"Vão Divã"

"Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois, se duvidas, Vem cá, olha estas feridas, Que o amor abriu no meu peito."
(Augusto dos Anjos)
VÃO DI "Que havemos de esperar, Marília bela? Que vão passando os florescentes dias? As glórias, que vêm tarde, já vêm frias."
(Tomaz Antônio Gonzaga)

CREPÚSCULO (CONTO)

Que não seja o crepúsculo, pois ainda não despertei, jamais despertaria deste sonho. A luminosidade insiste, resiste; enfim; levanto, caminho até à porta, peito aberto; manhã renascendo. Com um lance de olhar a vejo atrás, deitada, percebo sua pele clara contrapondo-se aos lençóis azuis, que dengosa, você envolveu-se neles. Os cabelos negros agora espalhados sobre os ombros, tapeiam o penteado que se foi; uma combinação de desarranjo e sensualidade paira sobre suas madeixas. Ouço sua respiração, seus suspiros; você de voz rouca pede um afago, ainda com seus olhos claros e amendoados semicerrados. Volto, um passo ante outro passo; apreciando a aproximação da musa que enche minha visão. Toco-lhe as costas nuas; um suspiro tanto mais alto percebo, encosto meus lábios suavemente nelas e míseros pelos encarnam desejos insanos. Afago os cabelos que tanto cobiçara, protejo-a do friozinho matinal arrumando-lhe os lençóis sobre as coxas lisas e lindas que insistiam em saltar para fora. Você se recolhe um pouco, fica de ladinho, encolhe as pernas, busca se aquecer. Balbucia palavras desconhecidas. Aprecio sua voz mimada com uma certa birra desejando carinho. Chego bem perto do seu pescoço; sopro um ventinho frio que lhe arrepia, tempo suficiente para levantar os lençóis e me deitar junto, às suas costas. Pego-lhe com jeito, força e delicadeza pela cintura; trazendo-a bem pertinho; encaixamo-nos; uma concha. Você sorri, sei. Minhas mãos alisam seu ventre arrepiado, brinco nele, escorrego pele acima, ao busto que protegido pelas mãos suas, tornam o encontro de nossos dedos algo intenso. Um pulsar ainda mais forte toma conta de nossos corpos, um beijo em sua nuca é inevitável e me vem respondido num apertar nas mãos. Sinto suas pernas pressionarem as minhas num movimento contínuo. Aos poucos as forças cedem lugar ao acalento. Um gemido mudo nos leva aos sonhos, aos delírios, ao sono. Dormimos, sim.

Por: ANDRE MELCHIADES Sexta-feira, Março 28, 2003 Comentários:


ENCONTRO

Um mês lindo de conversas via e-mail. Um encontro casual num site nos aproximou, eu de São Paulo, ela de Sorocaba. Chegava o dia de ir a sua cidade vê-la enfim.
- Após o segundo pedágio lá estarei com meu carro branco - disse ela ao telefone que finalmente eu lhe dera o número.
Na Castello Branco; ansiedade e temor: o que dizer, olhos nos olhos? A estrada abençoada por um final de tarde avermelhada me conduziu por uma hora e nada do segundo pedágio. Uma placa à direita me desvia da rodovia. O céu desaba; cai um mundo de chuva sobre minha cabeça. Perdido numa estada vicinal, mal via por onde andava, o limpador nem vencia a água que caia, e, como caía! Tantos buracos me fizeram querer voltar, mas por onde? Já se passaram duas horas e tanto, cadê a cidade? Uma luz minguada aparece lá distante: um bar, simples e humilde bar!
- Onde estou? - pergunto sem vergonha alguma ao primeiro sorriso que me veio. A resposta me vem junto com o toque do celular:
- Onde você está? - aflita ela pergunta.
- Acabaram de me dizer que estou perto, vem me buscar?- Imploro quase.
Tensão. Passam dez minutos. Vinte. Trinta e nada dela vir. Será que me viu de longe e fugiu?
- Está esperando alguém? - Um anjo de traços repuxados me fita.
- Não. - Ela empalidece, mas eu continuo:
- Não, eu acabei de encontrar.
Um abraço tímido sela o romance que nascera num e-mail de uma noite de natal; é o acaso dos deuses.

