"Vão Divã"

"Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois, se duvidas, Vem cá, olha estas feridas, Que o amor abriu no meu peito."
(Augusto dos Anjos)
VÃO DI "Que havemos de esperar, Marília bela? Que vão passando os florescentes dias? As glórias, que vêm tarde, já vêm frias."
(Tomaz Antônio Gonzaga)

REGRESSO ANUNCIADO (CONTO)

Sei, que caminhas sem rumo, num vão passear em busca de mim que não estarei lá. Que não estarei nunca onde você deixou porque como lá fiquei e voltei tantas vezes, acabou que me cansei. Cansa esperar. Cansa sonhar com aquela que nos fez sonhar, cansa pecar em pensamentos com quem nos fez pecar, cansa se cansar.
Sei, que voltarás de sorriso amuado, coração desalojado; malogrado é o tempo, tantas vezes esquecemos dele e nos perdemos em desacertos e conquistas mundanas; pois é; agora o tempo é seu rival e aliado, chore com e por ele, vista-se de paciência; de fato não existem glórias nas derrotas, mas muito mais se aprende do que com vitórias. Não se faz dor sem tê-la de volta, um dia, malogrado é o tempo? Ou nós?
Por: ANDRE MELCHIADES Quinta-feira, Novembro 27, 2003 Comentários:


MUNDO É PEQUENO

Um dia, eu com 13 anos e já jogava futebol com adultos, estava esperando o goleiro buscar a bola quando passam três meninas muito bonitas (Nádia, Rose e não lembro da última porque nem era bonita). Um fulano que estava ao meu lado e bem mais velho, com quase 20 anos(!), grita:"E aí gostosa! Tem jeito?". Fiquei até sem graça e elas nada disseram. Então, o fulano (que não citarei quem é, pois ele pode estar lendo) começa a se vangloriar dizendo que mulher gosta d ser tratada assim mesmo, ser chamada de gostosa, de ser tratada com desdém, pois odeiam caras bonzinhos e que corram atrás. Fiquei macambúzio, afinal não era assim que eu no auge da minha criancice via as coisas. Passados alguns dias vi o fulano no meio destas três meninas e riam muito, com muita, muita intimidade. Conversando com ele posteriormente disse-me que as meninas eram super dadas e ele apenas dava o que elas pediam. Que inveja!
Cheguei à conclusão de que ele estava certo, que mulher adora ser maltratada, mas que eu dificilmente saberia fazer o mesmo. Poucas vezes ainda os vi, pois como descobri depois, elas não moravam no bairro, apenas visitavam parentes, mas acontecia de vê-los ainda uma ou outra vez por ali andando e sempre felizes, abraçados.
Cinco anos se passaram e por um acaso fui fazer um curso num bairro afastado e uma moreninha de cabelos lisos veio me recepcionar. Após alguma conversa descobrimos que ela tinha parentes morando no meu bairro, mundo pequeno. Tempos depois numa festa em que ela me levou quem estava lá? Era aniversário de quem? Pois é, do fulano!!! Descobri que o fulano era primo das três meninas e que nunca, jamais em toda vida havia dado um beijo em alguma delas. Pior, viemos a trabalhar junto por dois anos, eu e ele, num banco e nunca contei a ninguém que ele pagava de Don Juan com as primas!
É, tem coisa que a gente nunca esquece...
Por: ANDRE MELCHIADES Terça-feira, Novembro 25, 2003 Comentários:


