via, que há muito não me vira, se é que um dia me vira e assim ali permaneci, pesando séculos em cada minuto de adoração, apenas eu e a vida, uma platônica abstração do mundo. As mãos nervosas ousaram sentir a frieza do mármore celeste esculpido, se não fosse eu de pedra, seria ela, mas rocha escavada não mina água, eu choro.
O coração não vê, sente, e minha escultura por si não ganha vida, nem sente a minha acelerando meus medos.
Fechei os olhos puxando a portinha que fecha o coração, sem toque, sem beijo, sem abraço, sem desejo, sem eu e você.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Abril 28, 2008


 

E TINHA O TINHO (Parte II)

Já perambulava jaziam dias e não havia sóis no seu caminho, tampouco no percurso percorrido que ele insistia em espreitar. A gatinha não mais luzia por ele, doía e sabia, mas insistia. A noite vem, traz um certo ar bucólico que o põe sentado sobre as patinhas traseiras numa caixa de madeira no final daquele beco. Clamou aos céus num miado dolorido e cortante, tantas eram as estrelas formando um manto, mas sabia que nenhuma brilhava por ele. E se gritou, tampouco ouviram, pois seu canto foi na esquina do nada com lugar algum. Em total desamparo apoiou-se em crenças que sequer sabia tê-las e pensou: ”Deus é o meu acaso”. Então Tinho, cambaleando, se ergue, dá uns dois ou três saltos sobre as muradas e novamente entoa uma cantiga torpe, porém desta vez ele anda e não olha pra trás. (será?)

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Abril 24, 2008


 

TINHA, UMA GATINHA

Havia uma gata chamada Tinha e um gato chamado Tinho. Eram muito amigos, de gostarem das mesmas brincadeiras, de serem cúmplices nas provocações, enfim sempre estavam rindo. Depois de anos naquela proximidade toda, Tinho percebeu que as coisas dentro dele caminhavam para um sentimento ainda mais forte e assim se sucedeu...
-Tinho!! Desce e vamos brincar – gritava a gatinha.
Abrindo uma bocarra enorme de sono, ele salta todo trôpego para agradá-la.
E pularam, deram cambalhotas, puxaram um o rabo do outro até que ela se cansou e disse:
-Ai chega! Num quero mais brincar. Tchau!
Tinho, que já se acostumara com este jeito chocho quando ela não queria agradar, limpou a poeira, ergueu a cabeça e saltou muros e telhados, todo feliz, porque simplesmente havia pegado na patinha dela.
No dia seguinte ela aparece no beiral da janela:
-Tinho, Tinhô!!!!! Acorda molenga. O passarinho que não deve nada pra ninguém já ta cantando desde às cinco da manhã. Levanta, saco!
O gato exausto, pois passara a noite toda brincando com seus donos, fazendo agrados e graça, caminha até a janela:
-Que foi Tinha? Parece triste!
-Ah, hoje não to bem. Me faz rir?
-Humm, ta me chamando de palhaço? Por acaso eu sou o Bozo? Mistura de Gato com Bozo dá um nome feio....
-Cala a boca, indecente! Só me faz rir, senão shhhhh, quietinho! – diz ela rindo, meio sério, meio triste.
-Sabe, fofa, eu pensei que lá onde você mora, pensei que lá Tinha gente legal......
-Que piadinha infame! E fofa é sua mãe!
-Infâmia é o que eu ganho para agradar meus donos...e você, que nem me dá uma lambidinha meiga.
-Ah é? Vai lamber asfalto.
-Vou sim, sem problemas. Pelo menos ele deve mais doce que você.
-Capaz!!! Só sei que nele você pode pisar e em mim nunca, seu ridículo!
-Não piso em você porque não tenho uma bota que seja grande o suficiente pra te cobrir toda!!!! Balofinha!
-E que bota conseguiria levantar com estas varetas que você chama de patas?? Esquelético!
-Com estas aqui olha!! – e imaginem........
O festival de insultos, misturados com tapinhas, gargalhadas, barrigas pro ar e coração mais leve dura uma eternidade.
Tinha enfim, pega e diz:
-É, já rimos bastante. Você é legal. Gosto de você, mas agora ta tarde e preciso ir.
-Espere. Por que você sempre vai? Por que não fica comigo de vez ao invés de ir e vir perigosamente por estes becos?
Pega de surpresa pela conversa fora da hora, ela dissimula:
-Ta ficando escuro e me deu um soninho....
-Vem cá, a gente não brinca sempre?Não dividimos nossa ração? Não partilhamos nossos sonhos? Não vamos sempre viajar até aos becos distantes?
-Sim, sim, sim! Mas nem tudo são flores....
-Eu sei disto, mas não te entendo, aceito, mas não entendo.
-Como assim? – nasceu a curiosidade feminina.
-Não dá para compreender que você prefira procurar tanto e tão aleatoriamente o que você nem sabe o que é direito e prefere me deixar aqui, sozinho. Olhe nos meus olhos, vai.
-Eu olho e vejo o que eu to sentindo, apenas o que eu sinto, só isto.
-É, talvez eu não saiba me expressar tão bem quanto você, mas.... mas invariavelmente a gente passa a vida toda buscando a felicidade em coisas distantes, muitas vezes fora da gente e não nos damos por conta que por toda nossa existência a alegria de viver esteve ali dentro de nós e também do nosso lado e por pouco não a pisoteamos.
-Não é tão simples, Tinho, certas coisas a gente não escolhe.
-Talvez, mas o que é a vida senão escolhas que fazemos todo dia? Podemos escolher certo e errado, mas podemos reconhecer eventuais erros e refazer estas escolhas.
-Podemos escolher certo a coisa errada. A vida também é uma busca, uma corrida atrás do melhor, de um sonho...
-Olha, você sabe aquela coisa que dizem da gente, dos gatos? Que nós temos sete vidas?
-Claro que sei, Tinho.
-Pois bem, meu amor, é mentira, a vida é uma só. Num procura muito não.
Tinho põe o rabo entre as patas, salta, caminha sobre a cerca e desaparece para sempre tendo a lua como sua única companhia.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Abril 22, 2008


 

IMAGENS NOVAMENTE

Ouvi um estrondo enorme. Um trovão. Quase nem chovia. E nem sei se era dia.
Eu só ouvia agora o tilintar dos pingos sob o rufo da varanda. Talvez nem fosse dia porque clareou apenas com o raio que me fez ver você espalhada pela cama, docemente quase nua, abraçando o travesseiro com a melhor expressão que a noite pode lhe doar e você suspirava de olhinhos fechados.
Outro raio, ainda mais intenso, expõe o ninar de menina, não era mais a ofegante inspiração da noite anterior, tinha outra, de ausente luxúria e imensa ternura. Exalava um sutil perfume sob os longos cabelos, próximo à nuca.
Um tímido trovão agora lhe faz calmamente se mexer, deixando rolar até ao chão o travesseiro e o trocando pelo meu abraço. Sem malícia alguma você umedecesse seus lábios delicadamente com a pontinha da língua, parecia um quase despertar. Percebendo seus poucos pelos enrijecidos, puxo o lençol sobre seus seios nus, aquecendo seu corpinho alvo de mocinha carente. Ajeita-se melhor em meu peito, passando a perna sobre a minha.
Sob a luz de outro raio, não dizendo uma só palavra e ainda de olhinhos cerrados me beija levemente. Contorno as mãos por suas costas, tateando suas curvas, delineando cada espaço, sentindo seu calor. Meu peito de encontro ao seu sentia os corações batendo compassadamente, calmamente; eu me sentia seu porto seguro.
Um bravo trovão estremece o quarto. Você me aperta ainda mais forte, um quase medo. Arregalo bem os olhos de sono e sinto seu perfume se afastando de mim.
O mais claro dos raios ilumina a cama vazia e ainda aquecida. Por entre as cortinas, que balançam úmidas pelo vento e a chuva, a veneziana se abre e noto que um lenço azul despede-se de mim, caindo no mundo.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Abril 22, 2008


 

IMAGENS

Eu que já tive dragões e anjos em cada delírio mal sonhado, agora tenho a mim apenas, que se não sou anjo, também nem sou dragão ou talvez seja os dois ao mesmo tempo, dualismos de minha vida e sonhos. E ser apenas isto é um tantão que nem cabe nas palavras confusas que me empenho em delinear. Meu mundo é enorme neste silêncio em forma de prosa, cheio de ilusões e desatinos, e, se crio amores é porque os tenho dentro de mim e não os tenho fora, ainda; mesmo porque ela somente aparecerá naquele lindo dia de chuva fina e frio cortante, eu sei!

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Abril 22, 2008


 

ANTES DO DOMINGO CHEGAR

O bar rústico com seu jazz entorpecente estava estranhamente vazio. De posse dos meus pensamentos mais distantes tomo talvez meu último solitário drinque, quando uma luz me traz à tona. Lentamente a luz se faz mais presente sob a forma de uma moça de olhar meigo, expressões doces e um sorriso de todos os deuses. Os cabelos escorridos sobre o busto discretamente à mostra se movem a cada passo. Caminha lentamente em seu scarpin dentro de um negro vestido colado ao corpo e com um lenço de um translúcido azulado, meio que destoando, meio que exótico, sobre os ombros. Ela suavemente passa ao meu lado, sinto seu perfume, um toque meio silvestre, meio madeira, meio doce, não sei ao certo. Recoloco meus desejos insanos de lado, me refaço, acho que já é hora de ir embora. Quando me viro para sair quase perco o fôlego. Estava ali, ela, a minha frente. Olhos nos olhos. Pensamento perdido. Mãos nervosas. Um sorriso sem jeito. Segundos, minutos talvez se passam e somente uma frase mais inocente que pretensiosa escapa:
-Como eu gostaria de saber a coisa certa a lhe dizer agora...
A resposta soa gentilmente:
-Ah, por favor, então não saiba, pois eu me encabularia em responder....
Mudos trocamos sorrisos cúmplices e saímos dali. Caminhamos por quadras mal trocando meia dezena de palavras. Aos poucos as mãos se entrelaçam. As horas viajam, os lábios, enfim, expressam suas verdades de fala e de paladares. Agora somos extensão um do outro. Sei de suas vontades, manias e birras, ela me diz o que sou, como sou e porque o sou. Sinto finalmente a razão da minha existência, sinto-me ouvido, sei que sou ouvinte também. Poderia dar por concluída a, até então, eterna busca da minha alma gêmea.
O sol já quase que nasce aquecendo a cama do meu quarto e ainda a vejo nua, alva a se encaixar nos meus braços. Meio adormecida, sussurra oito números no meu ouvido e com associação ilógica da minha imaginação guardo-os todos. Um toque suave dos lábios em meu rosto me põe de volta ao repouso, sereno e feliz.
Ouço uma cantiga ecoando distante, como se fossem anjos. Uma brisa, quase vento, me traz seu perfume às narinas. Desperto e ela não estava. Demoro a tomar consciência de tudo, apenas sinto sua ausência.. Procuro por ela, por vestígios, um bilhete, um recado. Sobre os lençóis brancos sequer um fio de seu cabelo, nem uma mancha de seu batom, nem uma marca de suas mordidas na minha pele. Nada. Penso que delirei, que sonhara, que fora o álcool talvez. Quase me convencendo disto vejo perdido atrás da banqueta o lenço. Afoito, afasto tudo e o ergo por entre os dedos quase o deixando escorrer de tão fino que é o tecido. As lembranças me vêm mais fortes através daquela mínima peça que esquecera ali e assim também vou revivendo os tais números em meu ouvido. Um a um vão clareando em minha mente e ao final sabia que ela me deixara seu telefone. Relutei em parecer ansioso, temia parecer pegajoso, intruso, mas não resisti, não sou de esconder o que sinto. Parado ao lado da janela, segurando o lenço, liguei. O aparelho toca várias vezes e finalmente atende. Atendem. Uma voz de certa idade acha estranha minha pergunta. Engasga, engole a seco, gagueja e meio que trêmula me responde:
-Sinto muito, mas ela faleceu tem uma semana.
O lenço, como por encanto, escapa das minhas mãos voando e desaparecendo através da janela.


