"Vão Divã"

"Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois, se duvidas, Vem cá, olha estas feridas, Que o amor abriu no meu peito."
(Augusto dos Anjos)
VÃO DI "Que havemos de esperar, Marília bela? Que vão passando os florescentes dias? As glórias, que vêm tarde, já vêm frias."
(Tomaz Antônio Gonzaga)

UM OUTRO ROSTO

Passa das dezenove horas quando o Doutor Edmundo sai da sua sala e diz de passagem à Brigite:
-Tem certeza que trabalharão sozinhas aqui?
-Ué, por que não? - Diz a moça com o sorriso feliz de sempre.
-Bom, nunca se sabe o que uma noite nos reserva num prédio quase deserto. - E caminha em direção aos elevadores, deixando no ar o olhar de viés, bem como uma dúvida: será que foi uma boa trabalhar de noite?
-O que ele disse? - Pergunta Regina que por pouco presenciaria o diálogo.
-Nada demais, apenas me sugeriu ter cuidado por trabalhar à noite, eu acho que foi isto, sei lá.
Elas se entreolham, paira um silêncio incômodo e assim mesmo nada mais dizem, mas sentem simultaneamente um arrepio estranho.
Para não dar margem aos pensamentos que lhe vinham, Regina volta a sua sala que fica muito próxima à de Brigite. Ajeita-se confortavelmente em sua cadeira preta almofadada, fitando através da janela ampla as poucas luzes que vinham lá do Ibirapuera.
-Onde foram parar as copas das árvores do Trianon? - Imagina ela.
A noite arrancara o verde do parque e lhe entregara o breu numa ventania que zunia entre os cedros anciãos. Vê os troncos vergarem, rangerem até, as folhas desabarem; quase ouve a dor das plantas a se findar. Numa súbita demonstração de poder da natureza, lá adiante no horizonte, um raio explode num clarão que ilumina a cidade inteira. Olhando como estava para o parque, ela vê apenas um vulto nefasto e cinzento parado com a mesma pose da estátua que da paisagem já faz parte há tempos. O piscar breve do raio lhe causa um certo mal estar, pensando no porquê daquela pessoa ficar parada em meio à ventania e respingos de garoa, somente para observar a sua janela, olhando para aquela altura toda!
Subitamente a natureza lhe prega uma peça e outro raio despenca dos céus, porém desta feita quando olha para a estátua, somente esta lhe observa, o vulto desaparecera em meio à explosão de luz. Como poderia num intervalo tão curtíssimo desaparecer por uma Avenida Paulista vazia? Vazia? Que sinistro, a Paulista entregue ao marasmo sombrio antes mesmo das vinte horas. Que noite estranha escolheu para trabalhar.
-Ah, deve ser coisa da minha cabeça. - Pensou.
-Regina, ligaram da recepção. Vou buscar nosso lanche no térreo. Já volto. - Diz Brigite rapidamente, sequer deixando a outra se oferecer em companhia, nem contar do vulto.
Agora sozinha, Regina, volta sua atenção para o computador, não quer pensar em nada diferente do que o trabalho e assim o faz. Abstraída, lá no longe ouve novamente Brigite chamar-lhe o nome e responde em tom de sarcasmo:
-Tô aqui, oh lesada! - Mas Brigite nada responde.
Ela insiste, mas nada da Brigite responder. Um rangido acutíssimo vem da porta do corredor, ecoando por dentro da sua cabeça e lhe arrepia. Como se alguém arranhasse as divisórias percebe que algo está pelo lado oposto da sua sala. Num longo suspiro racionalmente deduz que a amiga queria lhe causar medo e resolve ir à ante-sala. Caminha em passos tímidos, pesados, talvez aflitos quem sabe. Quando alcança a entrada da sala da colega já ouve o som do teclado de Brigite, se empolga, deixa o receio para trás sabendo que a outra tentara sem sucesso lhe assustar. Passa rapidamente pela porta no intuito de rir da amiga, porém pára bruscamente, afinal nada vê que não um vazio e um vão que dava para o corredor escuro, gélido daquela noite estranha. Seu corpo se enrijece, as pernas tremem e Regina estática não tem coragem de olhar para trás, não tinha coragem de voltar a sua mesa. Um trovão ensurdecedor se junta quase que instantaneamente ao grito insano da menina que sente as pernas dobrarem quando todas as luzes se apagam. A sala, um ébano. Ela se apóia na beirada da mesinha e imagina ter sua mão alisada. Desesperada puxa a mão, corre para trás se debatendo nas cadeiras, lixeira, vaso e um pavor afônico lhe entorpece! A luz volta com outro brado seu e o assustado coração da menina vem à boca, o peito bate em demasia. Nada. Não havia nada ali, apenas seu susto. Cambaleando chega a sua cadeira, senta meio torta, meio cansada. Sente que está esfriando, até demais para a hora, deve ser pelo trauma, pensou. Percebe que sua respiração já produzia vapor, fazendo com que ela busque sua blusa sob a mesa. Delicadamente se abaixa, afastando o monitor do seu computador que foi desligado. Ela vê seu rosto na imagem refletida no monitor e percebe que está com os olhos amendoados imensamente assustados. Abaixa, pega sua blusa de linha, ergue seu pescoço, olhando novamente para o monitor. Pára em desespero! Ela balbucia palavras de oração, trêmula, ela reza! Vê seu rosto assustado ser macabramente admirado por outro rosto que aparece lhe olhando na imagem refletida no monitor. Um semblante doído e amargurado apavora sua alma naquele reflexo. Ela já não grita mais, apenas viaja por cima da mesa, derrubando papéis e tudo mais. Corre, pula, salta. Suas pernas longas produzem vôos que não esperava dar sobre as cadeiras, mas assim mesmo ela cai sobre o sofá da recepção. De olhos fechados ela ouve passos se aproximando. Junta as mãos entre as pernas, como faz quando dorme, seus lábios tremem, lágrimas beijam suas faces amorenadas, enfim, se entrega, aguarda seu algoz. E ouve um grito ecoar por toda a sala:
-Regina! Regina! Regina!
Agora ela quase entende:
-Regina, acorda! Se o Doutor Edmundo volta e lhe vê dormindo, hein?
-Hã?!?! O que eu..?? Como..??
-Vai dormir em casa! - Grita Brigite, rindo, pra variar.
Regina deitada de bruços olha para os pés da amiga e aliviada diz:
-Ah, se toca! Eita, ainda não fez as unhas?
Sentindo-se aliviada e zombando da colega, afinal tudo tinha sido apenas um pesadelo, ela se levanta do sofazinho caminhando para sua sala. Senta em sua cadeira, ajeita seus longos cabelos ondulados olhando para o monitor, porém a imagem que se reflete não é apenas dela...