COISAS "LEGAIS" EM CARROS

Domingo voltava para casa pela Marginal Pinheiros quando vi um carro que me chamou a atenção. Tratava-se de um Peugeot 206, com rodas de liga leve, insul-film, escapamento de competição e com uma frase escrita em garrafais letras brancas no vidro traseiro dizendo mais ou menos assim: "Eu sei que você ta sem calcinha, então dá uma risadinha". Olha, fazia tempo que eu via algo tão belo num carro e que ainda me fez lembrar de outras coisas tão belas que já vi nos automóveis.
- Lembro-me daquele adesivo imponente que se usava no vidro dianteiro, acima do retrovisor, para não atrapalhar a visão do motorista (como são espertos!!) com a inscrição: "Jet Pilot".
- Tão bom era o "Piloto de Fuga" que ocupava o vidro traseiro.
- No mesmo vidro por algumas vezes havia aquele "ATECUBANOS", que lendo de trás para frente é uma pérola.
- Eu não gosto de adesivos e por infelicidade certa vez uma senhora me deu um. Era minha vizinha e só perguntava quando eu iria por. Até que certa noite, sabendo que ela estaria numa festa, coloquei o adesivo sobre o retrovisor dianteiro, na esperança de pouca gente ver e então mostraria a ela. Dito e feito. Apenas teve um detalhe. Naquela noite um "amigo" pediu emprestado meu carro para ir comprar cigarro (por que as pessoas fumam?) e eu o emprestei, no dia seguinte fui ver meu carro arrebentado num muro e só sobrou o vidro da frente com o adesivo estampando: "Dias melhores virão". Odeio adesivos.
- Bom, quanto às coisas estranhas nos carros ainda lembro dos escorpiões ou siris iluminados que ficavam sobre a alavanca de câmbio, olha, quem nunca viu pergunte, era a coisa mais estranha que poderia ter, você dirigindo e toda vez que fosse trocar de marcha pegava num escorpião acesso.
- Tem outra que o MAL sempre falava que era quando a máquina que sobe o vidro da porta do motorista quebrava e o infeliz prendia-o com uma chave de fenda para não cair.
- Mais uma legal. Pegar um pincel, tinta branca e pintar a marca (Pirelli, Firestone, Goodyear, etc) na lateral dos pneus para que quando o carro estive parado desse a impressão de ter pneus personalizados.
- Tem mais, quando os carros ficavam velhos e furavam o assoalho de tão enferrujado, colocavam jornal, aí chovia, as ruas ficavam molhadas, o jornal encharcava e inundava o carro dentro.
- Hoje é mais cruel o negócio. Tenho um vizinho que tem um carro, Uno, que custa no mercado R$5mil e colocou R$2,5mil de som. Até aí tudo bem, o pior é quando você anda dentro do carro e o som tá ligado. O painel então treme muitíssimo, lembrança de uma batida de frente porque ele não ouviu um outro carro buzinar pedindo passagem.
E tem muitas outras coisas, mas cansa ler, né?
Por: ANDRE MELCHIADES Quinta-feira, Novembro 20, 2003 Comentários:


NÃO DURMA NA CASA DE ESTRANHOS, NEM FIQUE ACORDADA (Conto)

Escuro. As portas trancadas passavam uma mentirosa sensação de bem estar...estar, estar só. Ela estava ali, de roupas poucas é verdade, afinal quisera dormir, mas os tormentos impostos pela casa velha e vazia a impediam. Acordara aos sôfregos, pois ouvira um som nefasto, um misterioso ruído que vinha do corredor, era sim um ranger áspero, daqueles de doer os ouvidos de tão constantes e irritantes. Sabia que estava sozinha na casa e tratou de se esconder sob o edredom, puxando-o com ambas as mãos, o método mais seguro de se espantar os medos, mas o barulho não se espantou, um tanto que irritado ele juntou a outras tantas manifestações que estariam por vir. Parece que algo, uma corrente, uma barra de ferro que fosse, raspava os tacos do chão. Tremia muitíssimo agora, o pavor estava se alojando dentro do seu peito que disparava suas batidas incontáveis aquela hora. De repente algo como um burburinho penetra pelas gretas da porta, ela treme muito mais e força seu olhar para fora do edredom e vê que o cabideiro se transforma em gente, ela cria os fantasmas em sua mente, seus olhos a enganam o suficiente para ela sair do seu esconderijo. Sente um friozinho soprar-lhes os pés, sim, ela deixara os pés de fora e trêmula puxa rapidamente a cobri-los. Nota que chovia e muito, ventava deveras. Sua angústia toma conta. O sopro vinha pela fresta da janela e balançava bruscamente a cortina translúcida que se incendiava aos olhos quando os raios estouravam no céu negro da noite, agora fria, muito fria. O cantar dos ventos era tenebroso, um cântico sinistro, longo. Ela, batendo o queixo, olha pelo seu discreto decote e flagra que os delicados pelos que cobrem seu busto põem-se eriçados e tal sensação passa aos braços, subitamente o corpo todo se arrepia quando após estrondo mais forte as vidraças se despedaçam, deixando o vento despentear-lhe os cabelos e molhar-lhe o rosto com a chuva que invadira seu quarto. Envolta em seu edredom, ela descalça, corre em direção à porta, sem ao menos lembrar que seu medo maior poderia vir de trás da porta. A maçaneta insiste em não virar, seu choro era seu grito e bate, esmurra o trinco que não se altera. Cansada ela coloca a cabeça na porta, chorando, e sobre o seu ombro direito ela vê um vulto vindo devagar por trás. Quase sem ter certeza, nota que o vulto de chapéu de aba e manto pretos, estende a mão na direção do seu pescoço e num último gesto ela vira a maçaneta que distraída, ao que parece, se permite destravar. Deixa o edredom cair e sai em desespero corredor à dentro, sem sequer sonhar em olhar para trás. De pés molhados e descalços não consegue fazer a curva ao final do corredor e desliza pelo taco daquela casa antiga, batendo a cabeça com violência na parede. Atordoada pelo tombo e com o rosto sangrando ao chão, ela olha temendo a visão que se oferece: um par de botas enlamaçadas está quase a lhe pisar a face. Ofegante, trêmula e desesperada, começa a levantar a cabeça, subindo temerosamente o destino dos seus olhos. A presença de respingos vermelhos despencando, explodindo nas botas sujas a faz olhar rapidamente nos olhos dele e finalmente pelo assobradado se ouve um grito feminino e finito.
Por: ANDRE MELCHIADES Segunda-feira, Novembro 17, 2003 Comentários:


DESISITI

Estou desistindo. Acho que penso demais e hoje acabo de desistir de pensar. Com toda certeza muitas vezes vivo num mundo de fantasias e notadamente me confundo, há um choque entre meus dois mundos: o que vivo e o que eu acho que vivo. Sempre vivi só e tive que dar satisfaçao apenas a mim mesmo e isto ajudou muito a manter-me alienado ao que as pessoas pensam. Eu já disse, quisera ser super-herói e estou longe disto, seria o super-qualquer-coisa mais assaltado do mundo. Quero parar de pensar, não mais vou dar brechas para meus pensamentos sobre as pessoas e o que esperar delas, tampouco o que possam esperar de mim. Quero aceitar meus defeitos, permita-me aceitá-los. Da minha parte, mundo, continuarei a lhe compreender, aprendendo contigo e não lhe compreendendo muitas vezes também, mas sempre ao seu lado e acreditando, mesmo quando difícil seja.
Eu desisti de sofrer, extirpei as dificuldades de pensar só e agora, ainda que este agora demore um pouco mais que a minha vontade, não penso, falo para o mundo....só espero que o mundo seja complacente comigo, tem sido difícil..sozinho.
Por: ANDRE MELCHIADES Sexta-feira, Novembro 14, 2003 Comentários:


QUISERA EU SER DE MIM

Quisera eu ser mim, mas não sou. Eu sou das noites que me devoram e tantas outras dela que me devora nas noites. Estampei-nos aqui várias vezes em incontáveis palavras que me parecem ainda míseras diante do sorriso que vejo toda manhã quando me deseja bom dia, melhor, nas manhãs que se confundem com a tarde, as manhãs que têm birra porque amanhã você sempre vai, mas no depois do amanhã volta você, e pena, o amanhã de lhe ver está pra muitos amanhãs ainda que hei de consumi-los...pra depois nos consumirmos de afagos e beijos.
Por: ANDRE MELCHIADES Terça-feira, Novembro 11, 2003 Comentários:


ASSIM SE FOI

Vejo de anos para cá políticos retratarem a seca do nordeste como uma descoberta, a razão dos infortúnios daquele povo e por conseqüência de todos nós, pois somos todos brasileiros.
Esta semana me peguei revendo O Quinze, lembrando Rachel de Queiroz, que setenta anos atrás já falava no romance sobre a seca, sobre o levado de retirantes. Curioso como a gente esta se perdendo, como estamos perdendo identidade. O destino nos leva retratistas brasileiros respeitados mundo afora, como Jorge Amado, Paulo Mendes Campos, João Cabral de Melo Neto, Rachel de Queiroz e caminhamos lentamente numa renovação. Não vejo expoentes que me tragam certas e contundentes expressões do Brasil hoje, com certeza até existe, porém o "boom" de livros de auto-ajuda, os "faça você mesmo", "mil maneiras de enlouquecer alguém por algum motivo"; tem nos empobrecido. Que ainda nos agarremos à memória e nos enriqueçamos com alguns outros como João Ubaldo Ribeiro, Luiz Fernando Veríssimo, Fernando Sabino....
Por: ANDRE MELCHIADES Quarta-feira, Novembro 05, 2003 Comentários:


MEUS FANTASMAS

Acredito que muitos têm seus fantasmas pessoais. Também sei que a dor causada por eles é maior para cada um, pois é cada um que sente sua dor. Algumas pessoas não sabem lidar com falta de dinheiro, com desavenças, com insatisfação profissional e, eu, confesso não sei lidar com meus fantasmas pessoais; eu não me encontro na objetividade! As minhas conversas com Deus estão cada vez mais raras, acho que Ele desistiu de mim. Não digo que Ele me jogou à própria sorte; apenas imagina que ninguém morre por não entendê-Lo plenamente ou ainda pode ter se cansado de enviar mensagens subliminares que eu não as vejo.
Conheço pessoas que usam seu passado como uma enciclopédia; às vezes precisam de uma resposta para o hoje e a buscam no seu sucesso ou fracasso pretéritos. Ainda não tenho esta grandeza, toda vez que tento buscar ajuda no passado ele se aloja e pede morada. É neste ponto que viram fantasmas e pouco sei sobre eles, pois sempre era eu o domador domado. Houve momentos em que abdiquei de tudo e de todos para não confrontá-los, e como é fácil fugir, como é fácil ser só. Agora a briga é feia porque eu me cansei, cansei de brigar comigo e a cada dia deixo menos espaço para os meus fantasmas porque sei que meu mundo é só meu, dele fazem parte quem eu quero, pelo tempo que eu quero! Ainda não exerço pleno domínio dos meus fantasmas, claro, e precisem quantas vidas precisar (se existir reencarnação mesmo!) chegará o tempo em que serei referência de caça-fantasmas!
Por: ANDRE MELCHIADES Quarta-feira, Novembro 05, 2003 Comentários:



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Óia eu!!!