Por: André R. Melchiades Domingo, Abril 13, 2008


 

DO ALTO DO PÉ DE GOIABA

Eu que já esperneava por ainda fazer com que acreditassem nos homens, hoje me ponho a duvidar até da existência de Deus.
De fato nunca fui vidraça, tampouco pedra, mas versei bem pelas duas searas e se nunca fui tanto, conheci intimamente cada efeito de ser um deles. Preciso ficar junto aos meus sonhos porque senão me tornarei comum, me contaminarei deixando brotar o que tem de pior em mim. Aqui trancado nos pensamentos e delírios posso ser o bem desejado que quiser. Ao mundo, em sua maior parte, que continue caminhando rumo ao definhamento com seus egoísmos, intolerâncias, ingratidões, grosserias e desamores. No meu cantinho (como se fora o da minha infância, onde subir no pé de goiaba do vizinho era o cúmulo da maldade mundana) temos que ser melhores: todos dividem até sorrisos, todos dizem obrigado mesmo por banalidades, todos contam até dez para tolerarem mais, todos acariciam um rosto amuado e todos amam mesmo sem os conhecer.
Tranquei e joguei a chave fora.

ps: não era goiabeira, era pé de goiaba mesmo!

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Abril 09, 2008


 

POR LOU SALOMÉ

Talvez houvesse uma minha musa
Que me vestia de inspiração os todos tantos sonhos.
Se não houvesse a inventaria para perder o sossego
Ainda como se fosse imperativo a teria todo dia.
E se agora a reinvento me dói menos, se dói.
Afinal, quanto mais platônicos melhores os delírios.

ps: platônico sim, sem musa não...já volto, vou procurar uma.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Abril 08, 2008


 

LIVRO ANTIGO

Resolvi remexer meus guardados e retirar do amontoado de lembranças aquele antigo livro. Bateu-me a saudade de ver suas densas páginas e reconstruir em minha mente cada frase que dele absorvera. O livro ainda estava ali, não muito à mão, mas acessível. Uma brochura robusta, de capa linda e duríssima, folhas soltas, com frases fortes e despretensiosas. Quando o li d’outra vez tive a sensação de mergulhar no inexplorável, algo sutil, recheado de encantamentos e orações a serem terminadas. O prazer da leitura se dava maior no silêncio, no escuro, no espiar e ali eu me perdia viajando nas sucessivas abordagens distintas de cada mesma cena, porém sempre via um mesmo propósito, uma mesma expressão. Se me encantei parecia pouco, havia respostas até para o que jamais houvera pensado e eu aprendia, humildemente me curvava àquelas letras dizendo ser inferior para tatear sequer as páginas. Um dia não mais li. Nem havia terminado, mas era dado o tempo que me coube para interpretar todos aqueles pensamentos escritos. Achei coisas demais, de menos; concebi verdades absolutas que não duraram dias e outras tantas esquisitices que julguei serem corretas. Algumas eram.
Agora com o livro à mão novamente, resolvi retomar os pensares que dali partiam e me pus a sugar cada dito. As palavras eram as mesmas, cada frase ainda mais familiar, expressões bem comuns, mas tudo me soava estranho. Talvez fosse a posição em que agora me ponho para a leitura ou ainda porque já não sou mais o dono do livro; é uma publicação que se tornou parte do mundo. Por mais que eu lesse as mesmas frases não me veio a sutileza em ternura que vira antes, se é que havia e somente eu as via. Tornou-se uma leitura fácil, fugaz, quase corriqueira, porém um tanto rude, seca, de frases a doer e de me por aos prantos enquanto caminho com menção de fechar-lhe a capa e colocá-lo do armário. Novamente parei a leitura e novamente doeu. Talvez tenha parado antes do fim a mim destinado, talvez retome num dia como já o fizera e talvez doa de novo, não sei. Parado observei o livro à distância e não soube decifrá-lo nem assim. Melhor retomar meus Monteiro Lobato e Marcos Rey, talvez eu só me veja na complexidade de ser simples e somente (me) entender (n)estas páginas.

Por: André R. Melchiades Domingo, Abril 06, 2008


 

AO (A) MAR

Se renasço todo dia é porque os tantos devaneios viram poeira e não deleites, tenho que pô-los no prumo ao final dos meus lamentos.
E se me pego em desalento é porque a decepção é morna ainda, mas esfria a cada suspiro.
Quando o dia clareia os olhos vermelhos há mais caminhos vindouros, não é fé, é viver com a vida, é navegar sob o balanço das ondas e deixar-se ir.
Hoje eu vi o mar.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Abril 04, 2008


 

DESTINO VADIO

Espia. O destino vagueia. Procura insanas personagens pro seu auto de fé e desesperança, contra-senso; se não o fosse seria vida*? Não, que me amo e só amarei quem me amar. Não, que só amar não basta. Que tragam e lhes dou ternura, gentileza e respeito; amor só não basta. Que vivamos intensamente, eu não tenho medo, pena causa o seu, os seus, a todos os seus. Sorrir apenas não, também fazer sorrir. O destino vadio nem viu, encontrei olhos que sorriam e me fui antes dele passar...

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Abril 02, 2008


 

COINCIDÊNCIA

Eu não tenho ninguém.
Tenho sonhos possíveis de amores um pouco impossíveis.
É irônico porque não dilacera o coração, só arranha um tiquinho a alma.
Eu não tenho ninguém,
Mas ela me tem, no quanto e nas vezes desejadas.
E gosto e amo e sorrio; e cicatriza a alma que arranha,
Mesmo eu não tendo ninguém.
Deliro porque o dia é novo a cada manhã de sol e também de chuva.
Haverá ela que me terá um dia,
Talvez não, talvez nunca, talvez outra, talvez não.
Hoje, eu não tenho ninguém, nem nada,
Nem luxúria, nem afeto, nem ternura, nem nada.
Pertenço-me aos meus devaneios apenas.
Eu não tenho ninguém, você também.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Março 25, 2008


 

ALMOST “BARTLEBY*”

As cinzas de sua labuta espalharam seu suor, a angústia do trabalho sofrível. Moedas tantas largadas ao chão, desprezível paga por devassável vida a tomar-lhe de ordens, desaprovações, dúvidas. Quem o desejava bem não compreendia a imensidão de seus pensamentos desconexos, pouco inteligíveis; nem com toda crença ferrenha alcançava os meandros daquela mente insânia; fé demais até cega. Os olhos perderam o foco, estáticos, inertes. A vida escapava por aquele semblante inexpressivo, de um não sorriso de todo instante. Era quase pena, quase ira; na maior parte era indiferença mesmo, somos cruéis.
Olhei-me através dele. Via um espectro de meus momentos mais íntimos; somente meus. Não, não quisera me ver naquela cena, naquele mundo espremido entre poucas paredes, tampouco naquela alma distante de uma vida ainda mais distante. Respirei o mais profundamente que pude, guardando o soluço de quase lacrimar e escondendo para sempre o Bartleby que carrego comigo.


*“Bartleby, o Escriturário”, Herman Melville (Bartleby - Sesc Paulista)

Por: André R. Melchiades Domingo, Março 23, 2008


 

A ETERNIDADE DE UM CÃO*

Uma vez certo cão se ajeitava em sua casinha contemplando as estrelas. Observou cada uma delas como se fossem olhinhos a lhe fazer companhia, a lhe cuidar á distância. Suspirou uma tristeza de segundos que se foi com uma coçadinha sob ás ancas. Voltou os olhos para cima, porém nem houve tempo para ficar contemplativo e foi vigiar seu território quando uma coruja ousada quis atiçá-lo. Destemido, mas cansado pela avançada idade, deu dois ou três latidos roucos e mais pelo tamanho da sombra que seu corpo surrado projetou do que mesmo pela sua presença, espantou a ave noturna. Cambaleou em direção aos paninhos da sua casa e cansado esticou a língua ao pote d’água. Sentia-se estranhamente inquieto, sabia apenas que a alma estava feliz, sempre, como sempre, feliz. Olhou em direção ao portão e notou uma silhueta magra e lhe saudar. Como todas as imagens, era outra em preto e branco, quase altiva, mas com um sorriso carinhoso de quase uma vaga lembrança. Por instinto, manteve-se estático, de rabo ereto, esperando um movimento a seguir do seu, até então, opositor. O que lhe veio foi inesperado: ”Alf, Alf”. Sem saber o porquê seu rabo perdeu o controle, alucinou-se. As palavras, as quais adoravam que ele atendesse quando as pronunciassem, lhe envolveram e ele sorriu, um sorriso canino. Sem perceber, fora atropelado pelo pequenino cão com cara de chocolate, tanto mais jovem e mais arteiro que ele e sentiu uma dorzinha no coração de ver aquele conhecido estranho tombar o outro pra lá e pra cá. Deu uma vontade de latir, pedir carinho, mas tava cansado demais pra isto. Deu uma última olhadinha e viu que o terceiro cãozinho, o mais mal humorado deles, também já recebia afagos, porém o que lhe doía era não ter ganhado sequer uma passadinha de mão na cabeça e aquele achocolatado todo oferecido, ganhava até festinha na barriga. Caminhou para dentro da casa e só ouvia as brincadeiras dos cachorrinhos lá fora, ficou com raiva de ser cão e ouvir tão bem. Ajeitou-se perto da manta que estava no chão e pensou na vida, em toda curta lembrança que tinha, pensou no mais importante: “onde estaria minha ração?”. Inesperadamente, como sempre acontecia, a ração aparece na sua frente, a mão que lhe estendera o rango era familiar, odor familiar, gesto familiar, era sim, daquele desconhecido familiar do portão. Balançou a cauda, sentiu a mão agora lhe acariciar, viu os outros dois cachorrinhos implorando para ter tudo aquilo que somente ele tinha na eternidade de alguns instantes. Suspirou, um suspiro de amor, de uma lembrança distante, de um carinho gratuito, quase ronronou, heresia! Agora estava ali largado, de patas estendidas, se achando o cão mais amado do mundo. O cão com fuça de chocolate e o outro de focinho fechado, se entreolhavam imaginando que o velhinho estava viajando em suas reminiscências e correram para fora. Sozinho agora olhava através da fresta da porta aquelas estrelas a lhe fazer companhia, mas agora ele lembrava que uma daquelas tinha um rosto estranhamente familiar e amanha já não mais teria. Debruçou sobre as patas dianteiras, pensou que era uma dádiva ser um cão, pois cada dia era uma eternidade e cada lembrança, boa ou ruim, durava até a próxima lembrança, durava o que tinha que durar. E dormiu.

*Como os Royalties não foram pagos, os cães pediram para retirar seus nomes do texto.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Março 17, 2008


 

PAULISTA 1842

Garoava. Vinha num vento leste que trazia um pouco de uma noite fria. Meus passos ecoavam dentro do meu peito e faziam dueto em suas batidas secas, arrítmicas como meu coração insiste em ser. Senti uma saudade de mim mesmo, dos dias de sorrisos fartos, de inesperadas sensações, de felizes perspectivas embaralhadas, de um nada com gosto de tudo.
Quase vi um vulto de melancolia ceifando minha trilha, mas não, não tenho tempo para existência confusa e retrô, tenho apenas tempo para mim e para quem me vê no que sou de bom, no que sou de ruim, basta eu que sou meu pior crítico.
Enfim chove, meus olhos ludibriam os passantes e a mim também. Carrego um sorriso e uma lágrima; somos complementos, e, de peito estufado não olho pra trás, a vida nasce agora, todo dia.
Carrego inda mais quem queira, coração vadio não tem dono, nem pena, tem instinto apenas.

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Março 13, 2008


 

DOIS MIL E DOIS*

Discretamente trêmulas, as mãos minhas, tentavam lhe dar conforto, arredia, arrefeceu-me. Então a acariciei em silêncio e à distância. Perdida nos pensamentos sobre si mesma perambulava o inconsciente e me dizia às lágrimas das fraquezas que lhe assolavam o coração, talvez da tristeza, talvez da dúvida de ser gente, não sei, não soube. Da sua acidez pouco era visível, mas mesmo mínima era intensa e ainda se mostrava, a protegia. Mas ali eram os olhos puros que estavam e se não desabou foi quase. Não houve piedade consigo, sorriu o tanto e mais que pode, ergueu a cabeça, maltratou os olhos com as mãos, respirou profundamente, relutante doou-se ao conforto do toque de um simples carinho. Embora não houvesse sorriso na alma, havia um lampejo à busca, sábia, muito. Houve um espaçamento no tempo, braços que se entrelaçaram, perfumes que se confundiram, pêlos que se roçaram, suspiros, poucos é verdade, advindos do coração inquieto e assim docemente trouxe os lábios lindos para um discreto beijo, para sempre.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Março 11, 2008


 

GIRAMUNDO

Vivo numa roda. Uma roda torta que dá saltos, sobressaltos. Alguns acidentais, outros intencionais, mas não sou eu que a conduzo, é o vento, a brisa, o tufão, tudo depende do dono da roda. O dono é cruel, sádico, adora emoções contundentes, pois para ele tudo é um espetáculo, a vida que gira na roda não é a dele. Por vezes até tenta ser humano, mas não, ser Dono é não se prostrar, comover-se, é não sentir a dor alheia. A roda é rude, não pára nem se o vento cessa, jamais, a roda sempre vai, inerte, mas vai. Tem gente que salta da roda, mas nunca se soube de quem foi, nem o que o dono da roda fez, se fez. Não gosto da roda, nem quando desliza ao sopro da brisa. Porque sei que depois da calmaria ela se enerva, se multiplica nas voltas que o mundo sofre, mas, aprendo, tiro proveito de cada doce bailado, a felicidade na roda é efêmera.
Hoje, daqui de cima da roda, nem posso dizer da alegria, efêmera, que me atordoou ontem, nem da dor, irônica, que me acometeu, também ontem. O dono da roda é cruel, sádico, mas tem uma coisa de que ele não se dá por conta: ele controla a roda, mas não quem está nela.