Por: ANDRE MELCHIADES Quinta-feira, Março 27, 2003 Comentários:


ESTRANHO

Estranho. Receio de abrir os olhos para as verdades que o coração rejeitaria tê-las. Estranho. Que venha o que não tenha; na loucura o que me deu à toa, de fuga a exasperar seu fim, seu medo.
Estranho. Angustia o gosto acre respingado de um lacrimar ardido e insolente; vil. Estranho. Continuamente a perecer sem saber que já o era antes mesmo, insensato que fosse, cruel ainda seria.
Estranho. Não exponha; enclausure, mantenha rígidas as estruturas instáveis; redundante e antagônico eu sei.
Estranho. Que não pode ser dessemelhante quanto as suas expectativas; que o infortúnio há de chegar, alcançar; mas não haverá de ficar, crê?
Estranho. Estranho não conhecer o quão inteligível é falar consigo mesmo e esperar resposta; sempre vem, sempre, de uma forma ou de outra; sei que sim, tenho que certeza que acho isto. Refluxo!

Por: ANDRE MELCHIADES Quarta-feira, Março 26, 2003 Comentários:


HÁ FALTA

Vejo que lhe olho mais.
Mais olho que lhe vejo.
'Lhe' vejo ainda mais.
Olho e não lhe vejo mais.
Sinto mais você em sua falta,
Na falta que mais você me faz.
Falta mais você sem sua falta
Ah, que falta você me faz.

Por: ANDRE MELCHIADES Segunda-feira, Março 24, 2003 Comentários:


LU

Olhos a serenar por ti
Que tu hoje não vens
Que não me verás aqui
Não endeusarás quem tens

Suspiros fartos despejo
Pelo vindouro amanhã
Pelas noites em desejo
Teu colo, refúgio de afã

Trovas saudar-te-iam
Lindas como fossem
Poucas ainda seriam

Pétalas remontam o chão
Emanam lavanda seu odor
Instigam ainda mais amor

Por: ANDRE MELCHIADES Sexta-feira, Março 14, 2003 Comentários:


NOSSA SENHORA PREFEITA

Não me venha falar de verdades, pois contigo não as vejo mais; ainda assim ouse, tente, sacrifique seu ego e me fale de seus medos se for capaz, diga-me quantas dores suporta seu coração, quantos nãos suporta seu orgulho, rasteje atrás de si mesma. Sua maior compaixão deveria ser reflexiva, deveria sim chorar mares por seus pecados, dignificar à vida por suportar-lhe, mas tudo bem, você ainda pode tentar subjugar aos seus, agora lembre-se, nem tudo é terno, muito menos eterno para que desdenhemos assim como quer; faça-o e chore mais tarde, só não sei quem enxugará suas lágrimas.

Por: ANDRE MELCHIADES Quarta-feira, Março 12, 2003 Comentários:


À NAMORADA

Saudades; cada minuto sem você é um desperdício de vida; cada segundo com você é um renascer de esperanças. Hoje, por sua existência, fizeste sentir-me vivo, capaz de revirar o mundo para lhe encontrar, forte o bastante para lhe esperar, humilde o suficiente para aprender a lhe amar; incondicionalmente. 'Num segundo apenas que sua companhia me trouxe alegria, devo-lhe uma eternidade de felicidades; obrigado pelos maravilhosos primeiros dias do resto de nossas vidas juntos.

Por: ANDRE MELCHIADES Segunda-feira, Março 10, 2003 Comentários:


ELA VIRÁ?

Sonho com você, meu bem; sonho por você também.
Espero por você agora; o ponteiro lento demora.
Busco você onde estiver; tudo faço se quiser.
Encontro você naquela estação; que sozinho fico mais não.
Anjo, bom dia, minha luz; que à noite seja eu a sua cruz.

Por: ANDRE MELCHIADES Sexta-feira, Março 07, 2003 Comentários:


TARDE DEMAIS

Venhas me falar, destino, caminheis ao meu lado, sei que choras muito és verdade; choras porque ainda remontas tuas esperanças d´outrora, choras porque o choro é compaixão absoluta, choras porque tu te acostumastes ao escorrido úmido das lágrimas, choras porque teu sorriso já te dói n´alma, choras porque o pesar absorto reina em ti, choras, enfim, o pranto meu, a lápide funesta do amor alvoroçado, que sequer esta vida brotou, mas jaze aqui perene e eterno.

Por: ANDRE MELCHIADES Quinta-feira, Março 06, 2003 Comentários:



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Óia eu!!!