"Vão Divã"

"Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois, se duvidas, Vem cá, olha estas feridas, Que o amor abriu no meu peito."
(Augusto dos Anjos)
VÃO DI "Que havemos de esperar, Marília bela? Que vão passando os florescentes dias? As glórias, que vêm tarde, já vêm frias."
(Tomaz Antônio Gonzaga)

O TÊNIS

E eu não tinha um tênis. Seria festa no final da rua que cortava a minha e eu sabia que a Simone iria. E eu ainda não tinha um tênis. Tá bom, eu tinha aquele furado, Bamba, que eu usava na escola, mas era super manjado e manchado, não podia vê-la com aquele tênis horrível. Já era sábado, manhã, e nada ainda, nenhum milagre acontecera. Apelei. Juntei moedas (isto já faz tempo), pedi uns trocados em casa, era o máximo que podiam fazer e consegui um pouco. Muito pouco. Lembro que na época apenas dava pra comprar o famoso Conga! Eu não queria usar aquilo!! Imagine ela me olhando de Conga, não dava. Fiquei triste sem saber o que fazer e pensei que iria pagar o mesmo mico da outra vez que não teve jeito senão ir para a escola de Kichute (imitação de chuteira, com cravos de borracha na sola), era patético para não dizer...chato. Aí eu cometi meu delito: fui ao supermercado e vi o tênis dos meus sonhos (era um sonho humilde), tratava-se de um tênis Montreal! Vi o tênis ali, era o único daquele azul e vermelho vivos! Havia um tênis ao lado, o Conga. O preço era três vezes mais em conta, não pensei duas vezes, peguei o adesivo com o preço do Conga e coloquei no Montreal. Deixei os dois preços, um no solado e outro na frente para que no caixa não desconfiassem de uma maldade e no máximo um erro. Saí eufórico, com a nota fiscal e tudo para mostrar em casa. Fui à festa super arrumado, cheio de empolgação, otimismo. Na festa eu a encontrei que elogiou meu tênis novo, agradeceu que eu tinha ido (nem precisava agradecer). Assim ficamos, ela de um lado da parede e eu de outro. Passou uma hora, duas e nada de eu me mexer. Acabou a festa, fui para casa, com mais um oi dela e nada de ter coragem para algo mais, coisa dos meus treze anos.
Anos após voltei ao supermercado e comprei um presente para o meu sobrinho, inverti os preços de novo, desta vez para mais, minha consciência agradecera.
"Onde o real e o imaginário se convergem".
Por: ANDRE MELCHIADES Quarta-feira, Setembro 29, 2004 Comentários:


DEPOIS D'ANTES

E de tentar revi o d'antes. Ironia Dante: antes eu não sabia que de tanto e quanto ausente far-me-ia, e o fez, tão distante de mim que perdi e me procuro em ti. E não me cabe buscar-me em você, caibo em mim, nas minhas verdades e já me basta, mas o verde do Ibirapuera é mais esmeraldino quando sua voz atenua minhas inquietações. Não me dependo, me engrandeço e minha alma se aquieta em seu colo, sonhos perpetuam a inocência de um desejo mundano, devaneio meu, só meu e o terei mais meu que sou do mundo, deste que vivo no escuro das quintas-feiras do meu quarto, ansiando pela manhã que precede seu lábios e assim instigo o devanear por algumas horas e fim, se for assim.
Por: ANDRE MELCHIADES Sexta-feira, Setembro 17, 2004 Comentários:


O MOTOR DO MEU BLOG, SE PERDEU EM PALAVRAS ERRADAS, LOGO, ELE TAMBÉM SE PERDE..QUISERA AINDA ENCONTRÁ-LO. ATÉ A VOLTA, AMIGO
Por: ANDRE MELCHIADES Quarta-feira, Setembro 08, 2004 Comentários:


A LOIRA DO BANHEIRO

E havia a loira do banheiro. Diziam:
-Ela tem algodão no nariz!.
Imaginava ser linda, mas com os orifícios recheados de algodão e no auge do impressionismo eu entrava no banheiro quando todos diziam ser perigoso. E como eu tremia. Chutei a porta, a outra, mais uma, a última. Claro, teria que ter certeza que não havia ninguém mesmo dentro das "casinhas"! O banheiro era fétido e meio escuro, propício às alucinações. Parei frente ao vaso sanitário, mal conseguia abrir o zíper da calça de tanto que tremia. Via, sobre meus ombros, apenas uma luz intermitente vinda do corredor. Com o pé para trás ancorava a porta, não convinha vacilar naquele local dangerístico. Terminei o feito mal feito e de frente ao espelho, rachado e super mínimo, eu não tinha sequer coragem de olhar, pois se sabe lá o que haveria atrás de mim. Saio com o coração na boca e quando de posse da minha sanidade dou a derradeira tremida, aquele arrepio dos pés à cabeça, encho meu peito de ar e grito:
Corro e o tumulto daquela meia dúzia de meninas me faz rir. Esnobo:
-Como são medrosas. Não existe este negócio de loira cadavérica do banheiro!.
Todas ficam me olhando com admiração e perguntam:
-Você não tem medo? Nossa!.
-Medo do quê? Meninas, quando tiverem medo, me chamem, eu não acredito nestas bobagens!
E assim, fui para casa por uma cueca limpa.
Por: ANDRE MELCHIADES Sexta-feira, Setembro 03, 2004 Comentários:



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Óia eu!!!