Por: André R. Melchiades Domingo, Março 09, 2008


 

QUADRO DE VIOLETA

O céu é azul quando está de bem.
O mar fica mais azul quando está também.
O azul não é só uma cor, azul é sina de amor.
O azul rebrilha na luz, a luz reflete em tom azul, a luz*.
Violeta é azul e desdenha da luz: belezas que se repulsam.
É como uma nódoa azulada no retrato antigo, um quadro que despenca e cai.
Doce, já quase é nada, ínfimas lembranças, meu azul se desbota e se vai.

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Março 05, 2008


 

(C)LOSER

Dias de noites vazias:
Tantos são os vis desejos,
Tantos murmúrios contidos,
Bocas seladas sem beijos,
Tormento na alma que vagueia insone,
Silêncio sepulcral nas esquinas me consome,
Medo sem volta,
Coração sem resposta,
Verde que murcha,
Esperança em repulsa.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Março 03, 2008


 

CAMINHOS

Uma luz. Pouca. Quase nada. Brilha, ainda menos. Luz opaca, amarelada, turva. Ei-la que me conduz no caminho, meio caminho, maus caminhos, quais forem.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Março 03, 2008


 

TUFÃO

Era um dia morno, quase de mormaço. Havia uma casinha no meio do nada. Cercada de menos ainda por todos os lados. Sentia-se no ar, uma paz, uma harmonia, meio monótona é verdade, mas era o ar sereno daquele quase deserto que esticava a vida docemente. O horizonte era vago, mas vagava na mente uma vã perspectiva de nele se perder ou se encontrar. Ora, isto cansava, ora era uma boa companhia.

Então trovejaram os tambores graves dos céus. Escureceu num estalo, vertiginosos ventos sopraram, alertando que a calmaria deixaria de existir dali instantes. Subitamente uma rajada mais forte estremece a casinha, a vila toda. Parecia que o horizonte se encolhera e trouxera o movimento do mundo todo para aquele marasmo. Os raios teciam cores azuladas nos céus, um espetáculo de talvez vida. Brotava uma vontade de sair correndo e se molhar nas caudalosas correntes águas que desciam os antigos córregos secos, que, já nem tinham esperança de germinar aquele também secos pomares ao lado, mas eram tantas as águas, tantas mesmo. Enfim, apareceu no turbilhão um rosto com sorriso de esperança, de meio desafio, meio receio; mas meio cheio é melhor que meio vazio. O sorriso foi se nutrindo daquelas forças todas, encontrando par em algum ponto daquele alvoroço e bailou, viajou, deleitou-se. Explodiu em densas nuvens o céu inteiro! Desabaram granizos enormes. Chuvas eram todas doídas, verticais pancadas d’água. Os ventos arrancavam as árvores no talo, todas estacas, todas as vidas.

Um sol do tamanho do mundo aparece, tímido, mas aparece. Ilumina tudo, todas as tragédias. Havia passado o tufão. Deixou seu rastro de destruição e abandono. Já não havia casinha no meio nada. Havia muitos restos de casinha, no meio de restos de nada. Olho para trás, não me lembro da calmaria, daquela monotonia da qual queria reclamar. O dia abre-se para um começo novo, mas não aponta um caminho, um destino. Olho teimosamente para trás, é inevitável, e não entendo mais nada. Abaixo a cabeça, penso. Ergo a cabeça, ando. Sem destino, sem casinha no meio do nada, sem nada, ando.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008


 

"PERDOA SE ME TENS, AMOR"*

Hoje sinto fragilidades de um anjo. Algo me comove ao saber que os anjos também choram, porém assusta, assombra vê-los assim frágeis. Não mais os vejo fortes, loquazes, seguros de si; eles padecem da forma mais cruel de castigo: amor. Pouco que restava de minha fé se vai, quando de fato imaginei que tivesse ido toda há tempos, pois não aceito que anjos chorem, que mártires chorem, que musas chorem; mas também me dói (e dor doída de mágoa acaba até com o amor) de nunca ver meu anjo chorar assim por minhas longas dores de amor; talvez o contrário, talvez não, talvez é a única certeza que levo pra vida; talvez.

*Trecho da música Perdoa, Meu Amor (C. Vieira), por Marisa Monte,


Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Fevereiro 27, 2008


 

TONTICE

Antigos desejos nos assombram. Frustram os sonhos, tais como se nunca fossem nada mais que cruéis pesadelos; e pior, pesadelos recorrentes. Aterrorizam, mas passa; eternizam, mas passa; decepcionam, mas passa; eternizam, mas passa; machucam, mas passa; eternizam e passam.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008


 


Por: André R. Melchiades Domingo, Fevereiro 24, 2008


 

(EM) TRISTESSE

Ouvi de cantinho que a felicidade não pode estar nos outros e sim dentro de nós, conosco mesmo. Fosse verdade absoluta ainda teimaria e isto eu fiz, empenhei algumas míseras alegrias nos ombros de poucos. Pouco também esperei, desejei, mas esperei e desejei. Deixei meus braços estendidos e o que veio foi um vazio se aquietar no meu peito; ironia; o meu* não serve, nem quando a mim, nem quando aos outros.... se fosse diferente “não seria vida”.

Por: André R. Melchiades Domingo, Fevereiro 24, 2008


 

RUAS NEGRAS

Minha subjetividade me afasta do principal, por isto as meias palavras que digo se transformam em grandes verdades ocultas, veladas e assim vivo em paralelo. Até dado o momento deste paralelo se esvair, se for, me levar e enfim eu irei com um gostinho de ainda bem.

Por: André R. Melchiades Sábado, Fevereiro 23, 2008


 

A VIDA É FILME

O portão tornou-se ainda mais ocre após tanto tempo. Mesmo passado pelos anos, me deu amparo à zonzeira de ali estar e não ser mais nada, um estranho conhecido. Juntei-me à paisagem fria da recente madrugada e me compus, me senti parte do marasmo noturno. Fiquei espreitando o vento atravessar o portão, se espalhar casa adentro e sussurrar meu nome pelo corredor, cúmplice. Não houve eco, sequer murmúrios, não havia mais de mim. Juntei meus parcos pedaços, um pouco dos soluços, caminhei, deixando um dos últimos devaneios da minha vida tomando forma de adeus e parti.

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008


 

VERDEJOU

Tingi meus sonhos com esmeraldas. Petrifiquei-os como estátuas de doces e amargas lembranças. Deixei-os inertes, jaz, naquele espaço que ocupou em minha vida e ali perpetua, mesmo que minha razão não aceite, mesmo que meu coração rejeite, é sua sina. Verdejei-os, pois das cores é esta a que nunca se vai.

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008


 

O ADEUS DE UM ANJO

Deixei a porta aberta e furtaram meus sonhos. Deixei-os ali inertes, amontoadinhos uns nos outros para que não aparecessem, não chamassem atenção, porém o brilho deles eram tão intenso que despertou a curiosidade alheia. Buliram neles, tiraram do lugar, remexeram até eu não os ver mais. Meus sonhos, tadinhos, eram tão inocentes, puros, não faziam mal a ninguém e foram assim usurpados do meu convívio. Errei de não pô-los, exclusivos, sob meus olhos, mas eu os pus numa redoma de devaneios e os alimentava de esperanças furtivas, só minhas, nunca os impus a ninguém. Não, não eram reais, nada era; mas eram a realidade da vida minha. Traziam-me alento com algo que, talvez, nunca viria e assim perpetuaria minha existência mais docemente, mas não se pode mais viver de sonhos, não se pode mais ter oito anos, a vida não deixa. Tomara que onde estiverem posto os meus sonhos cuidem deles, os usem com amor, pois nos meus momentos de abandono e vazio eram eles os companheiros mais fiéis.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Fevereiro 19, 2008


 

A CONVERSA COM DEUS: O PEDIDO

Então o anjo me disse:
- Você pode pedir pro meu Chefe me desculpar?
Embasbacado, sem saber ao certo o que o anjo fizera, mas cúmplice, prometo que sim:
Toc, toc.
-Quem é?
-Adivinha?
-Puts, você de novo?
-Hei, Deus, olhe a língua! Que exemplo.
-Tá, tá, ta, desculpe, mas o que vai pedir desta vez?
-Poxa, assim magoa, viu?
-Ah vá, sem drama, você geralmente me procura quando algo ta estranho, desembucha.
-Que nada, ás vezes até dou uma passadinha aqui para ver como tão as coisas.
-Contaria nos dedos...mas diz aí, qual é a bucha desta feita?
-Magnânimo é o seguinte, tive uma visão. Era uma luz brilhante que explodia nos céus, raios, trovões, montanhas pulsantes, mais trovoadas, rajadas de vento, garoa fina, depois chuva forte...
-Páraaaaaa de enrolar. O que você quer?
-Bom, é simples na verdade. Vim lhe implorar alento ao coração de um dos seus, dos nossos, sei lá; de um anjo.
-Qual quem?
-O meu anjinho azul.
-Demorou...É o que me faltava. Você bebe, é??
-Que humor, pelo amor de Você!!! Por que tanta dureza neste coraçãozinho?
-Humor? Dureza? Veja se você, mero mortal, me entende: não foi você que tava triste com este anjo tempos atrás? Que fugia dele em suas lembranças até?
-Idolatrado, não nego que tava triste com o anjo, mas você disse bem: sou mero mortal e assim exagero.
-O que o fez mudar?
-A vida me mudou e vi com os olhos da alma, Senhor. Meu anjo erra, como agora diz ele que o fez, e talvez quem sabe errou comigo. Talvez quem sabe não errou comigo para não errar depois. Talvez até tivesse me poupado de erros que viriam. Não sei.
-Mas seus olhos marejam pelo anjo, como o fez agora, que lágrimas são estas?
-São lágrimas de amor, mas não são de anjo. Lágrimas de anjo são vermelhas como sangue e meu anjo é todinho azul, me dói mais a dor dele que a minha.
-Que quer de mim então, criatura?
-Cuide do meu anjo porque ele não pode ser cuidado por mim.
-Por que tamanha preocupação?
-Porque meu anjo sempre foi forte ou sempre fingiu muito bem, até quase se enganava, mas agora ta fraquinho até pra se enganar.
-A qual preço quer que eu o cuide?
-Ao preço que eu tenha que pagar.
-Qualquer preço?
-Quase. De tudo que eu tenho hoje, a melhor é a boa lembrança e bem-querença do meu anjo e ao meu anjo. Não me furtando isto, me venham as contas.
-Só lhe caberão as lembranças, suportará?
-É só o que tenho, não ambiciono nada mais, apenas sonhava, delirava, mas sei meu lugar, somente não controlo meus delírios rompantes. Faça-o e chorarei, meio alegria, meio tristeza, afinal meia alegria é melhor que nenhuma.
-Mesmo abrindo mão do seu sonho, único aliás, penso que o pedido não partiu de você...
-Senhor, é dito que para se chegar ao Pai, não se deve fazer por meras palavras soltas ao vento e sim através do coração? Meu anjo pos o coração à prova, humildemente. Ele se despiu de qualquer orgulho e quase em prece me pediu para ter contigo. Lembre-se: somos, eu e o anjo, meio avessos ás crenças e fé.
-É, para que ambos me desejassem em suas vidas, realmente o caso requer mais compaixão mesmo. Então, que seja feita a Minha vontade. Agora, que tenham uma lasquinha de paciência e fé, pois senão já viu.
-Pode deixar. O anjo que tenha a paciência que da fé cuido eu.
-Então chega, né? Vá comigo!!
-Opa, pode deixar. Fique com Você também!