Por: ANDRE MELCHIADES Terça-feira, Agosto 29, 2006 Comentários:


ESCORPIÃO E PLUTÃO

É o fim do mundo! Cientistas, atarefadíssimos, em Praga (só podia ser, tinha que ser Praga mesmo!) enfim descobriram a causa de tamanho desencontro dos nascidos do signo de escorpião para com os demais signos do zodíaco: eles não possuem planeta regente!!!!! Plutão era uma farsa como planeta. Ou seja, esta gente, coitada, pode ser que nem tenha signo?!?! Afinal nem tem planeta para as combinações do acaso, digo, zodíaco! E só agora me falam?? Será que o Ultraseven está salvo na Nebulosa M-78?

Por: ANDRE MELCHIADES Quinta-feira, Agosto 24, 2006 Comentários:


PUMA

-Fuja! A floresta está às chamas! ? Bradou o águia que do alto vinha.
-Não tenho para onde ir! Está tudo ficando esfumaçado. - Apavorado gritava o puma.
-Olha, eu posso guiar você aqui de cima, mas o restante é contigo.
-O fogo me assusta, não tenho muita experiência com ele. Sempre fujo para onde ele não está, porém agora estou cercado.
-Você sempre tão valente vai se entregar por causa de um incêndio?
-Estou rodando em círculos já têm mais de horas. Sobrou-me ficar acuado. Não enfrentarei meu pior inimigo.
-O fogo é seu pior inimigo?
-Não, o medo é o que me mantém aqui! Tenho medo daquilo que não controlo. Deixa-me!
-Não irei sem você. Se não deseja lutar pela sua vida, lute pela minha então, pois só sairei contigo!
-Oras, não me encurrale você também. Fuja você que pode voar!
-Não abandono quem eu amo, ainda mais se precisa de mim. Venha, eu lhe guio!
-Ama a mim? Por que me ama? Eu talvez nem lhe ame. Somos tão diferentes!
-Talvez eu não ame nossas diferenças, as respeito. Algumas até admiro e me completam quando as vejo em você! Mas amo muito de nossas semelhanças, cumplicidade e até amo um único sorriso seu!
-Isto basta para arriscar a sua vida?
-Para quem ama nada é pouco.
-Pra que você se sacrificar por mim? Eu me resigno ao meu destino.
-Se você deixar de tentar viver, de se feliz, um pouco de mim morrerá também. De que me adiantará então viver sem ao menos tentar vê-lo feliz?
-Minha felicidade é responsável pela sua? Não deveria.
-Não disse que é!!!!! Mas tentar fazer feliz a quem se ama traz mais felicidade ainda, sabia? Se você quiser ser amado será o mais amado por mim, senão quiser será amado também, mas lamento dizer que menos.
-O fogo esta mais perto. Vá! As labaredas estão alcançando a copa das árvores.
-Eu já disse, só vou se você for. É difícil entender?
-Saia você daqui, o chão já está quente e tem fogo em muitos arbustos, veja!
Quando termina de apontar, um galho cai da mais alta das árvores e atinge a asa da águia que tentava voar em direção aos céus. Ela tonta perde o rumo, batendo num tronco já em brasas, desmaia e cai em parafuso rumo ao chão. Lépido o puma sobe numa pedra. Sente suas patas aquecerem, os pelos incandescerem, mas mesmo assim ele salta sobre os arbustos em chamas. Abocanha a águia com delicadeza e agilidade antes que ela se espatifasse no chão. Pousando numa área cheia de fumaça e fogo, ele luta! Os pelos em chamas, as patas se deformando pelo ardor, mas ele vai lutando! Olha para trás, sem soltar a águia, e vê sua cauda começando a se inflamar. Os passos ficam mais difíceis. A águia acordando sabe que sua vida está por um fio de esperança. O puma sente as forças se esvaírem e num último gesto, ele gira o pescoço para trás com a águia na boca e vira a cabeça para frente com toda força que ainda tinha, soltando a ave no ar. A águia cai numa clareira morro abaixo, longe do incêndio. Salva. O fogo cobre o restante da floresta. O puma não sai.
