"Vão Divã"

"Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois, se duvidas, Vem cá, olha estas feridas, Que o amor abriu no meu peito."
(Augusto dos Anjos)
VÃO DI "Que havemos de esperar, Marília bela? Que vão passando os florescentes dias? As glórias, que vêm tarde, já vêm frias."
(Tomaz Antônio Gonzaga)

RECRIAR-ME

Não me pagam para ser feliz.
Erram.
Pagam-me nada por conhecer Jung, mas o fariam se ele, eu fosse.
Meus delírios também são confusos,
E também os explico.
Tento.
Minha ignorância é cega,
Mas não deveria:
Quisera ser poeta.
Todos somos poetas em nossas histórias:
Nasci de uma história para viver minha epopéia,
Escrever meus próprios poemas,
Criar nossa Poema.
Sonho é concepção do possível,
Sempre é possível - eu sonhar !
Por: ANDRE MELCHIADES Segunda-feira, Novembro 29, 2004 Comentários:


O PRIMEIRO LIVRO

Sábado e segunda-feira, fim. Acabei em duas vistas rápidas de reler O Mistério do Cinco Estrelas, de Marcos Rey. Que engraçado, eu tenho este livro que li pela primeira vez em 1982 e foi o este que me fez gostar de ler, afinal foi o meu primeiro romance. O irônico é que eu achei o livro agora completamente previsível, com falta de argumentos e inocente demais. Não é uma crítica ao livro que me despertou à literatura, trata-se de uma constatação curiosa: eu mudei e o livro não. Não sou mais tão inocente e tampouco crédulo à coisas que desconheço; às vezes me sinto agnóstico, outras ateu e tem dias que sou fundamentalista até, mas não sou mais inocente. O livro narra as peripécias de um garoto que acreditara num assassinato no prédio onde trabalhara. Simples como Agatha Christie e ao mesmo tempo distante do emaranhado da autora. Sou grato ao autor, já falecido, do livro que escreveu muitos roteiros de O Sítio do Pica-Pau Amarelo, pois acho que com a idade que me foi posto a obra nas mãos eu devia saber aquilo que ali estava, minhas expectativas na época eram aquelas, meu raciocínio e inocência eram aqueles; afinal eu fui obra de Esopo, Andersen e La Fontaine; morram de inveja, crianças!
Por: ANDRE MELCHIADES Quarta-feira, Novembro 24, 2004 Comentários:


FELINA (CONTO)

- Oh, cara! Se toca! - Assim me afastei do corrimão que dava acesso ao mezanino de onde o casal aspirava um pó tal como açúcar, e, parecia mesmo. A casa lotada não parecia me caber, mas meu vazio era tão imenso que havia espaço em mim mesmo e já era o suficiente. Doces damas em suas saias minúsculas serpentavam pelos corredores estreitos do american bar. Havia pouca luz e um som melancólico vinha das caixas alojadas nas paredes; era algo meio gótico, meio down; de fato era depressivo a qualquer um. Acendo meu cigarro, sem filtro, como a vida fora comigo, sem filtrar as impurezas e me sento numa poltrona bem ao fundo, atrás da pilastra descascada. Uma extensa passarela saía da parede ao meu lado, passava como uma espécie de mesa a minha frente e seguia de projeção em v para o meio do bar. Daquela passarela algumas garotas se enchiam da graça que achavam que possuíam, dançavam rebolavam, se exibiam e suas roupas, já mínimas, deslizam até o chão áspero e sujo. Meu uísque chega e o viro sem gelo já pedindo mais um. Um inesperado orador aparece no palco, saca um microfone no mais estilo de programas de auditório e preenche a casa com seu vozeirão, atribuindo qualidades a dama que viria enfim: Felina. Aparece ela, linda! Uma loirinha com seus poucos um metro e sessenta e cinco centímetros, usando uma saia curtíssima e top com estampas de tigresa, olhos de brilhante azul, pintados num tom escuro e levantado-os, cabelos compridos, soltos e esparramados, unhas compridas que saem por entre as luvas longas. Caminha na passarela como se estivesse em transe e seus passos são delicados, suaves, sequer fazem barulho seus saltos altos. Engatinhava agora, a minúscula tanga emudece os pensamentos de quem se atrevesse a tê-los, ainda mais quando seu engatinhar projeta aquele decote com sardas discretas. A casa pára! As mulheres seguram seus copos, estáticas, como se um misto de inveja e temor se apoderassem delas. Os homens, ah os homens se ajeitavam incomodados e desejosos. Ela, com olhar fixo num ponto qualquer, não esboça um sorriso e seus lábios grandes parecem tremer a cada deslizada que dá. Engulo minha bebida em uma última ação sóbria. Do meu canto ela não me via, não amparava minhas angústias, mas eu saio da penumbra, ponho uma nota de reais em sua cintura e seus olhos me acham enfim. Por segundos eternos estas gotas azuis que me vêem dizem que me ama e mais, muito mais que o amor apenas não contempla. No rosto da Felina uma lágrima acaricia a pele aveludada, escorre até a boca e sua língua sente o amargo gosto da vida. Viro-me. Procuro a saída e deixo a vida dela para sempre. Caminhando na rua chuvosa e chutando os fantasmas que me visitavam, penso, como foram duros estes nossos 17 anos.

Por: ANDRE MELCHIADES Terça-feira, Novembro 16, 2004 Comentários:


MANHÃ DE SEXTA

Abro a porta, soleira encharcada, refluxo da noite açoitada de ventos bravios.
Abro a porta, luz da manhã, rebrilham seus raios na pele de avelã.
Abro meus olhos, ardem aos salpicos da claridade intensa.
Abro meus olhos, vejo flechas em prisma romperem a galhada.
Abro o peito, o ar da manhã gelada tranca-o com nervos.
Abro o peito, encaro a formosura da manhã que se exibe assim.
Abro o sorriso, há ninguém que o veja.
Abro o sorriso, e me encontro comigo:
Abro a porta) te encontro contigo,
(Abro meus olhos) se me encontrar-se comigo,
(Abro meu peito) estarei sempre contigo!
(Abro o sorriso) (Abro o sorriso) (Abro o sorriso).
Por: ANDRE MELCHIADES Quinta-feira, Novembro 04, 2004 Comentários:



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Óia eu!!!