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008


 

SEM COMENTÁRIOS

Evitei as lágrimas, os anjos param de chorar, eles têm que cuidar de tantos e de si. Anjos choram doído, mas choram de uma vez, desabam rios de lágrimas, mas é um único alvoroço apenas. Aos anjos, como às poetisas, a dor é mais doída, o sentimento é mais sentido, até maquiam seus semblantes, mas se erguem do lamaçal com asas ainda mais brilhantes; pena que às vezes demoram em se ver no espelho. Ah, mas eles se vêem, vêem sim; já vi anjinho assim no espelho lá de casa, faz tempo, mas eu vi sim.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008


 

PERMANECER, CONTINUAR

Não pude dar asas ao meu anjinho azul, não, não deveria ter sequer pensado isto, mas, sou humano, errante: pensei.
Pus-me em resignação a seu proveito comedido, e, creiam: senti a vida fluindo em minhas artérias. E o anjo pouco usufruiu, nadinha na verdade.
Poderia, sem desonra, sentir-me pleno agora, poderia mesmo deixar-me daqui* e me daria por feliz, mas é somente quase, pois meu anjo tornou a chorar.
Deveria ser proibido aos anjos chorar.
Vetei-me ao adeus, então em vigília fico aqui (dor em coro), mas somente se o anjinho carecer, tomara que não...minha única meia verdade até hoje ao meu anjo.

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008


 

LÁGRIMA DE ANJO

Eu ouvi um anjo chorar. Vinha de uma dor contida, contínua, mas perene; este é meu anjo: não se desmancha. Ofereci, humildemente e inocentemente, uma paz, um afago, um afeto. O anjinho até suspirou e chorou diferente, menos doído. Depois o meu anjo nem chorou mais, até ria, o sorriso mais lindo de Deus. Mais depois ainda até quase se esqueceu do que doía; lágrima de anjo é séria como sangue, não pode se esvair muito. Em silêncio, agora suspiro, sei que tentei, quis eu ser o anjo do meu anjinho azul.


Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008


 

IRONICAMENTE

Ironicamente, meus olhares turvaram os sonhos. Já não vejo as cores em cores. Se sazonal, não sei, não adivinho o saber, mas já não vejo sonhos azuis, ironicamente.

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008


 

[ ]

Só para mim. Somente a mim. [Ouve,] se ouve: por mim.
Um universo de mim mesmo [é seu mundo], qualquer mundo, quaisquer.
Meias palavras, meia vida alheia, [minha vida] toda.
São os olhos que vejo, os únicos que valem, os que me cabem[!!!]

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Fevereiro 12, 2008


 

VISCERAL DEMAIS

A parte de mim que mais sou eu é visceral.
Pouco fui pra fora de mim, talvez menos que pouco, só não posso dizer que nunca.
Outro pouco de mim é perpétuo nos disseres, mesmo se contradizendo em míseras ações incertas.
Pouco mesmo é o que me conheço, não falo de mim pra mim mesmo; só me esculacho.
Ironicamente, sei de tudo sobre mim, mas não me reconheço, sou mais quando não sou nada.
Meus pecados, todos os têm, são só meus, este é um pecado que não me imputarão.
Quem já viu uma lágrima escorrer e fazer ponte entre os lábios saberá me ler, mas dificilmente deixarei entender.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008


 

TIC, TAC, TIC, TAC

O sono não me quer. Há tamanha ausência em mim mesmo. Queria outro milagre após infindas preces atendidas, mas seria abuso. Ausentei-me de mim, não me encontro em nada de mim, quis o abraço, meio aos soluços e o abraço não pude, não pode, até entendo, compreendo, mas não se nega um abraço. Quem sabe neste alvorecer ainda eu durma e possa em sonhos furtar abraços de anjos dos céus*...quiçá..

Por: André R. Melchiades Sábado, Fevereiro 09, 2008


 

DULCÍSSIMA

Mel, pouco, mas é doce, deixo ser pouco.
Doce, pouco, nem enjoa, nem enoja.
Sede, menos, doce pouco.
Ao meio, tanto amargo, meio-amargo, ainda doce.
Escorre, se derrete, lambida furtiva.
Suspiros, de amor distante, de doce torturante, qual?
........Se fores o doce: lambuza-me, louca!!
.............Se fores o amor: nem dói, se dói, dor pouca, amor é doce*.


Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008


 

MORFEU

Sonho os seus sonhos, aqueles tantos que sei e tantos outros que imagino serem seus. Os quero todos pra mim também, assim são os meus: deliciar-me com os seus desejos e deleites. Tardeia, mas não esmorece; esperança e amor meus; pena causa à demora, à você. Vem, lhe espero na esquina da minha vigília noturna com os devaneios insones.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Fevereiro 04, 2008


 

UM DIA (PÁSCOA) EM LISBOA

Tenho-lhe nas coisas que me lembro, que nos lembram, que nos encontro.
Nunca navegamos de desencontros, desacertos; tudo tão claro como a necessidade da distância.
Ponho um sorriso em sua face: sinto, ouço e espero.
Rua sua: são doces os perfumes de madeira; doce por mim, madeira por você.
Uma surpresa a cada voz de sono, de vontade, de dúvida e duvida?
E se me canso, durmo, sonho e lhe tenho em cada coisa que me lembrar.

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Janeiro 31, 2008


 

ÍNFIMOS DELÍRIOS

Ainda não é para mim. Tempo é demais, qualquer tempo é demais. Delírios rompantes são demais, deixe-os por menos, ínfimos já me servem. Agora tem uma garoa fina, fria; meio Sessão da Tarde e me lembro que garoa é quase chuva, quase chovo junto, mas não, porque não quero mais. Vou descer meus cinqüenta e seis degraus, correndo de olhos abertos, peito estufado, bradando meus desatinos com os braços esticados o mais possível e agarrarei cada gotícula que me saudar; afinal pelo menos a garoa veio me acariciar.

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Janeiro 23, 2008


 

EM BUSCA DA INOCÊNCIA PERDIDA

Não que me ausente da vida, mas há um quê em omitir-se, vê-la como um espectador.
Tenho saudades dos sorrisos lindos e tímidos. Agora me parecem maliciosamente fáceis demais e dados a quem os quer. Encantava-me a vergonha sutil de deixar a pele vermelha, foi-se.
Furto olhares que não são pra mim: tão fútil é a paixão alheia.
Crio as pessoas que quero, pois das que vejo passarem a minha frente só preciso vê-las mesmo, afinal o tempo machuca e as transformam, mal as transformam.
Não se roubam mais goiabas, tiram-se vidas. Goiaba é mais gostoso, oras.
Dizem que os sonhos carecem de cifras, quem dera pudesse comprar os meus, que fosse um único. Meu delírio rompante é da alma, e pior, sei que não se pagará e o levarei pra eternidade.
Minhas palavras já não encontram eco, tudo bem eu nem ligo, tem que se chegar ao inferno para achar que o purgatório é o céu.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Janeiro 15, 2008


 

PÓLOS N

Não havia um dia em que ela deixasse de ser agraciada pela luz da manhã. Abria a cortina, rompia um novo olhar e estava o sol a lhe paparicar.
Muitas manhãs de dias claros seus olhinhos se fechavam um tiquinho ao brilho do amigo incandescente. O sorriso que a moça despejava, o mais belo de Deus, era sua doce recompensa.
Acontecia de pós noites cansadas ficar a lhe esperar como num último alento e mais intenso vinha, trazendo um espectro de luz aos pensamentos difusos da menina.
Ainda que o dia amanhecesse turvo, de nuvens pesadas, sabia ela que sobre os cúmulos-nimbos estava o sol a lhe espreitar e cuidar, sempre. Era um carinho gratuito, desprovido de retribuição, de nada, era afago de amor apenas.
E houve que um dia parecia chover lágrimas de sangue. Descera do céu densas rajadas em forma de tempestade que se somaram com as águas que dela também minavam. Caminhou em meio ao jardim, rodopiando de mãos espalmadas para cima, fazendo arco com seu vestido rodado. O seu lamento trouxe lágrimas rubras dos deuses, chovia e as águas se misturavam, se sentiu só. Assim que seu pensamento ardilosamente versou sobre um falso abandono, espoca um raio intensamente brilhante que lhe dilata as pupilas. O raio cresce violentamente acima e rompe uma brecha entre as pesadas nuvens. Um tímido pingo de luz aponta brilhante e cresce. Ganha coragem, força, rasga as nuvens e ainda mais. Um cone abrilhantado a envolve, acaloradas as águas, todas, secam. Sentia-se tocada, protegida por um carinho distante, coisa sutilmente intensa. De sorriso refeito retoma seus pensamentos. A passos lentos, despede-se do sol, caminhando rumo á casa. Contudo sabia que agora o teria não só nas manhãs, o trazia definitivamente também dentro do coração para todos os momentos de abrir de olhos e também com eles fechadinhos.


Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Janeiro 14, 2008


 

1978 (o último epílogo)

Era noite de lua azul. O céu insistia em presenteá-la. Contudo ainda não havia paz naqueles pensamentos distantes de seu controle, talvez fosse inaceitável subtrair sua certeza; às vezes fugaz.
Debruçou-se perdidamente largada sob o parapeito que circundava o terraço. Ela não era parte de si mesma naquele instante e deixou-se chorar, permitiu-se ser fraca. Soluçou de perder o fôlego, também gritou de perder o ar e as densas lágrimas tornaram ainda mais ocres os tijolos que lhes davam sustentação aos cotovelos que por sua vez tinham entre si o rosto pálido repleto de cabelos lisos, despenteados, grudados, úmidos.
Já não queria ser dona de qualquer resposta, nem queria saber a resposta, não havia resposta. Havia apenas questões e já perdera tempo demais no desejo de saber, conduzir tudo. Agora era tempo de deixar-se ir, de sonhar, de delirar:
- Estou com muitas saudades, você pode vir aqui hoje? – rezou.
- Nunca deixei de estar aí – jura que ouviu.
- Ah, só mais uma coisa, não tenha pressa pra ir embora, pois se vier é para sempre. – caçoando da veracidade dos céus
- Repito, amor, sempre foi meu desejo estar contigo e nunca deixei de estar. Deixa-me ir que agora é mais tarde que ontem e ainda não tenho uma flor* para lhe dar. – riu que desta vez ouvira sim!
- O quê? Ainda não tem? Mas tudo bem, se a flor for mais de duas eu lhe perdôo. – e já sorria.
- Espere por mim no portão que assim diminui a demora de poder lhe abraçar. – ah, ela estava nas nuvens.
- ........ - então não disse nada, ela está no portão à espera...desde já.


Por: André R. Melchiades Terça-feira, Janeiro 08, 2008


 

DESESPERAR

Meus sonhos nunca foram em branco e preto:
[Verdejei por sonhos Palestrinos, algo intensamente platônico para não ter a obrigação da reciprocidade.
Deleitei-me por “Pequeno Sonho em Vermelho” e jurei eterna aquela mais de hora sentado de olhos vidrados.
Vesti-me da mais cândida brancura para receber tantos anos novos na vã esperança de conseguir apenas tudo, nada mais, somente tudo que queria.
Ousei furtar-me ao luto no derradeiro adeus usando um colorido que mais vinha dos olhos, do que da alma mesmo.
Mantive os amores perfeitos com seus montes de azuis serpenteando dentro de mim, mesmo se distante estivesse, mesmo se assim quisesse... e, se desbota, não sou eu.]
Meus sonhos nunca foram, estão dentro de mim.

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Janeiro 03, 2008


 

SUAVIUM

Aquela melodia agora toca, permito que exista!
Traz aos meus delírios o sorriso único, olhos cerrados e cabelos afoitos. Lampejos intensos culminam no selar dos lábios, tal como se fosse verdade, verdadeira anamnese. Então na celeridade de que meus tormentos me conduzem, fatigado e realista, me recolho a minha clausura etérea.
A melodia se desvaneceu em meio aos soluços. O dia deitou-se pela enésima vez. Não me sinto mais presente, nem em delírios. Melhor acompanhar o dia, o anjo da guarda sussurrou.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Dezembro 28, 2007


 

IRONIA

Silencie o que possa doer, talvez não pudesse desdizer depois.
Emudeça a voz perdida, não ouse se arriscar.
Aquiete o pulsar torpe por uma certeza dividida.
Censure suas palavras doces, mesmo que outras nem tanto.
Esconda os sons das frases escritas para se fazer ausente.
Permita-se ser covarde!

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Dezembro 27, 2007


 

MENOS CHRISTMAS

Se nao fosse recorrente o vazio da noite pequenina de Belém, falaria eu, mas enquanto devoram em nome do Pai, apenas desanuviando, de olhos moribundos num ponto distante do meu coração, desperto a alma lívida para um suspiro doído e escondido.

