"Vão Divã"

"Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois, se duvidas, Vem cá, olha estas feridas, Que o amor abriu no meu peito."
(Augusto dos Anjos)
VÃO DI "Que havemos de esperar, Marília bela? Que vão passando os florescentes dias? As glórias, que vêm tarde, já vêm frias."
(Tomaz Antônio Gonzaga)

UM ANO, UMA VIDA

Escreveria histórias de mundos sem fim e pouco seria para expressar o quanto um ano se encheu de terno e eterno, pois se vivi este ano, vivi bem: vivi em tons fortes, em pseudo-estorvos, em novos amores derradeiros quiçá! Não mais quero um ano como este, quero apenas, como se apenas fosse pouco, perpetuar os (nossos) deleites. Ainda sei que se em algum momento charcoso seja o trilhar de nossas vidas e difícil for o caminhar, estarei apegado ao que mais me faz forte - amor- para sempre lhe amparar.

Inevitável não mencionar o que nos uniu e une, gosto de lembrar e após um ano releio mandando meu primeiro beijo novamente:


MARÍLIA DE DIRCEU (VERSÃO LIVRE)

Vestes longas e pesadas seguravam seus passos indecisos. Seu rosto amorenado pelo sol deixava cair gotas infindáveis de suor. Passando o braço sobre a testa, ela ajoelha-se junto ao chafariz que lhe inunda a boca de lábios secos. O vestido que tentara ser branco um dia estava respingado pela água refrescante. Com um suspiro mais profundo ela ergue-se e com muito custo caminha rumo à ponte; caminha aos solavancos sim, era por demais impossível levitar pelas subidas e descidas íngremes da cidade inconfidente com suas ruas de pedras. Imensos casarões faziam a pouca sombra naquilo que se tinha de calçada e ela roubava para si. Dividia seus passos entre os fortes negros escravos que carregavam suas ¿senhoras¿ num veículo esqueleticamente montado sobre paus. Chibatadas a frente são ouvidas; rebeldes açoitados imploram a Deus por sua clemência; mas não se sabe se são ouvidos; o sangue jorra. A moça, com olhos marejados, corre aos atropelos, empurra transeuntes, quase é atropelada pela charrete que velozmente passa puxada pelo burrico, este, mais sofria pelas pedras que lhe torciam as pernas do que pelas chicotadas que seu ¿amável¿ condutor lhe presenteava. Com o coração aos tiros ela debruça sobre a mureta de pedras que dá acesso ao rio, respira e cambaleando salta para seu leito. Com o afã de descansar, poucos passos são suficientes para próxima à margem deslumbrar-se lindamente com um formoso e desleixado banco de madeira. O banco devia estar ali a muitos sóis e chuvas passadas; pois de podre quase não mais tinhas seus pés íntegros, mas mantinha-se imponente. De olhar eterno e perdido ela procura algo na vastidão daquele rio, recolhe seus pensamentos ao sentir uma lágrima que lhe passeia a fronte e desliza pelo farto busto discretamente arranjado no corpete que a esta altura lhe incomodara horrores. Como se fosse possível, confortavelmente ela senta e arruma sua anágua que insiste em aparecer sob o vestido. Arruma-se em meio aquela paisagem bucólica como se um melancólico adereço de um quadro a óleo fosse. Uma frondosa arvore dá-lhe a sombra que precisa para suportar a angústia de sua perpétua espera. Num gingado sem ritmo balança a cabeça ao vaivém das águas que batem nas rochas. Ferraduras em seus cavalos são ouvidas ponte acima, mas nem assim desvia seu olhar fixo na curva distante ao longo rio. Os cabelos de cachos presos por uma fita vermelha são presenteados por uma brisa que os lambem, deixando uma serena paz pairar no rosto tenso. O olhar rompe fronteiras, atinge o oceano distante até da imaginação; encontra seu amado de pensamentos vagos; isto a deixa ainda mais esperançosa; sua divagação fizera dela sua escrava. A espera fora eterna, seu herói jamais voltara das terras de além-mar; sabia-se estivera casado lá, porém alguma alma viva sequer ousara contar-lhe, sequer poderiam tirar-lhe o último suspiro de vida que a ela cabia, melhor foi terminar a vida na colônia a espera do amado que nunca voltou do exílio.
Por: ANDRE MELCHIADES Quarta-feira, Dezembro 24, 2003 Comentários:


