"Vão Divã"

"Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois, se duvidas, Vem cá, olha estas feridas, Que o amor abriu no meu peito."
(Augusto dos Anjos)
VÃO DI "Que havemos de esperar, Marília bela? Que vão passando os florescentes dias? As glórias, que vêm tarde, já vêm frias."
(Tomaz Antônio Gonzaga)

OS ANJOS

Era uma vez um anjo de asas reluzentes. Tinha ele diversas incumbências, mas uma lhe agradava mais. Lá do alto de sua nuvenzinha ele paparicava os anseios, cuidava dos medos e do destino de sua protegida. Só a deixava quando sua privacidade era necessária, mas mesmo assim salpicava centelhas de segurança em seu coração. Mal ela umedecia os olhos, o anjo lhe secara o rosto, poucas eram as vezes que suas lágrimas caíam no chão e se isto ocorresse, ah, ele minimizava a todo custo seus efeitos. Ainda assim se martirizava por não ter sido completamente eficiente e tentava compensar numa próxima missão.
Acontece que um dia o anjo dormiu, perdeu a hora e sua protegida foi atacada por uma lágrima de angústia, daquelas que dão a tristeza em segundos e que perduram por anos até. Quando percebeu que sua displicência causara tamanho malefício, o anjo relutou, mas sabia que sua dor seria proporcional às angústias da sua protegida. Contudo, o anjo não entendeu por que sua protegida ria, sorria, parecia mais leve sem o seu benfeitor e o anjo, triste, pegou um cometa e partiu. Sentindo um vazio cercando-o notou que agora ele precisava de um anjo e chorou, mas seu anjo não veio. Seu vazio agigantava-se, as formosas asas não mais brilhavam e arqueavam para trás, era o anjo da asa quebrada agora. Um choro mudo, seco e constante paira na mente do anjo que não mais sabia voar. Todas suas lágrimas arrebentaram-se no chão e começaram a encher o seu vazio, virou uma poça gigantesca de choro. O anjo que jamais soubera nadar, afinal ele voava, viu-se cercado pelo vazio de suas lágrimas, pensava que morreria afogado em suas tristezas, mas o anjo olhou para o céu e viu sua ex-protegida que lhe estendia as mãos, puxando-o para cima. Ela batia suas enormes asas azuis de anjo e sorria ao vê-lo sorrir de novo. Só então o anjo da asa quebrada entendeu que fora tanta lição de amor dado a sua protegida, que quando seu anjo se ausentou, ela se ergueu só e superou seu mestre, ela retribuía, agora ela era seu anjo!

Por: ANDRE MELCHIADES Quarta-feira, Junho 28, 2006 Comentários:


ARRÍTMICO EU?

-O que ele tem? - Pergunta a veterinária, alisando o cachorro.
-Está com esta alergia na barriga.
-Ah, sim. Parece que ele tem se coçado muito, né?
-Pois é.
Nisto ela verifica o batimento cardíaco, deixando o estetoscópio sobre a bancada quando vai medir a temperatura dele. Claro, eu pego o estetoscópio para evitar acidentes e fico brincando com o aparelho no meu peito.
-Cláudia, o batimento cardíaco do cão é diferente do nosso?
-É sim.
-Como que é o dele? - Ouvindo meu coração com o aparelho.
-O ritmo é meio irregular.
-Arrítmico?
-Mais ou menos isto sim! O nosso bate assim: TUM-TUMTUM-TUM. O dele bate assim: TUMTUM-TUM-TUM-TUMTUM-TUM. Entendeu?
Arregalo os olhos e falo:
-Sério mesmo?
-Sim, por quê?
-Sei lá, ouve isto - Passando para ela ouvir meu coração bater.
-Ué, que esquisito! Seu coração bate irregularmente...
Ela olha sem graça, solta o estetoscópio, não sabe o que dizer e mexe no ouvido do cachorro com um termômetro. Realmente ela ficou sem jeito! Pensa que descobriu uma doença em mim e da qual eu não sabia, se bem que eu não sabia mesmo que meu coração era estranho! Quer dizer, saber que ele era estranho eu sabia porque sempre gosta da mulher errada, mas isto não vem ao caso.
-Cláudia, posso perguntar só mais uma coisa? - Ela, tadinha, sem jeito e com os olhos implorando por Deus responde com um inaudível:
-Hum, hum.
-Sabe, eu sou forte, pode dizer, eu agüento: afinal, eu sou um cachorro ou tenho arritmia cardíaca?
Ela suspira aliviada! Cai na risada e diz:
-Cachorro você não é mesmo!
-Não é o que minha ex-namorada dizia.
-Bobo!
Por: ANDRE MELCHIADES Sábado, Junho 24, 2006 Comentários:


O PINGUIM BÊBADO


Caminhava o pingüim em passos de Carlitos quando achou uma garrafa de rum boiando naquelas águas frias da Antártida e pensou:
-Ôh, oh, oh e uma garrafa de rum! - E a abriu sorrindo.
Rapidamente os olhos avermelharam e um soluço ele deu. Pisou sem ver numa placa de gelo que boiava no Atlântico e achou por bem agarrar-se à garrafa, deitando ali na beirinha do gelo, vendo sua imagem refletindo..indo..indo e de tanto ir, acabou suando:
-Eu suando? Que isto? Cadê minhas montanhas de gelo? - Tantas questões e nada de resposta.
A corrente marítima era forte o bastante para que a indefesa ave visse o continente verde chegando. Atirado foi a umas pedras e de lá saiu aos tropeços. De cabeça inchada, maldita ressaca, ele olha e este sentido, visão, era doído, o sol lhe doía, praguejou à ressaca novamente. Ele suava e muito. A barriga roncava, ele suava e muito, mas o acaso lhe mostra um coqueiro esquisito, já havia ouvido falar de coqueiros, mas com flores em cima e escrito 'made in Brazil' numa etiqueta, ainda não. Ainda assim alojou-se sob o coqueiro esquisito e ali lacrimejou, como se pudesse esbanjar mais água:
-Não agüento mais tanto calor! Assim não vou agüentar! - As derradeiras lágrimas se foram quando ele desmaiou de estafa e desidratação.
Subitamente um grito, ele junta umas poucas energias e vê um ser bípede de preponderância peitoral que o assusta com um sorriso cheio de dentes, parecendo que lhe iam devorar. Ele rasteja recuando, treme, bate as asinhas e ouve:
-Olhem meninas, um pingüim! Que filhotinho fofo! - Diz a mais sorridente das jovens e pensa ele:
-Fofo? Eu fofo? Sou é macho! Que história de fofo o quê!!! Vou bicar esta maluca!
Mas não dá tempo. Ela o pega, o acomoda nos braços delicadamente. Quando o encosta sob o peito o pingüim sente uma coisa estranha. Outra jovem o pega, o aperta contra o peito e novamente ele sente uma coisa boa. Aos poucos ele se acostuma, pega gosto de ser apertado por todas e acariciado assim. Logo as meninas o encaminham de volta a sua terra natal, deixando-o contar esta história sem entender porque era bom ser apertado contra o peito. Inocente avezinha, afinal ele que estava carente e com calor, encontrou afago pertinho do coração de quem lhe apertava e quer lugar mais frio do que no coração de uma mulher? Tá bom, algumas, perto de três bilhões somente.
Por: ANDRE MELCHIADES Segunda-feira, Junho 19, 2006 Comentários:


AGNÓSTICO, GRAÇAS A DEUS

E Deus morreu. Era um dia frio de meia tarde de domingo e Ele já não estava mais no meio de nós. Não há mais Pai Nosso que O traga de volta à minha vida, mesmo porque nem quero este deus que ousara ser Deus. Ah, se bem que eu gostava daquele outro: "Olho por olho, dente por dente". Era mais verdadeiro. Eu, longe de ser santo, peguei ojeriza a sacramentos e liturgias que me fizeram crer nas pessoas em nome do Deus, ele que vá as favas com Suas crendices.
Sempre acreditei em heróis, fadas, milagres e surpresas; disto tudo passei perto muitas vezes. Até criei heróis em historinhas inventadas, arrumei fadas que não se refletiam no espelho, vivenciei milagres fisicamente explicáveis e tantas foram as surpresas que eu fiz, só não fiz pra mim. Basta! Já vi que eu sou o Deus da minha vida e não tenho vocação para resignação. Temo o que não conheço e isto não me reconforta, mas também não mais respeito.
Como abdico nesta hora de Sua presença, leve consigo minhas lembranças e faltas que Lhe devolvo o respeito perdido.
Pior que o ódio é a indiferença.
Por: ANDRE MELCHIADES Quinta-feira, Junho 15, 2006 Comentários:


CURTAS VI

Eu ensaio a vida! Ela que não aprende! Pretensioso eu? Fui só criado a Sua imagem e semelhança, sendo assim Você também erra se eu erro, então estou errado? Não é o simples uso da semântica para confundir seus pensamentos cansados de segundas-feiras; é o uso da palavra de Deus contra Ele mesmo, mas, Deus nunca escreveu nada, fomos nós; afinal Deus existe ou também é semântica? Que Deus me perdoe, não convém arriscar!!

Por: ANDRE MELCHIADES Segunda-feira, Junho 12, 2006 Comentários:


BANZO À MEIA-NOITE

Nunca vivi saudades que me fizeram sorrir.
Daquelas que muito conheço, jamais tive qualquer apreço.
Veja: o odor suave da noite, em mim bate como um rude açoite,
Pois me faz lembrar de você, que sem aviso se foi ao entardecer.
Até acho que Deus morreu e na minha vida agora "somos" somente eu,
Mas como fé nunca é demais, quem sabe ainda fiquemos em paz.
Deixo-Lhe meu banzo como oração e peço de volta apenas meu pobre coração.
Por: ANDRE MELCHIADES Segunda-feira, Junho 05, 2006 Comentários:



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Óia eu!!!