Por: André R. Melchiades Sábado, Dezembro 22, 2007


 

QUERO-QUERINHO

Inesperada, destemperada: aguardo!
Não muito, pois será inesperada.
D’outro tempo, d’outra vida quiçá: desamparada!
O bastante e perdidamente assim tolero: e gosto!
Talvez hoje, talvez nunca: até lá, sei lá!
Aos sonhos: já não sonho.
Vivo e revivo tudo: o que posso somente.
Que “quero-querinho”: sodade inocente!
Latente: tum, tum, tum.
Sorri e dorme.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Dezembro 21, 2007


 

CLAREIA

E se fez dia.
No meio da escuridão houve um estrondoso raio recorrente, mais forte que o bater torpe do coração, talvez até sem ritmo ou num ritmo atordoado, mas se viera, viera intenso... e contido.
E, se fez dia.
Com a explosão branca, desgarrara a noite em apuros, parecia que esquecera de concluir seu ciclo e fugira em carreira. Ainda em seu manto negro disparara ao encalço da luz que havia despertado mais cedo, puro complô dos astros. Cedo não, no devido tempo que já devia!
E se fez, dia.
Trouxe o clarear a poucas almas despertas, era demasiado cedo para tantas -nunca tarde para outras -, mas trouxe o que pudera ter de mais límpido, puro mesmo. Acalentou a noite em seu repouso, seu regaço; seria por fim sua herança. Trouxe sorrisos, todos eles! Na paciente espera de despertar o mais belo sorriso de Deus. Pretensioso e ao mesmo tempo não; apenas lídimo, apenas.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Dezembro 18, 2007


 

CONTIDO

Ecoa um grito contido.
Um desesperar silente, quase inocente.
Viro, reviro, transpiro inerte.
Anseios se juntam num curto suspiro.
Dôo sorrisos, não endosso o amargor,
Já me furto às tantas tristezas.
À minha alma imploro sôfrego,
Os pensamentos me traem, saem difusos,
Palavra alguma se ouve, uns as sentem.
Afora de mim, o colosso se impõe rude,
Mas de olhos fechados a criança ressurge.
O orvalho da manhã me fez lembrar:
“Garoa é quase chuva“
E desabo com a tempestade,
Também estou chovendo.

Por: André R. Melchiades Domingo, Dezembro 16, 2007


 

OUTRA VIDA

Tenho uma outra vida dentro dos meus sonhos.
Nesta vida não há dor, não há sangue, até os medos são de mentira, sequer sonho em preto e branco, tenho sonhos de um colorido azulado e por serem meus; todos os finais são felizes. Se me deleito em sórdidos devaneios, meus delírios não machucam, nem ferem, tampouco causam dor; vivo a melhor vida, a minha e controlo a de todos. Sou um deus bom de meus ensaios de felicidade, se erro a volatilidade desta vida repõe tudo em seu lugar, se acerto a refaço e revivo.
Agora vou-me. Minha outra vida me espera, lhe encontro lá.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Novembro 30, 2007


 

ÍMPAR

Nunca tive coleção. De nada.
Tudo para mim sempre foi ímpar e mínimo.
Nem deuses eu colecionei. A onipotência Daquele já me impedia, até nos meus inúmeros momentos ateus.
Tampouco acho que fui colecionado também, tornei-me tão ímpar quanto desejara que fossem e foram; amigos todos; amores poucos.
Nunca tive coleção. De nada adiantaria, somos únicos.

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Novembro 14, 2007


 

EIS QUE ME VOU

Eis que me vou. Cansa-me pensar. Relembrar então, deveras! A benção da desesperança é nos tornar fortes; menos cruéis com o imutável desejo de ansiarmos mais, onde pouco já seria mais, bem mais. Minha mente é uma vitrine insana de pensamentos confusos por gente confusa, com gente confusa e de um mundo confuso.
Tornei-me escravo dos sonhos infantis e de outros um tanto noturnos. Sinto-os de cada forma, sofro por cada forma inatingível e contemplo quando lá concebo minha vida.
Um pouco de mim morreu, talvez um cometa passou e tenha levado, mas agora sou outro, mas sou igual; que azar o meu....Assim perdidamente sozinho dentro da minha mente, me deixe, pois eis que me vou.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Março 30, 2007


 

QUERIA EXCLUIR O BLOG, MAS...

Acho que não consigo fazer com que as pessoas me entendam ou que ao menos gostem do que tento dizer. Até numa despedida ou mesmo num pedido de clemência parece que não sei fazer certo. Hoje estou mais confuso do que triste, estou desacreditando mais nas pessoas do que em mim, já não era sem tempo.
Tenho saudades diversas, medos também; certamente quando eu morrer as pessoas me entenderão melhor, é sempre assim: a gente morre, ficam as coisas boas e subitamente passam a nos compreender...não posso dizer que vejo a hora disto, mas, é assim mesmo.
Não consigo cancelar este blog. Tento e não consigo. Antes tinha ambição de usar para falar com o mundo, até que deu certo. Depois quis ser especial para o mundo, hummm, quase deu certo um tiquinho. Hoje não sei mais o que desejo, nem quem me lê (mas sei que lêem) me entende e nem sei qual motivo me leva a escrever. Talvez neste instante esteja voltando às origens: desabafando!
Vou parar agora, pela primeira vez estou me sentindo sozinho demais enquanto escrevo, já não me parece fazer companhia as palavras ou talvez elas não me respondam mais. Por ora irei parar....espero não sumir...mas honestamente...não sei de nada...não tenho mais verdades absolutas, nem mentiras certeiras. Passo a vez....e até outra vez...

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Março 20, 2007


 

O MONTE

Eu sei. Sempre disse que era real a eternidade das minhas palavras. Mesmo ainda me metamorfosiando todo dia, meus desejos perpétuos serão perpétuos, senão não seriam palavras minhas. Não haverá um dia em que desacredite de cada jura, juro! Que meu tempo um dia seja o tempo comum de tudo ocorrer, correndo, pois sou de apelos fortes e imediatistas. Foi-se o meu ímpeto, ficou de mim apenas a essência e a certeza que erro onde poucos erram e acerto onde muitos erram. Um dia eu volto, refeito não digo, mas volto maduro, mais seguro. E se Deus realmente for misericordioso aceitará meus olhos em clemência e um certo receio do que vem.

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Março 01, 2007


 

IMPONDERÁVEL

Já era tarde, bem quase noite, mas era tempo.
Tempo de desesperar, de deixar de esperar. Azulou um começo de nova noite. Era mais tarde no romper da minha vida, mas se vêm tarde, nem sempre vêm frias*, pensei, aprendi, até chorei. Se das poucas certezas que tive na vida, a mais fiel é que confio cegamente em mim; agora refaço, revigoro: que seja assim! Confio e desconfio, sou assim! Confio e assim se vai e vou e vamos! Que meu talento, certamente o único, de amar incondicionalmente quiçá um dia seja bálsamo e não uma baioneta voltada a mim. Outrora me devia estas clarezas, agora tanto faz, tanto fez, me pouco importa ser vidraça, afinal sei que jamais serei pedra. Atiro-me, retiro-me, mas nunca atiro (farpas ao coração) e retiro (almas do coração). Calma não tenho mais, mas tenho paciência para controlar a ansiedade e desatinos. Rostos tantos me viram nestes anos todos e nem sei mais a expressão do último olhar de despedida. A dor troca expressões, doa formas e contextos diferentes, mas nada substitui a indiferença, a indelicadeza. Tantos são gentis no regozijo, contudo quisera gentileza na dificuldade, no romper, no estilhaçar, mas se for engano esperar, oras, erro e volto a errar, afinal me vem sempre a clareza de que espero o que esperariam de mim. Ninguém morre de mágoa, ainda bem.
E tardou mais a noite.
Não sei mais ser subjetivo. Cansei. Tenho medo, muita fé, pouca crença, esperança, mágoa e amor. Sou humano e pecador. Creiam, isto não é um desalento, é o meu ode ao imponderável, à minha incapacidade de enxergar a vida trocar de cores.
Veio o sono.
Meu repouso será tranqüilo enfim. Posso me ver sem máscaras, foram tantas, tantos papéis! Que seja breve o adeus e eterno o amor. Não agradeço porque seria piegas, então de olhar úmido voltado para meu peito, repito:
"-Amor, eu te amo!"

*Frase alterada de "Marília de Dirceu" - T.A.Gonzaga

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Fevereiro 27, 2007


 

VERDES OLHOS

Verdes olhos como são
Vaga lua silencia e reluta
Vistes meus sonhos como estão?
Venha, candeia minha, se ajunta.

Vagarosa luz incandesça
Vigie meu sono leve
Vil medo que não desça
Vida boa me venha breve.

Viva de amor, de coração
Voz da razão ainda vem
Verossímil só é viver são
Veja: se ame também!

Vagueie na noite de chuva
Vicejar nunca mais não
Vigiarei assim cada curva
Vislumbrando uma paixão.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Fevereiro 13, 2007


 

CONTO PARA MEIA NOITE, NOITE TODA TALVEZ (CONTO)

O som de um blues tomou conta do quarto. Ela afastou-se. Ficou olhando para um ponto distante no horizonte através da janela. Sequer encostou-se ao parapeito. Sentiu uma brisa noturna acariciar-lhe o rosto, enquanto o fino tecido transparente da cortina bailava no ar, quase lhe tocando o rosto já um tanto corado.
De onde ele estava podia apreciar sua esguia silhueta. Aquele corpo delicado de quase menina ficava ali de costas para ele que se contentava em apenas apreciar a lingerie preta que contornava sua timidez. Os cabelos loiros e compridos acariciavam seus ombros salpicados por sutis e discretas marquinhas de sol. A pouca luz que vinha de uma lâmpada azulada mostrava que sob os mínimos fios claros do seu braço havia um corpo precisando de um afago, de calor.
Lentamente uns poucos passos o coloca a centímetros dela. Começa a sentir o cheiro adocicado do perfume que exala de seu corpo. Aproxima-se ainda mais pelas costas da amada. Envolve a fina cintura da moça com ambas as mãos, acariciando e trazendo-a para junto de si. Ela o sente mais firme, mais homem. Os corpos se encaixam. Com um sopro ele afasta os cabelos da nuca da amada e delicadamente toca-lhe com os lábios, úmido toque, lento, vagaroso toque. Ela suspira e com um movimento curto consegue curvar o pescoço para sentir o mesmo toque nos seus lábios. Fecha os olhos e o beija também, sem se virar. Os pensamentos se perdem, o beijo se eterniza, parece durar por toda uma vida. Como por encanto ela sente seu corpo sendo acariciado pelas mãos dele. Uma das mãos passeia com mansidão pelo seu ventre, tocando-lhe com as unhas, arranhando-a sem deixar dor e já percebe os pelos eriçados. Outra mão sobe por entre os seios, acariciando o fino tecido do soutien e um pouco do busto que escapa também; tudo se inflama ali. Não se fazendo de rogada, ela passa a mão por trás da nuca dele, trazendo-o para um beijo de línguas insanas e conduz habilmente a outra mão dele pra dentro do bojo do soutien, deixando-o tocar, adorar, desejar. Os quadris dela passam a mexer ao ritmo do blues, ele a acompanha. O beijo escapa das bocas ávidas e passa, ele, a beijar-lhe os ombros. Ouve-se um gemido quando ele lhe toca finalmente as costas e em vão ela cerra os dentes. Um beijo mais afoito rompe a presilha do soutien, então, ela abaixa os braços e a peça desliza para o chão, deixando nus os seios branquinhos e arrepiados. Não tenta esconde-los. Os lábios dele se apoderam das suas costas. As mãos chegam para ajudar com toques, leves apertos; uma breve massagem talvez. Ela mal consegue se manter de pé, mas ele insiste em mantê-la assim e se agacha beijando suas pernas, sentindo o contorno das suas coxas, a suavidade da sua pele alva. Como que surpreso ele se depara com aqueles montinhos lindos, timidamente cobertos por uma calcinha ínfima. Um suspiro brota do peito do rapaz. As mãos descem pelo quadril, envolvem a cintura da loira, contorna-a. Uns ousados dedos escapam pouco pela frente, quase sentindo os pelos pubianos, se não os sentiu. Mais animado que cruel ele aperta suas coxas dando-lhe um beijo demorado, molhado e os dentes se encarregam de livrar-se do último obstáculo que a cobria. Mordendo com suavidade ele abaixa a peça, vai descendo até ao carpete, deixando-a despida, totalmente. Rapidamente ele se põe a sua frente. Olho nos olhos, amor no coração. Ela se aproxima, senta-se a sua frente e tira-lhe a única peça de roupa branca que vestia. Sentada ainda, vai para trás da cama, mais para trás. Deita-se nua, lindamente nua. Parecia agora que a amada se vestia da timidez de sempre com um brilho no olhar, quase choro, quase debutante, quase pra sempre, quase único. Percebendo a insegurança de quem quer mimo, calmamente ele vai para a cama, coloca-se ao seu lado. Passa a admirar a linda menina que se entregara de coração e que agora estava a se entregar de corpo também. Toca-lhe a boca, admirando os lindos olhos verdes, acariciando o rosto de anjo e sela tudo com beijo calmo, sereno, eterno. As mãos se encontram acima dos travesseiros, se entrelaçam e se apertam mais, mais, mais e muito mais.