ABELHUDA

Fato! Ocorrido anos atrás. Conversava com um amigo no trabalho e percebi que uma colega ouvia nossa conversa atrás da porta do refeitório: sobre mulheres, então cutuquei meu amigo e comecei a falar:
- Então Beto, ela é linda. Está sempre de mini-saia, decote, salto alto, cheirosa. Fica linda naquela altura toda!
- E onde ela trabalha?
- No centro, na Rua Aurora.
- Ela faz o que?
- Ela é artista: canta, dança, representa. Está com um espetáculo musical no Teatro Aurora.
- Mas esta região não é perigosa? Tem muita boate, cinemas pornô, né?
- Tem sim. Eu fico preocupado, pois ela sai tarde e já viu, mulher bonita andando na rua de noite.
- Trabalha a noite?
- Claro! Já viu teatro de dia?
- É verdade. Você já a viu atuar?
- Nunca. Ela diz que teria vergonha se me visse no teatro. O teatro é pequeno pelo que ela diz a platéia fica bem perto do palco. Então a espero no metrô República. Engraçado que ela já até tem fã. Não há uma vez que ela venha sozinha, sempre um fã ou até mais que um a acompanha até ao metrô.
- Mas artista quando tem reconhecimento nem sempre tem dinheiro.
- Não é o caso dela. Não há momento quando saímos em que ela não tenha umas notas de R$50,00 soltas na bolsa. Isto quando não tem de R$10,00 também.
Passado um tempo. Meu amigo estava sozinho no café e chega esta colega que nos espreitava:
- Beto, eu estava entrando para tomar água agorinha e sem querer ouvi vocês dois conversarem. Você precisa abrir os olhos dele. Ele é tão inocente que não percebe que a namorada é uma...você sabe....garota..de programa. Como pode ser tão burro!
Depois de algumas semanas, contaram-lhe que a havíamos enganado, nos divertido as suas custas e nunca mais ela nos espiou para ouvir nossas conversas. Tampouco conversava com a gente.
Por: ANDRE MELCHIADES Sexta-feira, Dezembro 19, 2003 Comentários:


GRITO MUDO

Um silenciar se faz em mim. Eu que tanto a tantos momentos me fiz em brados de ira e súplica, agora me reservo. Reservo parte da minha lucidez em não mais me desesperançar por crer demais, amparar até mais. Vi, e de fato vemos, o quão doloroso é estabelecer cumplicidade, desprendimento, amor; quisera fôssemos verdadeiramente animais e brigássemos por causas e não por coisas. É, mas ainda lembro da neblina dissipar-se ao alvorecer no pé da Serra de São José e gotículas de orvalho acariciarem as folhas tímidas do ipê amarelo, então respiro fundo e meus pensamentos me dizem: "Do que você estava falando mesmo?"
Por: ANDRE MELCHIADES Terça-feira, Dezembro 16, 2003 Comentários:


COISAS QUE NÃO ENTENDO (OU NÃO ACEITO)

Existem tantas coisas que aos outros são normais ou passam desapercebidas e que de fato no mínimo são inusitadas. Vejamos:

