"Vão Divã"

"Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois, se duvidas, Vem cá, olha estas feridas, Que o amor abriu no meu peito."
(Augusto dos Anjos)
VÃO DI "Que havemos de esperar, Marília bela? Que vão passando os florescentes dias? As glórias, que vêm tarde, já vêm frias."
(Tomaz Antônio Gonzaga)

ÁRVORE

Uma fortíssima rajada de vento estremece a imensa árvore que peleja ainda para sobreviver após suas dezenas de anos a servir de sombra, de berço, de frutos, de esconderijo, de beleza, mas parece que seu reinado está de fato chegando ao seu derradeiro suspiro. Lá no alto, bem no ponto mais distante, uma flor ressequida vê-se num dilema: pula ou jazerá também. De coração apertado, reunindo o pouco de vitalidade que ainda lhe resta, ela salta em desespero pouco antes da árvore despencar rumo ao precipício que sempre fora encoberto por ela, logo, já havia salvado a vida de muitos. Enquanto a árvore estatelava-se lá abaixo, a flor ia planando no ar até acomodar-se no vão deixado pelas raízes arrancadas pela ventania. Uma tristeza assolava flor que agora órfã não sabia mais o que fazer; seu mundo era aquela mãe, aquela árvore e agora seu mundo é um buraco. Imersa em extrema agonia a flor chora, um pranto interminável e doído. Suas lágrimas vão se avolumando e a flor sente seu caule um tanto úmido, parece até estar crescendo. Pouco depois o amigo sol vem consolá-la, seca-lhe as lágrimas e a encoraja a ter fé. Fé? Num fosso cheio de terra úmida? Como? O rei sol então diz que o tempo é o senhor da razão. Ela adormece logo após que o sol se vai, sonha com sua mãe frondosa ainda e seu coração se enche de esperanças e seu sono passa a ser tranqüilo. Os primeiros raios de sol a acorda e nota que está mais colorida, que suas folhas estão mais verdes, que seu caule, agora mais forte, criou raízes, ela então chora e muito mais, pois soube então que dali há dias seria ela a linda mãe de outras flores seria ela a árvore que cobriria o imenso vale.

Por: ANDRE MELCHIADES Quinta-feira, Agosto 28, 2003 Comentários:


ORACÃO PARA SE SABER AMAR

Senhor, que me trouxe a ela, permita que Seus pensamentos justos sejam os meus ao lado dela, que ela, Senhor, aceite minhas falhas com a bondade que Vós a tem e ainda me oriente no caminho correto.
Senhor, que meus instintos de posse sejam cada vez menos intrínsecos a mim, que eu a veja bela mesmo quando eu estiver cego.
Senhor, que ela me veja em seus sonhos como a certeza de um passo seguro, que eu seja mais prudente e paciente.
Senhor, que me deste a esperança da vida, faça com que as nossas vidas, individualmente, sejam repletas de satisfação e felicidade para que possamos nos unir em harmonia e regozijarmos da ventura de sermos um só.
Amén.

Por: ANDRE MELCHIADES Quarta-feira, Agosto 27, 2003 Comentários:


P.M.D.

Escureceu. Sol se despediu sem ao menos me consultar. Foi-se enfim, d'onde nunca devia ter saído, insensato, por que andastes assim formoso a desfilar seu brilho? Cruel tentação, olhar-te bem aos olhos, cega-me! Vai-te fio d'algo que amaparava minhas esperanças, vai-te e se aquiete por lá.
Por: ANDRE MELCHIADES Terça-feira, Agosto 26, 2003 Comentários:


HOJE PELA MANHÃ

Novamente nesta noite não dormi nada, nada mesmo! Acontece que por conta disto eu acabei infernizando a vida do pedreiro que está reformando a garagem. Como ele faz todo dia, entra no quintal, pega as chaves, aciona o alarme que destrava as portas e desce um pouco com o meu carro. Feito isto, ele aciona o alarme novamente e trava as portas. Até aí tudo bem, mas eu que não tinha nada o que fazer às 06:00 horas da manhã e de posse de uma cópia do alarme aciono-o novamente, abrindo as portas, então:
- Êta, acho que abriu. - e aciona de novo.
Eu espero uns segundos e destravo. Ele olha esquisito e eu espiando da janela:
- Deve está com mau contato - apertando com força o controle remoto.
Espero mais um tempo e 'click'. O pedreiro se irrita e insiste em acionar insistentemente à medida que eu desaciono. Ao final de uns seis 'liga-e-desliga', ele grita:
- Cacete! - nisto eu me ofendo pelo meu carro e faço as luzes piscarem e ele esbraveja:
- Que caralho de carro! - Isto foi demais, disparo o alarme sonoro com luzes as intermitentes.
Quando ele já desesperado apertava qualquer botão, calmamente desligo tudo. Ele olha desconfiado, larga as chaves perto do balaústre do jardim e vai pegar uma escada. Só por sacanagem dou uma piscadinha nos faróis, ele então pára e aos poucos segue. Pega a escada, coloca ao lado das telhas, junta umas ferramentas e sob um degrau, dois, três e então eu disparo o alarme. Ele desce puto da vida e antes de chegar ao chão, desligo a sirene. Desta vez ele espera uns dez minutos, só olhando para o carro, resmungando e ajeitando umas coisas. Após este tempo, ele sobe calmamente a escada, enfim alcança o telhado e quando põe a segunda perna lá em cima; o alarme é disparado. O infeliz grita, xinga e desce para obviamente desligar a bateria do carro, bom, aí eu 'acordo' e vou ver o que está acontecendo.