Por: André R. Melchiades Domingo, Fevereiro 04, 2007


 

"SACARINA (você não é o que parece)" *

Ela vigiava seu sono. Escapava do amado um leve suspiro. Eram doces seu hálito de anjo e o veneno dos seus sonhos de traição. Jazia seu amor e ela não sabia; sentia apenas. Tinha que amor era para sempre, as escolhas seriam para sempre ou simplesmente para nunca mais, acreditara que nada se amava pela metade, porém nunca mais é uma promessa que jamais soubera cumprir.
Finalmente o amado desperta. Olhar perdido de sono acabando e uma simpatia ímpar de peso na alma lhe fez dar um beijo seco nos lábios da menina que inesperadamente sorriu. Por minutos pensou numa vida toda e cogitou em dar de ombros, passar mais uma vez pelos burburinhos achados das incursões do amado, mas uma troca de nome ao que ele lhe diz bom dia trouxe novamente a ira ao seu peito, trouxe enfim o "nunca mais". Passou, ele sequer percebera o equívoco, levantou-se em busca das roupas que ainda, cúmplices da sua afoita chegada, estavam espalhadas pelo quarto. Alheio ao que acontecia na cabeça da, dita, amada agachou-se para apanhar a camisa e num súbito instante pode se ouvir á léguas de distância um grito forte oriundo de uma faca atravessando lentamente um peito inerte. Nada se ouvia mais. Então o farfalhar de aves sinistras interrompe o silêncio que perpetuou aquela cena: uma mulher sobre seus longos saltos bate a porta atrás dela, deixando na beirada da cama o olhar deprimente de um homem adulto chorando seco com uma aliança na palma da mão esquerda, tendo a outra presa ao anular da mão direita. Desta vez, sim, ela o usara para os instintos mais primitivos, o possuíra e satisfeita se foi. Sequer olhou para trás, pois senão voltaria, sabia de sua fraqueza, de sua bondade talvez e do seu amor então, ah, nem se fala.
Caminhava pensando que a faca que cravara no peito do ainda amado doía mais nela do que nele e iria doer ainda por muito, muito tempo. Não que desejasse, mas sabia que um dia a faca enferrujaria no peito do amado e aí sim, sua dor seria finalmente latejante. Só ansiava que quando isto ocorresse o ferimento que também lhe causou estragos já estivesse cicatrizado, pois o amara mais que a vida.
Toca o telefone, era ele, com a faca enferrujada no peito...

* Ouvindo Érika Martins, então....

Por: André R. Melchiades Domingo, Janeiro 28, 2007


 

UM BREVE ADEUS

Quando ela abriu os olhos a tal luz branca não estava lá. Não havia luz alguma. Também não havia passado breve filme nenhum sobre sua vida naqueles instantes. Pensara que se estivesse viva, não teria nada mágico em ficar perto da tal travessia. Precisava saber se estava viva, mas de olhos abertos só via o teto branco e ouvia uma espécie de apito agudo de uma máquina em intervalos cíclicos. Respirou fundo e o peito doía. Abaixou os olhos e viu-se presa por um emaranhado de fios, percebera seu estado de morbidez. Vinha agora à mente os seus últimos momentos de lucidez antes de acordar ali onde estava deitada:
"Caminhara ofegante pelas escadarias da empresa, com papéis em baixo dos braços, folheando outros tantos e lendo avidamente um em especial. Carregava ainda o celular junto ao ouvido, discursando em monossílabos e pensara naquele breve instante que não tinha perspectiva nenhuma para a noite, para o final de semana, para o ano; a não ser resolver aqueles problemas. Sua vida havia se tornado amargamente rotineira e sem graça, meramente cotidiana. Nem dos poucos amigos, se um ou dois, tivera notícias havia anos. Pensara que nem o nome do porteiro do seu prédio ela sabia e tampouco ele sabia direito quem era ela. Deu-lhe um aperto, será que o porteiro sentiria sua falta se ela sumisse? Sim, aquele porteiro que não poderia descrever, pois nunca reparou nele. Quem sentiria sua falta? Quem choraria sua perda no seu último dia? Um enorme vazio se instalou dentro do seu peito. Tudo isto passara ao mesmo tempo em sua mente, mesmo falando ao telefone, pensara em tudo voluptuosamente, mas de súbito o aperto se intensificou e o dia virou noite. Pronto, acordara ali naquela maca totalmente inerte."
Lembrando aos poucos lhe deu vontade de que tudo tivesse se encerrado por ali mesmo, mas via que lhe apareceu mais uma chance e pior, sabia que a usaria da mesma forma de antes. Desta vez uma lágrima escapa timidamente, não conseguia escondê-la de ninguém. Tentou contê-la com as mãos, contudo percebe que seus movimentos estão lentos demais para alcançar a lágrima antes que caia no lençol branco do hospital. Uma mão delicada, com dedos finos e brancos faz este trabalho para ela, não permite que umedeça o rosto. Virando devagar a face pálida ela nota uma estranha simpática vestindo branco, notadamente uma enfermeira, que sorri com doçura acariciando seus cabelos lisos, ajeitando sua franja. Uma troca de sorrisos e afeto se passa naquele instante. Sonhara tanto com uma dose de carinho sincero e descomprometido, porém só o conseguiu quase à morte, através de uma estranha. Sentia no toque da enfermeira um calor incomensurável, passava-lhe paz ainda. A visão tomou prumo e não mais se sentia tão fraca, sabia que se fortalecera com aquele gesto afetuoso. A enfermeira ainda dizia sorrindo coisas inaudíveis, mas certamente acalentadoras, sentia dentro da alma que era isto. A moça tenta se levantar, soltando todos os fios que a conectavam àqueles aparelhos. Atônita a enfermeira nota a rapidez descoordenada com que a moça tentara por a roupa e ainda repartir os cabelos com as mãos, arrumando os cílios; parecia em transe. Mesmo tonta, ergueu o peito e se pos a sair, mas não deu dois passos, caíra, lentamente, morta, nos braços da enfermeira que a ampara. Do momento de seu desmaio até o fatídico tombo ainda tivera tempo de dizer:
"-Enfim, não morrerei sozinha sem ter alguém que me ame ao meu lado, obrigada."

Por: André R. Melchiades Domingo, Janeiro 14, 2007


 

..........
(Sem título)


De olhos abertos fui. Não via nada. Fui assim mesmo.
Chovia e choravam também. Tantas eram as águas.
Nem escuro estava, mas não se via nada, nada.
Havia pessoas, de todos os tipos, todas as cores, todos os odores e não havia ninguém.
Os vivos não ouviam o meu silêncio, já os mortos não sei, ainda.
Então andei de um lado ao outro até cansar. Pensei: Por que eu andava? Parei.
Agora sim cansado estava. Cansei do cansaço, não de cansaço. E não sentei.
Ajoelhei-me, mas não por fé, pois esta me foi faz tempo, por medo Dele.
Implorei, faço isto de coração, e não chorei, lágrima uma nem tinha.
Quando muito havia dor, talvez pavor. Havia perdões a doar, a pedir.
Entregue. Despido de orgulho e de quaisquer ritos.
Ergui os olhos e se disse algo fora com eles.
Minha paga um sepulcral silêncio.
Cerquei-me apenas com meus poucos pensamentos confusos.
Triste. Apenas, triste.
Eu que já não era visto, agora também não via ninguém.
Agora escuro estava e eu não sentia nada, nem havia nada.
Talvez os mortos agora me ouçam, não, eles não ouvem, Ele não houve.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Janeiro 12, 2007


 

O CÁLICE E O VENTO

De cristal era sim ou talvez fosse, não sei.
Perene assim ficava serenando na janela.
Já nem lembrado era mais, jazia em seu tempo.
Apenas eram solavancos que lhe sobravam.
Parcos eram os olhos que lhe viam, se viam.
Então o vento teimou em visitá-lo, assombrá-lo:
-Um dia lhe derrubo - dizia faceiro.
E soprava, soprou e ainda sopraria mais.
Mesmo assim em pé ficava, resistia.
Não por teimosia: por princípios.
De tanto soprar o vento cansou e se foi.
Nunca mais de vento soubera, nem quisera também.
Porém um dia soprou rasante a noite: era o vento.
Deliciou-se vendo a lua brilhar no cristal,
Que lívido despencava do parapeito.
Poucos não eram os estilhaços agora no chão.
Pisado e esquecido o cálice largado ficou.
Até que outros ventos os cacos espalharam afora.
Os dias passaram lentos e voltou enfim o vento.
Passeou sobre a janela, alisando-a e aninhou-se ali.
Um aperto lhe deu e triste pensou:
- Onde estaria, que fim ele levou?

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Janeiro 10, 2007


 

ELA NÃO VEM

O dia amanheceu. Amanheceu escuro como noite. Ela não veio, outra vez. Chovia e não era motivo, não havia motivos, apenas chovia e me iludia crer que este era o motivo. Mas não choveu a manhã toda, tampouco uma hora toda, e ela, não veio. Sabia que não viria, mas o desejo me trazia quem não via. O sol apontou, teceu cores vivas em meio às gotas de chuva restantes, via seu sorriso em cada brilho, os olhos em cada cor e sentia seu perfume em cada sopro dos ventos, mas ela não vinha; sequer um sussurro, enfim eu me enganara ouvi-los, iludia-me. Abri todas as portas, janelas, coração e ela não veio, talvez fosse medo, talvez não. Agora voltava a chover; ainda bem. Assim ela não vem, posso me furtar da verdade mais uma vez. Ela não vem porque garoa é quase chuva.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Janeiro 05, 2007


 

À QUEM VAI CHEGAR

Entra! Que eu não vou sair, mais.
Mas não demore porque a porta se fecha.
Fecha como meu coração ficou.
Ficou trancado dentro do peito.
Peito este que ardia ao ouvir seu nome.
Nome seu, soava como doce melodia.
Melodia assim é que me trazia você.
Você era apenas uma lembrança.
Lembrança boa sempre me vinha.
Vinha com você nos sonhos, desejos.
Desejos eram tantos e puros.
Puros, parece ironia, e era.
Era a ironia de não estarmos juntos.
Juntos, lembra-se, éramos felizes.
Felizes os dias em que só ríamos.
Ríamos até das tristezas também.
Também não precisávamos de muito.
Muito pouco nos deixava assim
Assim com cara de adolescentes apaixonados.
Apaixonados pela inocência maliciosa.
Maliciosa você ria mordendo os lábios.
Lábios mais lindos que eu já beijei,
Beijei muito e parece ter sido tão pouco.
Pouco tempo mesmo que fossem mil anos,
Anos de eterno amor! Abri meu coração e disse: entra!
Entra! Que eu não vou sair, mais.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Dezembro 19, 2006


 

BEIRA RIO

Todo dia ela me faz sorrir. Não há pretensão em seu olhar, mas ela maliciosamente me faz feliz. Sexta-feira caminhava desatento com meus pensamentos perdidos, até meio confusos, tristes talvez, quando olho para cima e a vejo me vigiar de um modo doce. Lógico que sorria e fez com que eu abrisse um enorme também. Perdi o passo admirando seus cabelos castanhos e aquele brilho nos lábios, juro, nunca tinha visto. Até o lenço em volta da cintura, que honestamente achei desnecessário, estava lindo contornando aquela cintura perfeita aos meus modestos gostos. Desta vez parecia que seus cabelos balançaram, mas aí já era piração demais. Hoje eu voltava para casa, atravessei a passarela indo ao estacionamento. Garoava, era tarde e frio também já estava quando desta vez seu sorriso de Monalisa sentia piedade de mim. Notei que ela desejara me abraçar, livrar-me do frio e solidão que me assolavam àquela hora da noite. Senti-me assim: acariciado, aquecido. Ela é minha cúmplice, fiel e de poucas palavras, na verdade, palavra alguma. Certeza tenho que nunca me magoará, mesmo quando partir, pois é da natureza dela ir-se com o tempo, contudo dela só me ficará boas lembranças, pois jamais escondeu seus sentimentos por mim, quaisquer que fossem. Amanhã vou lhe jogar mais um olhar de amor, daqueles de filme de cinema, não posso deixar passar um segundo sem que ela saiba o quanto é importante pra mim, não posso deixar de venerá-la por todo mínimo instante que eu tiver ao seu lado, não posso, não devo e não vou, afinal não sei até quando o majestoso outdoor ficará enfeitando meu caminho.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Dezembro 04, 2006


 

AMOR, EU NÃO TE AMO

-Eu não amo você.
[Não é porque eu não lhe ame, nem porque não queira, é apenas porque eu amo demais!
Todavia, amor, saiba que eu não lhe amo porque amor já me é pouco, ainda não nasceu uma palavra que lida soa como o cântico de um anjo.
Penso que quando lhe vi já lhe amei para toda vida e mais uns dias. Mais uns dias sim, pois só toda vida seria pouco para lhe amar o tanto que me cabe.
Mas, e se não for amor? Se não for amor apenas sinto que lhe amo e isto me basta, pelo menos hoje, pois sei que me ama também, apesar de você não saber.
Amor, agora vá, pode ir embora de novo porque eu já não ligo, pois quem perde amor é você, afinal o meu é para sempre e eu ainda cínico lhe digo, lhe nego:]
-Amor, eu não te amo!