1)Acústico MTV Zeca Pagodinho: Pagode, batuque, cavaquinho, ora, isto já não é acústico? Desplugar o quê então? Ah, tá é marketing.
2)Por que o PT só funciona como oposição?
3)Você financia um carro e ao terminar de pagá-lo, está pago! Porém se você financia um imóvel ao final das suas mensalidades ainda pagará um resíduo, saldo devedor! Ah, é por causa da depreciação do bem, mas não previram isto quando o venderam?
4)Passo o ano inteiro suportando pessoas insuportáveis, então por que na época natalina tenho que lhes abraçar como se fossem minhas melhores amigas? Ah, nascimento de Cristo, perdão.
5)Por que o Lula criticou o FHC por viajar tanto e agora é mais fácil falar com o Papa do que falar com o Presidente que vocês elegeram? Ah, política internacional, não era o que o outro falava?
6)As mulheres, que não há dúvida são seres superiores, sempre quiseram igualdade com os homens, mas por que milhares se igualaram por baixo? Por que assumiram a nossa pior faceta?
7)Por que quando nos vestimos de verde e branco devemos fugir dos vestidos de preto e branco? Esporte ou guerrilha? Engraçado como se tornam feras quando estão em bando, mas quando estão sós não passam de cordeirinhos.
8)Por que existem os telejornais policiais? Tá bom, pula. Por que os apresentadores destes vivem aos gritos explorando o sofrimento e a miséria alheia?
9)Descobri hoje que Mari Alexandre terá um programa de TV só seu. Por que nascem tantos, ditos artistas, desse nível? Lembre-se de outros: João Kleber, Carla Perez, Sérgio Mallandro, Tiririca, Gugu, Casseta e Planeta, etc.
10)Entrei na Justiça por uma causa trabalhista. Amigos meus também entraram e já obtiveram ganho de causa por processo idêntico. Por que não há jurisprudência? Ah, é o sistema.

Aposto que cada um tem sua implicância, não sou o único.

Por: ANDRE MELCHIADES Quarta-feira, Dezembro 10, 2003 Comentários:


SÁBADO DE COMPRAS

Não é muito comum aos homens gostar de sair às compras com as mulheres, ainda mais nesta época, mas têm vezes que acho muito divertido e até gosto. Agora, uma coisa é insuperável: a incrível capacidade que as mulheres têm de andar por infindas horas e acabar por não comprar nada. Pior, ainda saem todas felizes após terem andado a 25 de Março e região num dia de sábado, circulado todo um outro shopping atrás de um ¿ disse um ¿ soutien, não o encontrando e dizem de sorriso de ponta a ponta: O dia não foi maravilhoso? E eu, de pés latejando, suado, depois molhado, com fome, sujo; ainda tenho que concordar que foi legal, afinal com ela é legal.
O mais hilário para é que acordo no domingo cedo (é, cedo mesmo!) e ainda vou às compras novamente, a tarde toda. Desta vez até que ela compra, agora se dependesse dela vocês acham que ela compraria o dito soutien? Não, ela comprou uma bolsa, mais uma. Para que as mulheres têm tantas bolsas e sapatos? Será que elas intimamente se consideram centopéias?
Ah, mas a alegria quando elas comprar vale muito a pena e continuarei prestigiando. Amigos, vão às compras, o sorriso delas vale a pena!
Por: ANDRE MELCHIADES Segunda-feira, Dezembro 08, 2003 Comentários:


Percepções do Silêncio

Eu, de tanta verdade contida
Em meio a um mundo de mentiras sem contenção
Acabei por calar a voz que falava comigo:
Eu comigo. Agora, às vezes, eu sem mim.

Eu, de tanto amor contido
Acabei por amar tudo no mundo em silêncio
Pra ter como amar de verdade
De acordo com a verdade dentro de mim;
Numa festa interior
Eterno merecimento de tal sentimento enaltecido:
Eu comigo.

E agora, quando o mundo participo
Espantam-se,
(não me conhecem. Acaso os deixei me conhecer?)
Não me entendem:
Confundiram todo esse tempo
Meu silêncio antigo com exaspero,
Com indiferença, com desalento;
Mas,
Há algo errado com o mundo ou comigo?
Quase ninguém confundiu com amor demais.

por Lucimara
Por: ANDRE MELCHIADES Quarta-feira, Dezembro 03, 2003 Comentários:


MEU MONTE AZUL

Busquei-te, mundo afora!
Paixão em ti alvorecera
Te achegues um tanto mais agora
Acalentes o coração que padecera

Queiras deveras sem medo
Assim tão mais que bastante
Que os sonhos vieram antes!

Qual fosse desejo vil
Vês que não sonhaste em vão
D'outrora pecados a mil
Agora deleite em vazão.

Não venhas sem entrega
Tempo a solta é perdido também
Entrega-te em corpo, que sua'lma me tem.
Por: ANDRE MELCHIADES Terça-feira, Dezembro 02, 2003 Comentários:



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Óia eu!!!