Por: ANDRE MELCHIADES Terça-feira, Agosto 26, 2003 Comentários:


TEM SEMPRE O DEPOIS

Caía uma densa tempestade e sequer podia ver meu rosto refletido na janela, tamanha era a braveza das gotas que repicavam ali. Cada trovão espocava dentro do meu peito também e o medo era passagem certa para meu refúgio. Não havia vozes, havia gemidos dos meus fantasmas, cada um grunhia da sua insensatez até se materializar em proféticas manifestações que a natureza trazia consigo. Nada podia trazer-me à luz, apenas a lembrança dela, a luz. Senti-me feliz, pois trazia dentro de mim a imagem do sol enxugando o orvalho, das nuvens dizendo adeus ao sereno, é, eu trazia em mim a felicidade de achar a tempestade linda, trazia à memória o amanhecer de um sonho antigo, um desejo são. Via, agora, meu reflexo no vidro da janela, ainda escorria as águas por ele e desta vez só chovia por fora.

Por: ANDRE MELCHIADES Sexta-feira, Agosto 22, 2003 Comentários:


SEM DEPOIS

Faz agora tempo de escuridão, olhos que marejam sentem, temem a sua imensa e torpe visão: Algoz dos seus dias mais intrínsecos. Vem de força que não as tem, caminha em lamaçal que prende seus passos, instinto forçam o passado a sua mente e o percurso d´antes sereno, de súbito se transforma em espinhoso cânion. Não se sabe, sequer pensasse se o quisera assim, contudo presencia em sua alma o pavor que vendera aos meses de introspecção; o silêncio, que vem donde não devia, sepulta os lúgubres suspiros.

Por: ANDRE MELCHIADES Quarta-feira, Agosto 20, 2003 Comentários:


O PAGODE ESTÁ MORRENDO

Não sei ao certo, mas acredito que vem um aviso dos céus: O pagode está acabando. Quase não se vê na TV aberta aqueles infindados grupos de "samba" repetirem seus ricos suingues e rimas. Notem que há poucas semanas um integrante de um grupo de pagode infelizmente foi assassinado; crueldade da vida moderna. Os sinais divinos aumentaram e de ontem para hoje dois ícones da dita música foram internados, Zeca Pagodinho e Jorge Aragão, passam bem e temporariamente, ainda, não estão podendo cantar. Será mesmo um sinal divino? Seja feita a Sua vontade.

Por: ANDRE MELCHIADES Segunda-feira, Agosto 18, 2003 Comentários:


MACUMBA À PRESTAÇÃO

O que nos traz a recessão. Hoje ao passar de fronte a uma casa de materiais religiosos vi uma faixa afixada que em letras generosas estampava:"PAGUE TUDO EM 3 VEZES NO CARTÃO". É, eu nunca pensei que haveria de presenciar o dia em que as mandingas fossem feitas a prazo. Manda-se fazer um 'despacho' na encruzilhada em três pagamentos sem juros, mas será que o fadado intuito virá a prazo também?
Estava me lembrando que existem motéis que aceitam o pseudo-amigo cartão de crédito e fiquei imaginando: o fulano sai com a secretária, a esposa descobre, coloca os filhos contra o pai, o chefe fica sabendo que ele foi ao motel na hora do expediente e o despede e então, quarenta dias depois chega a fatura. Pior, o infeliz ainda havia parcelado aquela suíte de seiscentos reais em três longos meses, finaliza com a amarga feição da secretária frígida em sua memória, que bela lembrança, não?
Teve algo um tanto engraçado que vi n¿outro dia. Um hotel, daqueles bem singelos, escancarava uma placa: "ACEITAMOS VALE REFEIÇÃO". Alguns diriam: "Tudo bem, não é o vale refeição utilizado para comer?".
Minha indignação econômica culminou agora a noite quando fui a uma papelaria perguntar qual o preço para se fazer cópias de um material:
- Dez centavos.
- E se forem quatro cópias de um livro de quinhentas páginas?
- Bom, aí seriam quinze centavos.
- Por que? São mais cópias, deveria ser mais barato!
- Pelo contrário!!!! É que dá muito trabalho abrir a tampa da máquina para virar a página do livro!
Decididamente eu não entendo, enquanto alguns vendem sexo e "vudu" a perder de vista, outros perdem de vista o trabalho.