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Novembro 30, 2006


 

ATIRE UMA PEDRA NO MAR

Vai, atire uma pedra no mar. Não importa se afundar, pois antes, radiante, ela viajará rompendo o céu, sorrindo por toda sua liberdade, saltará, pulará sobre as ondas não se deixando atingir por seus traiçoeiros açoites, traçará um esguicho d'água como se fosse sua cauda brilhante, espantará as gaivotas sedentas que rirão desta traquinagem; enfim, como acontece nos amores, ela mergulhará desamparada e sozinha nas profundezas do mar.
Vai, atire uma pedra no mar. Vai, que eu atiro a minha logo atrás, assim não mais desamparada e sozinha estará; enfim juntos afundaremos para sempre lá no nosso lindo fundo do mar.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Novembro 27, 2006


 

CARAPAÇA

Muito bonita ela ainda estava, mas já não mais brilhava. Pairava em seus olhos uma negra névoa de maldade, egoísmo talvez, mas é maldade ainda assim. Vestia uma carapaça que lhe protegia dos infortúnios da sua tão bem arquitetada vida, compaixão era seu maior infortúnio, livrar-se-ia dele em breve! Rompeu em passos decididos carregando sangue nas mãos, notava que entre seus dedos escapavam-lhe outras vidas que não a sua: "ainda bem", pensou. O caminho era longo, o sangue secou, uma lágrima passou por perto, mas não veio. Seguiu forte, como era de seu desejo. Muitos eram os novos sorrisos, ainda mais belos, com os quais presenteava a todos. Estava novamente bonita, desta vez rebrilhava e muito mesmo. Tempo vai e vai e vai, até que um dia uma nuvem nefasta ziguezagueia sobre ela. Acuada, recua, prende outro coração entre as mãos, aperta-o; sangue! Caminha....

Por: André R. Melchiades Domingo, Outubro 29, 2006


 

INDEFESA E BONITINHA

Era uma vez uma águiazinha muito pequenina que vivia com a mãe, o pai e um irmãozinho. A avezinha era tão pequena que fora tratada com muito zelo desde seu nascimento, pois havia o temor dela nunca saber se defender dos predadores, de não saber caçar seu alimento, nem nada.
Moravam todos numa árvore de copa enorme, tronco maior ainda e que dava a impressão até de ser uma extensão da montanha que ficava colada nela. Alojaram-se num galho espesso que se estendia em direção às pedras. O cume da montanha ficava pouco mais de metro acima do galho onde tinham o ninho. Poucas não eram as vezes que recebiam visitas indesejáveis a lhes espreitar lá do alto.
Quando a avezinha estava aprendendo a voar vivia caindo, mal se aprumava e já vinha o irmão acudir. Tantas outras vezes vinha o pai ou a mãe evitar com que ela se machucasse. Com o tempo diziam que jamais voaria, pois era muito frágil e para completar a águiazinha também era quietinha, não entrava em discussão nem pela comida. Assim ela vivia, à sombra dos outros. Não que ela gostasse, porém não se estressaria por isto e desta fragilidade aproveitava até. Teve uma vez que tentara voar até o lago para se banhar e os pais intervieram, levando-a nas asas. Ela, com seus olhinhos azuis revirados, batia com uma asinha sob o bico e a outra na cabeça do pai, como se pensasse: "Que saco!", mas não disse nada. Lá chegando logo foi para a água, escorregou, se molhando toda e rindo sozinha batia as asinhas no espelho d'água. Subitamente o irmão vem salvar-lhe de um pseudo-afogamento, tadinha, nem brincar consigo mesma podia. Assim que chegaram ao ninho a floresta toda parecia já saber: "Viram? A águiazinha, coitada, quase se afogou". Imaginem a carinha dela!
Houve então um dia em que os pais da avezinha resolveram sair para caçarem juntos, pois fazia tempo que não conseguiam comida para os filhotes. Pensaram que em dupla talvez a caça surtisse maior efeito, mesmo porque o filhote grandinho e destemido poderia cuidar da irmã. Chamaram-no e lhe disseram:"Cuide da sua irmã que nós não demoraremos. Não se afaste do ninho sob hipótese alguma". E foram. Não sabiam todos que lá de cima da montanha a raposa também ouvira a conversa e arquitetou um plano. Passados uns minutos depois da saída dos pais, o irmão fazia sentinela, olhando pra todos os lados, afiando as garras e tudo mais. A águiazinha olhava com desdém e risos. Segundos se passam e barulhos são ouvidos do lado oposto da montanha. Entretidos pelo barulho e pela inexperiência não notaram que lá de cima a raposa de costas para a árvore, jogava para trás com suas patas dianteiras algumas pedras para lado oposto de onde estava, fazendo com que ambas as aves pensassem que algum predador estava tentando subir pelo tronco até ao ninho. O irmãozinho corajoso, arqueou as asas, caminhou para o lado frágil da árvore, ignorando inteiramente o aviso dos pais e da irmãzinha que gritava do jeito que só ela sabia fazer, com jeitinho. Mal encostou da parte fina do galho, a raposa pula lá do outro lado, numa extensão do galho. Como esta parte da árvore onde estava o irmãozinho era fraca, não foi surpresa o galho balançar com tanta força, que o atirou contra a montanha, fazendo-o rolar pelas pedras até cair no chão. A raposa calmamente volta, descendo com rapidez e cuidado em direção a sua presa inerte. Quando ela se prepara para abocanhar o indefeso no chão sente um estrondo imenso na cabeça, um eco invade seu crânio e assim que vira para trás ouve um farfalhar de asas soprando em seu focinho, umas muitas bicadas forçando-lhe as pálpebras, fazendo seus olhos arderem. Garras pontiagudas tentavam perfurar onde tocasse e conseguiam tirar muitos gritos de dor. Acuada com seus olhos lacrimejantes, entre a fera que lhe espancara e as montanhas, a raposa não pensa duas vezes: sai em disparada, toda torta, dolorida e humilhada. Carregado no colo, o corajoso irmãozinho é deixado docemente no ninho. Abre enfim os olhos, sorri e os fecha de novo, com um sentimento de vergonha e de dores pelo corpo. Logo:
-Meu Deus! O que houve com você? - pergunta a mãe-águia.
-Bom, sabe....é que...eu...quer dizer...a raposa....
-O que houve? Ela machucou você? Onde? Como?
Vendo que o irmão não conseguia explicar e estava quase em choro largo, a águiazinha diz:
-Mãe, ele ta bem! Só está cansado porque a raposa tentou invadir nosso ninho e ele me salvou a vida brigando muito com ela.
-Óhhh, meu filhote!! Sabíamos que você protegeria sua irmã. - e caíram de afagos sobre o filhote herói que sob as asas dos pais olhava docemente para a águiazinha... a águiazinha indefesa, quietinha e bonitinha....

Por: André R. Melchiades Domingo, Outubro 22, 2006


 

MAR2

Soprava o vento o início da noite. Um par de saltos altos ecoa do saguão porta afora. Um corpo esguio de mulher se põe a fitar o nada do infinito ao pé da escada. Ela, linda, suavemente é atingida por uma rajada de brisa que esvoaça seus longos cabelos negros. Estufa o peito com um sorriso tímido e uma respiração profunda saúda a noite que se apresenta. Com a mão esquerda sutilmente prende sua saia bege, não muito curta, nem muito longa, e assim desce lateralmente os três degraus da escada. Passos curtos, decididos e delicados. Ela, de olhar distante, aparenta exalar um inebriante perfume ao passar pelos transeuntes que se acotovelam no semáforo ao vê-la passar. São um, dois, três, muitos, os olhares que lhe perseguem, que vigiam seu passeio pela calçada. Mais absorta ainda, nem se apercebe quando os lábios são involuntariamente umedecidos num deslize da sua língua, e, o vento, um tanto mais forte, parece ter sido impelido a se manifestar. Ela pára. Então como por magia uma fina blusinha de linha aparece para proteger seus braços. Com gestuais lentos ela desdobra a blusa: mãos, braços; veste-a. Um nó falso a prende pela frente e uma última puxadinha deixa a roupa perfeita. Seus passos são retomados num ritmo constante e calmo. O rosto de traços docemente delineados é acariciado pelas mãos finas que tentam se desvencilhar dos fios de cabelos que cobrem sua boca delicada. Enfim ela chega. Dobra a saia para sentar-se comodamente na cadeira da varanda do bistrô e seus pensamentos voam, sabe-se lá para onde! Sua alegria é latente e sua alma se enche de esperança, mas também não se sabe o porquê. Seus devaneios a prendem no mundo que só a ela é possível entender. Se há dor, não sei, mas há sorrisos, ela esbanja esperanças! Um gole da bebida quente e escura que pediu a contrai parecendo causar uma sensação de satisfação impar. Novamente ela sorri para si mesma, o sorriso acanhado de antes com um certo ar de malícia e profundidade. É, e nasce em mim o imenso desejo de lhe dar o abraço maior do mundo e o mais forte também, mas eu não a conheço. Dos céus, agora, uma tempestade desaba. Tudo desaparece em meio a tanta água e quando subitamente a chuva pára, minha musa também some. Mesmo acabrunhando vejo que nada me resta senão fechar minha janela e dormir. Agora ao menos tenho lindos motivos para sonhar.

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Outubro 05, 2006


 

OS BRINQUEDOS

-Não saia do playground!
Ela já madura com seus seis anos de idade, nem discute com a mãe e corre para os brinquedos estranhos naquele poço de areia.
-Oi, quer brincar comigo?
-Quem é você? - Pergunta a menina.
-Eu sou o Escorregador.
-Hummm, como é que você brinca?
-Assim, você sobe nas minhas escadas, senta aqui em cima e desce escorregando até ao chão.
-Ixi, mas assim vai sujar minha roupinha. Minha mãe não deixa.
-Então brinca comigo!
-E quem é você?
-Sou o Pião. Você pode brincar comigo assim, girando....iupi!!!!!
-Pára, pára. Subiu muito pó, sou alérgica!
-Calma, brinca comigo que fico paradinho!
-Como é que se brinca aí?
-Eu sou feito para as crianças treparem em mim. Por isto me chamam de Trepa-Trepa! Você sobe por estes canos, passa por este, chega aqui em cima e escorrega se quiser.
-Afff, vou ficar cansadinha e sou meio fraquinha, acho que não agüento
-Tudo resolvido! Brinca comigo que não sujo, não faço poeira, e nem precisa de muito esforço!
-Qual seu nome? Como que posso brincar?
-Eu sou a Gangorra! Você brinca sentando aqui deste lado, pode ver que ta limpinho, outra criança senta daquele lado e vocês só dão um saltinho com as pernas que sobe e desce, várias vezes. Sem esforço quase nenhum.
-Oba! Gostei, mas tem um problema!
Os brinquedos que já estavam tristonhos perguntam todos juntos:
-Qual o problema?
-Não tem outra criança para brincar comigo.
-Chame uma amiguinha. - Disse o Escorregador rápido.
-Mas eu só tenho amigos de brincadeira no computador e eles também não conhecem vocês.
-Chame-os para brincar conosco! - Implora o Trepa-Trepa.
-Eu não sei onde eles moram.
-Não sabe onde moram seus amigos? - Espanta-se a Gangorra.
-Não sei e também eles são muito ocupados para sair de casa.
Nisto ela abre sua bolsinha da Hello Kitty , tira seu celular, ainda de brinquedo, e diz subitamente:
-Ai, to atrasada pra minha aula de Inglês. Tenho que ir. - E sai correndo.
O Escorregador que se afeiçoou muito a ela grita como que querendo fazer amizade:
-Espera! Qual seu nome?
Ela vira para ele, ainda correndo, deixando seus cabelos loirinhos cair sobre o rosto sardentinho e diz:
-Eu me chamo Suzane. Adeus!


