"Vão Divã"

"Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois, se duvidas, Vem cá, olha estas feridas, Que o amor abriu no meu peito."
(Augusto dos Anjos)
VÃO DI "Que havemos de esperar, Marília bela? Que vão passando os florescentes dias? As glórias, que vêm tarde, já vêm frias."
(Tomaz Antônio Gonzaga)

NO FUTEBOL

Semana passada fui assistir ao filme Pelé Eterno. O filme em si é desprezível, mas os gols do Rei, só vendo mesmo!! Maravilhosos.
Vendo o filme me recordei que, como nós homens sabemos, todos temos um dia na vida de rei do futebol e por gostar muito do esporte tive momentos assim. Lembro-me especialmente de uma manhã de domingo e quem me conhece sabe que pela manhã já não sou muita coisa, mas vamos lá. Já passavam das oito horas quando debaixo de uma garoa de inverno eu saía com uma chuteira chamada Viola amarrada uma na outra e pendurada no pescoço. Corri porque pra variar estava atrasado pro jogo no campo do Diamante. Vá lá entender, o jogo seria às nove, mas tínhamos que estar lá às oito. Bom, já não tinha tomado café mesmo e praguejava de ter que levantar cedo (certas coisas nunca mudam). Subi o barranco que dava para o campo e tropecei caindo de peito no barro gelado. Levantei, peguei meu rolinho de faixa que caíra pelo barro (até hoje não sei para que prendiamos os pés com aquilo, sabe aquelas faixas que se usa em curativos?) e corri pro vestiário achando que ninguém tinha visto...quem dera... A cena de vestiário de time de várzea para quem nunca entrou é bizarra: um mínimo de onze caras de cuecas (sendo otimista), barrigudos ou magrelos (tá, eu sou também), aquele "futum" de meia suja misturado com a urina que não cabia ou não era acertada no vaso sanitário (quando tinha vaso, muitas vezes era um buraco no chão ou canto da parede mesmo), aquela umidade escorrendo pela parede, chão batido, alguns "atletas" usando por vezes, na melhor das hipóteses, cigarro neste ambiente agradável, aquele pagode básico ecoando lá dentro (meu Deus!), uma única porta estreita e janelas nunca vi. Ah, sempre tem o 'treinador", geralmente é o dono do bar, da venda e que tem todo um diálogo, um vocabulário específico: "Aí, você 'dibra' o jogador", "Se der enfia por trás (se o adversário ouve, hein?)", "Faremos a marcação alemã, que nem os ingleses", "(Ele diz) E aí, beleza? Você fica na lateral direita! (respondem) Eu só vim usar o banheiro, sei jogar isto não.". Naquele dia todo este clima estava presente. A chuteira nova que eu comprara estava tão apertada que mal eu conseguia movimentar os dedos dos pés. A bendita camisa dois veio pra mim. Lateral direito, eu? Com este vigor físico que eu tenho (com 14 anos eu já devia ter uns 1,50m sei lá, que belo zagueiro, fala aí!!). Tudo bem, fui para a defesa, queria era jogar no meio dos caras mais velhos (18, 20 anos). E foi um pastelão logo de início. Jogaram uma bola na área que eu defendia e eu pulei para cabecear junto com um adversário infinitamente mais alto que eu (devia ter 1,70m o gigante!), de repente só lembro de uma voz lá loooonge dizendo:"Hei, você tá bem? Olha pra mim, respira". Que capote!! Continuei. Vou pro ataque e começa a chover. Sobra uma bola perto do gol adversário (juro, nunca fui ruim de bola, mas...) e quando vou chutar caio sentado em cima dela. Pra piorar, pegam bola de mim e fazem um gol nas minhas costas. Nunca tem ninguém assistindo aos nossos jogos, afinal domingo de manhã é triste e neste dia ainda era pior porque estava frio, era julho (férias) e chovia, logo eu podia fazer minhas cagadas, certo? Errado!! Estava cheio de gente (considere 20, 30 pessoas, cheio, tá?). Até as meninas da oitava série tinham ido ver a gente jogar (eu estava ainda na sétima, que honra!). E os episódios se sucederam, perdíamos de quatro a três e o treinador disse mais uma frase de efeito: "Time que tá perdendo se mexe, porra!", saímos em contra-ataque, eu olhava paras meninas na arquibancada (considere barranco arquibancada, tá bom?) e corria que nem louco pelo meio do campo enquanto a bola ia pela ponta direita, um passo depois de entrar na grande área adversária a bola é cruzada vem em minha direção, porém como eu correrra olhando para as meninas passei da bola e nem dei por conta, porém CONSCIENTEMENTE numa jogada ímpar eu saltei projetando o corpo pra frente com as mãos estendidas, enquanto com o calcanhar direito toquei na bola que passava atrás de mim. Foi aquele "tum!", um barulho seco, forte. A bola com tamanha força manhosamente vai e é.......quase gol, bate no travesão, bem lá pertinho do ângulo. Eu olho, cuspo o barro todo, vejo que minha mão desfolara inteira e até sangrava, mas penso: "Que jogada linda!"..é....aí passa um dos meus amigos e diz gritando: "Caralho André, que cagada!! Você tropeçou, foi?"... Não tem jeito, tem dia que nem o futebol resolve... Ah, perdemos o jogo e nunca mais joguei de zagueiro, mesmo depois de grande, afinal hoje Já tenho 1,69m..
Por: ANDRE MELCHIADES Quinta-feira, Julho 29, 2004 Comentários:


E...

As cortinas bailam ao soprar da ventania que estilhaçara a vidraça. Um sopro agudo, longo preenche todos os cômodos da casa. A casa, sim a casa estava vazia, somente eu e meus fantasmas. Pela fresta da janela lá adiante via as árvores vergarem seus troncos, quase rompendo ao meio e raios espocavam sobre elas, clareando sua feição de tristeza, de maltrato dos céus. Pairava agora uma calmaria que em segundos abandonava-me à chegada de trovões bravios, relembrando que a noite era dona do medo. Desaba a tempestade que anunciara d'antes sua chegada. Trazidas pelo vento nuvens d'água encharcam o chão de madeira escura. Olho para o lustre de luzes surradas pela poeira e as chamas vão se rareando até findarem-se, trazendo o breu aos meus olhos de pavor. O frio úmido arrepia-me os braços compondo uma cruel sensação que tento dissipar da mente, do corpo, porém o ranger das portas que batem me impedem de ser sereno e me apodero dos fantasmas que me vigiam, tomo-lhes à força, componho meu derradeiro soneto que de ira faço-lhe em prosa:"Meus fantasmas me têm no medo, fácil me detém; quisera ser fantasma assim também. Louco e mortal seria se fantasma fosse enquanto feliz o dia. Rouba-me a paz de alguns instantes, tolo e inútil que não vai mais adiante, a noite não rouba a aurora e o dia já é agora. Esconda-se até escurecer, mas saiba que há de padecer, haverá a hora de não mais anoitecer."
Por: ANDRE MELCHIADES Quarta-feira, Julho 07, 2004 Comentários:



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Óia eu!!!