Por: ANDRE MELCHIADES Sexta-feira, Agosto 15, 2003 Comentários:


SÓ POR AQUELA NOITE

Envolto em suas palavras, cândidas como assim sonhara, não viera. Vieste mesmo vestida de negro cetim, tal assolante verdugo fizera rude a sutil carência que a alma impunha; não, não lhe rogam as aprazíveis resignações, quando lhe inferem o amor, auferem sua razão também e ainda mais amor. De vozes que acalentam de muitos há sempre me vem, urros que me trazem ao chão pouco tenho lembrado.

Por: ANDRE MELCHIADES Quarta-feira, Agosto 13, 2003 Comentários:


DIA DE CHUVA

" Hoje tem uma chuva fina caindo por aqui; uma chuva fria, que enche os olhos dela ao espiar por entre as frestas da persiana tão impessoal.

Tomou-a de assalto uma estranha felicidade; felicidade sem necessidade de sorrisos, sem manifestações de alegria. Não, os sorrisos não cabem neste tipo de felicidade. Se ficasse ali, acabaria chamando a atenção dos demais; talvez devesse andar por entre as pessoas à sua volta, para quem sabe, se sentir mais próxima delas, mais parecida com elas. Porém, há dias em que não há como sentir proximidade: não há mesclas quando há sentimentos tão heterogêneos entre o mundo dos outros, e o que se sente correr nas veias, alimentando o corpo e o coração de idéias e sonhos há muito desgarrados. Melhor não tentar se sentir igual; sempre que o assunto é esse, o fracasso já é quase certo. Ao menos vem sendo desde o momento de tal constatação: conhecia algo a menos. Ou a mais. Via beleza demais nas coisas, uma beleza tão densa que quase sempre a acabava ferindo quando a assolava assim arrebatadoramente. Nas coisas mais simples. Como agora, hipnotizada, escorrendo os olhos pela chuva que olha pra ela da vidraça. Contrariamente à maioria, dias ensolarados não traziam a mesma alegria. Lhe pareciam sim, uma violência, pois traziam consigo o estigma de que dias bonitos são os ensolarados dias azuis. Traziam também, por isso, uma obrigatoriedade atroz e inconsciente de assim os acha-los: belos.

Talvez fosse diferente mesmo. Porque enxergava a beleza e o apelo que emanava o dia prateado e cheio de sombras.

Talvez fosse exatamente igual a todos os outros, porém a única a olhar pela janela."

Lucimara S.Hayoama

Por: ANDRE MELCHIADES Sexta-feira, Agosto 08, 2003 Comentários:


DE TARDE

Não hoje o agora, que o dia está longo e negro. Não mais que ontem, que estive sozinho em carinhos da minha alma para comigo. Não como o futuro, que é incerto e temeroso: Que seja da minha esperança o desejo em meus sonhos que são atemporais, que vertem por caminhos sem dor e sem ser sem.

Por: ANDRE MELCHIADES Quarta-feira, Agosto 06, 2003 Comentários:


PRENDAM-ME! SOU FUNCIONÁRIO PÚBLICO

Hoje me senti um bandido ao ouvir declarações no rádio de pseudo-jornalistas e ouvintes já influenciados pela mídia. Os comentários eram a respeito da bem aventurança de ser funcionário público; um meio desonesto e outro meio incompetente de ter uma pofissão na vida. Não sou hipócrita de dizer que não há servidor público vagabundo, como também não posso garantir que todos metalúrgicos trabalham... ouvi dizer que tem um que não trabalha desde o início da década de oitenta; que só faz passear e ir à passeatas, reuniões e "assemelhados".
Não farei discurso como alguns governantes de "botox" que detonam o serviço público criando cargos de livre provimento, fazendo com que interesses estranhos se sobreponham à perpetuação de seus governados, só direi que mesmo não tendo FGTS, plano de cargos e salários, aumento (aumento! e não reposição parcial de perdas, que é como se referem a nosso 1% de "ajuste" salarial) a mais de 10 anos; honro meu salário, pois trabalho e gozo dos benefícios, mínimos, mas que a Lei (que resiste ainda) ampara e a moral também resguarda.


Por: ANDRE MELCHIADES Terça-feira, Agosto 05, 2003 Comentários:


SONHEI

Tem dias que vem a mim sua boca, seu doce suspiro:
Vem de longe, de onde nem sei, mas vem quente e só sabe quem sente.
Vem a mim, que nem sempre estou aqui em mim, mas vir, vem; que eu sei.
O quão cálido o sinto, saberia nunca dizer; fogo é fato, não me permite esquecer.
Arrepia-me a alma, não pude conter, minha alma é rude e assim finge sofrer.
A sofrer da solidão em choro que um minuto se faz de imorredouro.
Que o sono, também distante, me possua, torne menos cruel esta interminável ausência sua.
Amanhã, é a noite que o dia demorará a trazer; amanhã só é noite, para que entristecer?

Por: ANDRE MELCHIADES Sexta-feira, Agosto 01, 2003 Comentários:



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Óia eu!!!