"Vão Divã"

"Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois, se duvidas, Vem cá, olha estas feridas, Que o amor abriu no meu peito."
(Augusto dos Anjos)
VÃO DI "Que havemos de esperar, Marília bela? Que vão passando os florescentes dias? As glórias, que vêm tarde, já vêm frias."
(Tomaz Antônio Gonzaga)

BEL E O CARA

-Alô, Bel? Tudo bem aí?
-Fala Cara, como está? Eu estou bem!
-Pois é, Belzebu, as coisas andam difíceis aqui. Recebeu o dossiê do fulano que lhe falei? Ele é seu funcionário?
-Recebi sim, Deus você é o Cara mesmo! Onde arrumou esta figura? Não fui eu não, juro por Você?
-Sabe de onde ele veio? "Este é um país que vai pra frente!"
-Puta merda, desculpa Deus, mas Brasil de novo?
-Eu mereço, to até pensando em transformar aquele país em estacionamento pra Argentina.
-Ah não. Investi demais no Brasil, pode parar. Mas afinal o que fez este rapaz?
-Veja se tem cabimento, ele ta com uma idéia de só rezar se for por contra-apresentação, ou seja, só irá rezar depois que eu entregar o pedido, disse que é por causa da globalização, concorrência; tem dedo seu nisto?
-Não, mas to precisando de um novo Gerente de Marketing, bom ele.
-Se esta idéia pega, já imaginou o estrago? Antes era tão fácil, mandei certa feita um infeliz ofertar o filho a mim e depois ri devolvendo a criancinha, só para testar se eu tava no poder. Agora o tal quer que eu dê o que pede antes?
-Olha, eu queria Lhe ajudar, mas o que posso oferecer é assessoria, afinal Você estará me mandando nos próximos anos toda uma bancada política do Brasil e tenho que me preparar senão eles me depõem daqui da minha área, eita raça!
-Pensei que você os tinha enviado ao Brasil, não foi?
-Tenho alguns assessores, Você já ouviu a frase: "Eu não vi nada, eu não sei de nada", não ouviu?
-Já sim, Lula?
-Não, este é o Lulla. O Seu Lula era trabalhador, odeio gente assim, troquei-o, por este novo que deseja ser Imperialista, é quase um Bush!
-Mas este Lull também vai embora um dia, né?
-Vem sim, após a pós-graduação no Planalto!
-É Bel, to com pena de você, mal sabe o que lhe aguarda com esta turma toda! Vou acabar atendendo aos pedidos deste rapaz antes que ele vire mártir ou vá trabalhar para você.
-Acho que Você tem razão, será melhor, e sabe que não costumo errar, lembra que Lhe avisei sobre Martinho Lutero, olha a cisão que deu.
-Vou pensar com respeito.
-Por falar em pensar, o que acha de investimento na Ilha de Java?
-Belzebu!!!
-Verdade, daqui a bilhões de anos serão terras férteis e já to desapropriando, viu os telejornais?
-Você é o diabo!
-Eu sei....
Por: ANDRE MELCHIADES Segunda-feira, Maio 29, 2006 Comentários:


PASÁRGADA MINHA (CONTO)

Não haveria sonhos que não valsassem sob aquela troca de olhares. Muitos eram os pensamentos e anseios, todos de encantar o coração. Fitando o céu, como se em súplica pedisse que eternizasse aquele suspiro de amor, senti uma brisa acariciar-me. Fosse acalento de anjos, deu-me coragem e dela tomei as mãos, delicadas, lisas, macias. Elas tremiam docemente e um sorriso inesperado convidou-me à sua vida: "Venha conhecer os meus sonhos!". Neste instante o chão sumiu, o mundo perdeu paisagens, ruídos, odores; só havia duas almas a se vigiar. Como por encantamento caminham, passos curtos, aproximando-se mais e mais uma a outra. Sinto sua respiração ofegante, seus olhos quase banhados e seu hálito, doce, timidamente conta-me tudo com um breve "oi". Emudeci. Fiquei vendo seus longos cabelos dourados serpentearem o céu, como se venerassem a mais linda sacerdotisa e quase fraquejei, porém do seu manto resplandecia um tom avermelhado ao lado esquerdo do peito. Era o coração que pulsava mais forte a cada toque que nossos corpos passavam a desenhar. E, creiam, acreditei em Deus...mas já passou..

Por: ANDRE MELCHIADES Domingo, Maio 21, 2006 Comentários:


UMA NOITE NA CIDADE MALDITA

Um rangido. Passos lentos e surdos pelo assoalho da casa. Uivos, lá longe, compõem a trilha sonora juntando-se aos apitos que o vento insiste em fazer pelas frestas da janela. Ouve-se gemidos. Ela se encolhe, os batimentos agora sufocam seu peito. Recolhe as pernas sob o edredom, paira em sua mente a imagem do velho magro, fétido, vestido de negro e chapéu de abas largas, também negro. Não mais vem apenas à mente, seu pesadelo se materializa. A porta range como se a ela doesse abrir e o vulto preto caminha cambaleante em direção ao leito espaçoso da mocinha, sentando-se na beiradinha. Com as mãos cheias de calos, castigadas pelo tempo e labuta, ele faz menção de tocar-lhe os pés, talvez uma carícia insana quisesse fazer, mas ela, de olhos esbugalhados, respiração ofegante, recua ainda mais. Surge um sorriso vazio de dentes naquele rosto enrugado de muita idade. Num gesto descoordenado ele deixa cair ao lado da cama o chapéu surrado pelos anos de uso, mostrando ainda mais quão vil era sua expressão de gula. Completamente estática, ela murmura, quase choraminga por socorro, mas o auxílio mais próximo está a cem quilômetros dali, só podia contar consigo mesma. Suas forças estavam enjauladas pelo medo, e assim petrificada, só pensava num milagre, precisava de alguém: -Cadê meu amor? - Gemia ela. O homem sentindo seu desespero e se nutrindo dele, solta uma gargalhada fantasmagórica. Dos olhos dela lágrimas minavam e os lábios tremiam balbuciando: -Socor.... Lépido, ele levanta, cobre-lhe toda a visão com o manto negro que lhe vinha às costas. Lá adiante corvos batem asas ao ouvirem um último grito de dor e desespero. Já com o corpo inerte teve sua derradeira visão, tal uma noite sem estrelas, sem lua, sem amor, sem vida e um imenso vazio mudo.
-Bom Dia! Dormiu bem, linda?
-ôh!

Por: ANDRE MELCHIADES Sexta-feira, Maio 12, 2006 Comentários:


A CIDADE MALDITA

Uma estrada sinuosamente traiçoeira desembocava num vale. Era sim um berço sinistro entre os morros. Olhando em direção à colina, um pouco acima, nuvens negras, tempestades no céu formavam um quadro aterrador. Ela via sua expressão mudando a cada passo que dava, um calafrio lhe percorria o corpo já teso de medo. Era uma cidade desolada, havia sorrisos escondidos em cada fresta e em cada canto um temor. Muitas eram as luzes que espocavam dos casebres, como se fossem para espantá-la. As trilhas estreitas agora criavam uma falsa sensação de conforto, era uma armadilha, ela sabia, mas encantada ela vai assim mesmo. Seus pensamentos confusos sabiam que mais hora, menos hora algo lhe aconteceria e não seria algo bom, sabia disto, era uma premonição. Mais adiante um vulto sagaz sopra-lhe os lisos cabelos negros, ela se contrai e dá passos menos decididos, mas ainda assim caminha. Os olhos estavam arregalados e ativos, nada lhe escapava e tudo era pavor; um sopro, um grunhido. De fronte à porta daquela casa sem muros, ela pára, o coração dispara, qual seria o perigo? Tantas eram as respostas e tantas eram as certezas que lhe vinham dos sonhos, das histórias que ela deu passos para trás. Tarde demais, a porta se escancara e da casa sem vida, uma alma negra de riso rouco salta em direção a ela que corre e corre e corre e corre. Vai, corre, foge! Um olhar para trás e a cidade vai diminuindo, o céu estronda com raios e trovões. Uma confusão de cores se faz no céu, sombras escuras e nefastas atingem as nuvens. Uma mistura de alívio e tristeza preenche seu coração que lá intimamente chora. Fica a cidade maldita para distante de seus olhos, mas ainda vive dentro dela, sabia ainda. Ela senta numa pedra, respira fundo, mas, o ar lhe falta, uma dor aguda invade seu pescoço, as mãos apertam-no ficando avermelhadas e de repente entende o porquê: sua cabeça rolando no chão vê seu corpo pendendo sem ela para o lado oposto. Não há um gemido, um lamento, apenas uma dor solitária. Da cidade ela fugiu sim, mas do fantasma não teve mais como. Ela morreu.

Por: ANDRE MELCHIADES Terça-feira, Maio 09, 2006 Comentários:


ESPAÇO PARA MIM

Não tenho segredos, talvez até os tenha, mas daqueles bobos, sem importância. Menti. Tenho segredos! Segredos que não são meus, que me contaram, que me confiaram. Alguns destes até me envolvem e me fizeram tomar decisões que mudaram minha vida, reflexo do que sou hoje. Odeio segredos! Odeio gente que tem segredos! Ah, então me odeio também? Quem sabe. Só que me odeio pouquinho. O pior é que odeio quem geram os segredos, mesmo que as ame, sinto uma ira por verterem muitos dos segredos e acreditem não há segredo perpétuo, adiar uma dor é fomentá-la! Cansei....vou parar com tudo.

Por: ANDRE MELCHIADES Quinta-feira, Maio 04, 2006 Comentários:


SERRA VERDE EXPRESS

Seus enormes cílios lentamente se encontraram, vinham e deslizavam ao se enlaçarem. Os olhos, da mais verde esmeralda, me fisgavam de ladinho e eram um convite à perdição. Lisos cabelos de ouro compunham uma feição tão angelical que meus pensamentos, que nem tão impuros eram, ficaram envergonhados. Daquela pele alva emanava um doce perfume, seu perfume. Eu caminhava lentamente em direção ao trem, espiando pela enésima vez, ela sorria com os grossos lábios de um vermelho brilhante e acenava um gesto malicioso que certamente não queria dizer nada, mas ela sabia, dizia tudo, e disso, só eu sei.

Por: ANDRE MELCHIADES Quarta-feira, Maio 03, 2006 Comentários:



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Óia eu!!!