A águia sem poder voar se entrega ao pranto dolorido. Sente tristeza e já saudades. Enxugando os olhos com a asa chamuscada ela soube que seu amor foi forte até o fim, também, que o puma a amara mais do que ela dizia sentir. Ele a amou em silêncio e demonstrou quando ela mais precisou dele.
Por: ANDRE MELCHIADES Domingo, Agosto 20, 2006 Comentários:


O ESTRAGADOR DE MÚSICAS

Ouvíamos Annie Lennox gaguejar. Ela insistia, mas o refrão se repetia incessantemente: "Sweet Dreams (are made of this)". Ah se ela soubesse que os doces sonhos são feitos disso, tava ruim de sonhar com aquele bate-estaca riscando o som do Eurythmics. Olhava para o estragador de músicas e ele gargalhava com um fone nas orelhas que deviam ser grandes como as de um asno. Parecia um sádico a assassinar os acordes daquela música que de uma doce balada pop/rock virou um sei lá o quê/techno/dance/dos diabos. Pior ainda era o não final daquele rã- rã- rã- rã- rã- rã- rã acutíssimo e ensurdecedor. Aquele alucinado estragador de músicas que se julga um poeta, um compositor, um músico até; erguia suas mãos e saltitava como se houvesse feito um gol, mas de fato via-se nos olhos, lesados, que ele pensava: "Cara, eu sou bom mesmo!". Tsc, tsc, tsc; só porque um bando de gente animada pelo álcool, meninas de pouca roupa e meninos de muitos olhos pulam ao som da música que o DJ toca lá do alto, não o qualifica como um deus num altar ali exposto; era bizarro de se ver! E pra quê o boné?
Fui embora, entrei no carro, vidros abertos, brisa da madrugada, liguei o rádio, e claro, "Eurythmics - Sweet dreams are made of this. Who am I to disagree?" Doces sonhos são feitos disso. Quem sou eu para discordar?...e isto me bastou, cada um com seu sonho. Deixa o estragador de músicas sonhar que arrasou na "disco" e eu sonho com a menina dançando, ao som da música...que toca no meu carro.
Por: ANDRE MELCHIADES Domingo, Agosto 13, 2006 Comentários:


731

Um pouco inebriado ainda pude lembrar da alegria estampada ali. É, o tempo lento na dor acelera quando você sorri. Por isto ame sem pudor, sem limites, sem ressalvas, sem armações e sem omissões. Omissão também é mentira. Tolos daqueles que vivem da omissão, até mesmo como autopreservação, pois o destino enveredará pelos mesmos caminhos e fatalmente não sentirão o mesmo prazer. O destino é esquisito como nós, mas também é equilibrado: pende pra todos os lados, se hoje passou lento aos meus olhos, ontem foi fugaz. Ontem, é, ontem parece tão longe e agora sonho o meu hoje logo amanhã bem cedo, na mesma leitura fugaz e assim poderei tratá-lo como meu único ontem inesquecível que ainda não tenho!

Por: ANDRE MELCHIADES Domingo, Agosto 06, 2006 Comentários:



Adicione aos seus favoritos!



Óia eu!!!