Por: André R. Melchiades Domingo, Setembro 17, 2006


 

O ANJO MAU

-Bom dia senhor. Aqui é da recepção. Há uma moça da Companhia de Turismo querendo lhe ver.
-Hã? Bom dia..Ah ta..Já desço.
Esfrego meus olhos, dou aquela espreguiçada quase acordando minha namorada que dormia linda do lado. Quando vemos beleza até no rosto amassado, olhos sujos e cabelos bagunçados de quem divide a cama conosco, ah, isto é amor mesmo! Ela pergunta quem era, mal termino de responder e minha amada já dorme de novo. Enfim, me arrumo e desço pensando no porquê da moça estar a minha procura.
Chegando ao saguão do singelo hotel já a reconheço, mesmo de perfil: cabelos aloirados, pele alva, cílios enormes e salto alto. Era a linda moça do guichê da empresa de turismo.
-Bom dia. Estava a minha procura?
-Bom dia. Estava sim. O senhor esqueceu seu comprovante de pagamento do cartão de crédito ontem. Vim trazê-lo.
-Poxa, obrigado. Nem havia sentido falta. Agora, como me achou aqui?
-Bem, o senhor preencheu a ficha para embarque no passeio e anotou o nome do hotel onde estava hospedado. Como o hotel é pertinho resolvi eu mesma trazer.
-Não precisava se incomodar, bastava ligar e eu iria...
-Eu fiz questão de vir!
Pairou um silêncio momentâneo. Quebrado por ela:
-Espero não ter lhe causado algum problema ter vindo.
-Não, não mesmo. Fico grato...
Novo silêncio. Desta vez eu tento quebrar o gelo.
-Você aceitaria tomar um café?
-Sim, mas sua acompanhante...
-Minha namorada! Está dormindo ainda, logo ela desce e se junta a nós.
Tentei manter as coisas bem claras, mas a jovem de vinte e poucos anos e olhar penetrante não se intimidou:
-Claro. Só um café porque tenho que entrar no trabalho em trinta minutos.
-Então, você trabalha há muito tempo lá? - Já entrando no restaurante do hotel.
-Mais ou menos. E vocês estão juntos há muito tempo?
-Você é sempre direta assim?
-Só para aquilo que eu quero muito. - Fico meio sem graça, mas também curioso.
-E exatamente o que você quer agora?
-Queria lhe conhecer, posso?
-Eu tenho alguém, você não tem também? - Apontando para a aliança de compromisso em sua mão.
-A gente está com alguém até aparecer uma pessoa melhor. - Cobrindo a aliança com a mão e com uma certa raiva de si mesma por não ter lembrado da jóia.
-Nossa, eu não penso assim. Estou para querer estar pra sempre!
-E ela, pensa assim? Duvido! Ela não aparenta ser como você pensa.
-Por quê?
-Pense, querido, a gente se olhou por muitos minutos, você brincou comigo no guichê, pediu dicas do passeio e fiquei com um sorriso que não saia do rosto enquanto gaguejava pra você.. Eu passei umas quatro vezes ao seu lado e ela não me percebeu. Até ouvi suas conversas sobre onde iriam almoçar e tudo mais. Quem não cuida...
-Eu olhei sim pra você e disse a ela o quanto lhe achei bonita. Ela até concordou. Às vezes olhar para alguma pessoa bonita é pura admiração, contemplação. Acredito que ela saiba que sou assim e por isto não tenha notado eu te olhar e vice-versa.
-Ela te conhece, pode ser. Mas você a conhece? Mulher que não cuida, não ama.
-É teu juízo, não o dela.
-Talvez, mas uma mulher conhece outra. Tome meu cartão. Guarde-o contigo e quando ela externar o que os olhos difusos dela mostraram você me liga. - Ela se levanta, caminha até meu lado da mesa, me ergue para um abraço cheiroso e demorado. Um beijo no canto da boca e um sorriso de adeus.
Voltei para o quarto e dormi o sono dos justos, mas com uma dúvida na cabeça.
Meses depois:
-Alô, Priscila?
-Sim, quem fala?
-Emperor Hotel lhe diz algo?
-Emperor? Claro, é você mesmo? Eu sabia que me ligaria!
-É, eu liguei mesmo. Você estava, em parte, certa por isto liguei.
-Por que só em parte?
-Ela realmente não cuidava de mim.
-Era evidente, isto porque lhes vi uma única vez.
-Ainda tenho muito que aprender com as pessoas.
-Aprendemos todo dia. Eu tentei lhe adiantar umas aulas, você que não quiser ver. Agora, já que você está sem ela, poderia vir me ver!
-Esta é a parte que você não estava certa.
-Como assim?
-Não quero alguém como ela. Quero alguém que cuide e me respeite, para ter no mínimo o mesmo de mim. Até onde me lembro você tinha alguém, o que posso esperar de algo contigo que não a mesma atitude na sua busca de alguém melhor?
-Toda busca tem fim!
-Estou recomeçando a minha, sozinho. Um beijo!


Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Setembro 11, 2006


 

UM OUTRO ROSTO

Passa das dezenove horas quando o Doutor Edmundo sai da sua sala e diz de passagem à Brigite:
-Tem certeza que trabalharão sozinhas aqui?
-Ué, por que não? - Diz a moça com o sorriso feliz de sempre.
-Bom, nunca se sabe o que uma noite nos reserva num prédio quase deserto. - E caminha em direção aos elevadores, deixando no ar o olhar de viés, bem como uma dúvida: será que foi uma boa trabalhar de noite?
-O que ele disse? - Pergunta Regina que por pouco presenciaria o diálogo.
-Nada demais, apenas me sugeriu ter cuidado por trabalhar à noite, eu acho que foi isto, sei lá.
Elas se entreolham, paira um silêncio incômodo e assim mesmo nada mais dizem, mas sentem simultaneamente um arrepio estranho.
Para não dar margem aos pensamentos que lhe vinham, Regina volta a sua sala que fica muito próxima à de Brigite. Ajeita-se confortavelmente em sua cadeira preta almofadada, fitando através da janela ampla as poucas luzes que vinham lá do Ibirapuera.
-Onde foram parar as copas das árvores do Trianon? - Imagina ela.
A noite arrancara o verde do parque e lhe entregara o breu numa ventania que zunia entre os cedros anciãos. Vê os troncos vergarem, rangerem até, as folhas desabarem; quase ouve a dor das plantas a se findar. Numa súbita demonstração de poder da natureza, lá adiante no horizonte, um raio explode num clarão que ilumina a cidade inteira. Olhando como estava para o parque, ela vê apenas um vulto nefasto e cinzento parado com a mesma pose da estátua que da paisagem já faz parte há tempos. O piscar breve do raio lhe causa um certo mal estar, pensando no porquê daquela pessoa ficar parada em meio à ventania e respingos de garoa, somente para observar a sua janela, olhando para aquela altura toda!
Subitamente a natureza lhe prega uma peça e outro raio despenca dos céus, porém desta feita quando olha para a estátua, somente esta lhe observa, o vulto desaparecera em meio à explosão de luz. Como poderia num intervalo tão curtíssimo desaparecer por uma Avenida Paulista vazia? Vazia? Que sinistro, a Paulista entregue ao marasmo sombrio antes mesmo das vinte horas. Que noite estranha escolheu para trabalhar.
-Ah, deve ser coisa da minha cabeça. - Pensou.
-Regina, ligaram da recepção. Vou buscar nosso lanche no térreo. Já volto. - Diz Brigite rapidamente, sequer deixando a outra se oferecer em companhia, nem contar do vulto.
Agora sozinha, Regina, volta sua atenção para o computador, não quer pensar em nada diferente do que o trabalho e assim o faz. Abstraída, lá no longe ouve novamente Brigite chamar-lhe o nome e responde em tom de sarcasmo:
-Tô aqui, oh lesada! - Mas Brigite nada responde.
Ela insiste, mas nada da Brigite responder. Um rangido acutíssimo vem da porta do corredor, ecoando por dentro da sua cabeça e lhe arrepia. Como se alguém arranhasse as divisórias percebe que algo está pelo lado oposto da sua sala. Num longo suspiro racionalmente deduz que a amiga queria lhe causar medo e resolve ir à ante-sala. Caminha em passos tímidos, pesados, talvez aflitos quem sabe. Quando alcança a entrada da sala da colega já ouve o som do teclado de Brigite, se empolga, deixa o receio para trás sabendo que a outra tentara sem sucesso lhe assustar. Passa rapidamente pela porta no intuito de rir da amiga, porém pára bruscamente, afinal nada vê que não um vazio e um vão que dava para o corredor escuro, gélido daquela noite estranha. Seu corpo se enrijece, as pernas tremem e Regina estática não tem coragem de olhar para trás, não tinha coragem de voltar a sua mesa. Um trovão ensurdecedor se junta quase que instantaneamente ao grito insano da menina que sente as pernas dobrarem quando todas as luzes se apagam. A sala, um ébano. Ela se apóia na beirada da mesinha e imagina ter sua mão alisada. Desesperada puxa a mão, corre para trás se debatendo nas cadeiras, lixeira, vaso e um pavor afônico lhe entorpece! A luz volta com outro brado seu e o assustado coração da menina vem à boca, o peito bate em demasia. Nada. Não havia nada ali, apenas seu susto. Cambaleando chega a sua cadeira, senta meio torta, meio cansada. Sente que está esfriando, até demais para a hora, deve ser pelo trauma, pensou. Percebe que sua respiração já produzia vapor, fazendo com que ela busque sua blusa sob a mesa. Delicadamente se abaixa, afastando o monitor do seu computador que foi desligado. Ela vê seu rosto na imagem refletida no monitor e percebe que está com os olhos amendoados imensamente assustados. Abaixa, pega sua blusa de linha, ergue seu pescoço, olhando novamente para o monitor. Pára em desespero! Ela balbucia palavras de oração, trêmula, ela reza! Vê seu rosto assustado ser macabramente admirado por outro rosto que aparece lhe olhando na imagem refletida no monitor. Um semblante doído e amargurado apavora sua alma naquele reflexo. Ela já não grita mais, apenas viaja por cima da mesa, derrubando papéis e tudo mais. Corre, pula, salta. Suas pernas longas produzem vôos que não esperava dar sobre as cadeiras, mas assim mesmo ela cai sobre o sofá da recepção. De olhos fechados ela ouve passos se aproximando. Junta as mãos entre as pernas, como faz quando dorme, seus lábios tremem, lágrimas beijam suas faces amorenadas, enfim, se entrega, aguarda seu algoz. E ouve um grito ecoar por toda a sala:
-Regina! Regina! Regina!
Agora ela quase entende:
-Regina, acorda! Se o Doutor Edmundo volta e lhe vê dormindo, hein?
-Hã?!?! O que eu..?? Como..??
-Vai dormir em casa! - Grita Brigite, rindo, pra variar.
Regina deitada de bruços olha para os pés da amiga e aliviada diz:
-Ah, se toca! Eita, ainda não fez as unhas?
Sentindo-se aliviada e zombando da colega, afinal tudo tinha sido apenas um pesadelo, ela se levanta do sofazinho caminhando para sua sala. Senta em sua cadeira, ajeita seus longos cabelos ondulados olhando para o monitor, porém a imagem que se reflete não é apenas dela...

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Agosto 29, 2006


 

ESCORPIÃO E PLUTÃO

É o fim do mundo! Cientistas, atarefadíssimos, em Praga (só podia ser, tinha que ser Praga mesmo!) enfim descobriram a causa de tamanho desencontro dos nascidos do signo de escorpião para com os demais signos do zodíaco: eles não possuem planeta regente!!!!! Plutão era uma farsa como planeta. Ou seja, esta gente, coitada, pode ser que nem tenha signo?!?! Afinal nem tem planeta para as combinações do acaso, digo, zodíaco! E só agora me falam?? Será que o Ultraseven está salvo na Nebulosa M-78?

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Agosto 24, 2006

"Todo amor é eterno, e se acaba, não era amor"
(Nelson Rodrigues)





 

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Óia eu!!!