"Vão Divã"

"Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois, se duvidas, Vem cá, olha estas feridas, Que o amor abriu no meu peito."
(Augusto dos Anjos)
VÃO DI "Que havemos de esperar, Marília bela? Que vão passando os florescentes dias? As glórias, que vêm tarde, já vêm frias."
(Tomaz Antônio Gonzaga)

OS BRINQUEDOS

-Não saia do playground!
Ela já madura com seus seis anos de idade, nem discute com a mãe e corre para os brinquedos estranhos naquele poço de areia.
-Oi, quer brincar comigo?
-Quem é você? - Pergunta a menina.
-Eu sou o Escorregador.
-Hummm, como é que você brinca?
-Assim, você sobe nas minhas escadas, senta aqui em cima e desce escorregando até ao chão.
-Ixi, mas assim vai sujar minha roupinha. Minha mãe não deixa.
-Então brinca comigo!
-E quem é você?
-Sou o Pião. Você pode brincar comigo assim, girando....iupi!!!!!
-Pára, pára. Subiu muito pó, sou alérgica!
-Calma, brinca comigo que fico paradinho!
-Como é que se brinca aí?
-Eu sou feito para as crianças treparem em mim. Por isto me chamam de Trepa-Trepa! Você sobe por estes canos, passa por este, chega aqui em cima e escorrega se quiser.
-Afff, vou ficar cansadinha e sou meio fraquinha, acho que não agüento
-Tudo resolvido! Brinca comigo que não sujo, não faço poeira, e nem precisa de muito esforço!
-Qual seu nome? Como que posso brincar?
-Eu sou a Gangorra! Você brinca sentando aqui deste lado, pode ver que ta limpinho, outra criança senta daquele lado e vocês só dão um saltinho com as pernas que sobe e desce, várias vezes. Sem esforço quase nenhum.
-Oba! Gostei, mas tem um problema!
Os brinquedos que já estavam tristonhos perguntam todos juntos:
-Qual o problema?
-Não tem outra criança para brincar comigo.
-Chame uma amiguinha. - Disse o Escorregador rápido.
-Mas eu só tenho amigos de brincadeira no computador e eles também não conhecem vocês.
-Chame-os para brincar conosco! - Implora o Trepa-Trepa.
-Eu não sei onde eles moram.
-Não sabe onde moram seus amigos? - Espanta-se a Gangorra.
-Não sei e também eles são muito ocupados para sair de casa.
Nisto ela abre sua bolsinha da Hello Kitty , tira seu celular, ainda de brinquedo, e diz subitamente:
-Ai, to atrasada pra minha aula de Inglês. Tenho que ir. - E sai correndo.
O Escorregador que se afeiçoou muito a ela grita como que querendo fazer amizade:
-Espera! Qual seu nome?
Ela vira para ele, ainda correndo, deixando seus cabelos loirinhos cair sobre o rosto sardentinho e diz:
-Eu me chamo Suzane. Adeus!


Por: ANDRE MELCHIADES Domingo, Setembro 17, 2006 Comentários:


O ANJO MAU

-Bom dia senhor. Aqui é da recepção. Há uma moça da Companhia de Turismo querendo lhe ver.
-Hã? Bom dia..Ah ta..Já desço.
Esfrego meus olhos, dou aquela espreguiçada quase acordando minha namorada que dormia linda do lado. Quando vemos beleza até no rosto amassado, olhos sujos e cabelos bagunçados de quem divide a cama conosco, ah, isto é amor mesmo! Ela pergunta quem era, mal termino de responder e minha amada já dorme de novo. Enfim, me arrumo e desço pensando no porquê da moça estar a minha procura.
Chegando ao saguão do singelo hotel já a reconheço, mesmo de perfil: cabelos aloirados, pele alva, cílios enormes e salto alto. Era a linda moça do guichê da empresa de turismo.
-Bom dia. Estava a minha procura?
-Bom dia. Estava sim. O senhor esqueceu seu comprovante de pagamento do cartão de crédito ontem. Vim trazê-lo.
-Poxa, obrigado. Nem havia sentido falta. Agora, como me achou aqui?
-Bem, o senhor preencheu a ficha para embarque no passeio e anotou o nome do hotel onde estava hospedado. Como o hotel é pertinho resolvi eu mesma trazer.
-Não precisava se incomodar, bastava ligar e eu iria...
-Eu fiz questão de vir!
Pairou um silêncio momentâneo. Quebrado por ela:
-Espero não ter lhe causado algum problema ter vindo.
-Não, não mesmo. Fico grato...
Novo silêncio. Desta vez eu tento quebrar o gelo.
-Você aceitaria tomar um café?
-Sim, mas sua acompanhante...
-Minha namorada! Está dormindo ainda, logo ela desce e se junta a nós.
Tentei manter as coisas bem claras, mas a jovem de vinte e poucos anos e olhar penetrante não se intimidou:
-Claro. Só um café porque tenho que entrar no trabalho em trinta minutos.
-Então, você trabalha há muito tempo lá? - Já entrando no restaurante do hotel.
-Mais ou menos. E vocês estão juntos há muito tempo?
-Você é sempre direta assim?
-Só para aquilo que eu quero muito. - Fico meio sem graça, mas também curioso.
-E exatamente o que você quer agora?
-Queria lhe conhecer, posso?
-Eu tenho alguém, você não tem também? - Apontando para a aliança de compromisso em sua mão.
-A gente está com alguém até aparecer uma pessoa melhor. - Cobrindo a aliança com a mão e com uma certa raiva de si mesma por não ter lembrado da jóia.
-Nossa, eu não penso assim. Estou para querer estar pra sempre!
-E ela, pensa assim? Duvido! Ela não aparenta ser como você pensa.
-Por quê?
-Pense, querido, a gente se olhou por muitos minutos, você brincou comigo no guichê, pediu dicas do passeio e fiquei com um sorriso que não saia do rosto enquanto gaguejava pra você.. Eu passei umas quatro vezes ao seu lado e ela não me percebeu. Até ouvi suas conversas sobre onde iriam almoçar e tudo mais. Quem não cuida...
-Eu olhei sim pra você e disse a ela o quanto lhe achei bonita. Ela até concordou. Às vezes olhar para alguma pessoa bonita é pura admiração, contemplação. Acredito que ela saiba que sou assim e por isto não tenha notado eu te olhar e vice-versa.
-Ela te conhece, pode ser. Mas você a conhece? Mulher que não cuida, não ama.
-É teu juízo, não o dela.
-Talvez, mas uma mulher conhece outra. Tome meu cartão. Guarde-o contigo e quando ela externar o que os olhos difusos dela mostraram você me liga. - Ela se levanta, caminha até meu lado da mesa, me ergue para um abraço cheiroso e demorado. Um beijo no canto da boca e um sorriso de adeus.
Voltei para o quarto e dormi o sono dos justos, mas com uma dúvida na cabeça.
Meses depois:
-Alô, Priscila?
-Sim, quem fala?
-Emperor Hotel lhe diz algo?
-Emperor? Claro, é você mesmo? Eu sabia que me ligaria!
-É, eu liguei mesmo. Você estava, em parte, certa por isto liguei.
-Por que só em parte?
-Ela realmente não cuidava de mim.
-Era evidente, isto porque lhes vi uma única vez.
-Ainda tenho muito que aprender com as pessoas.
-Aprendemos todo dia. Eu tentei lhe adiantar umas aulas, você que não quiser ver. Agora, já que você está sem ela, poderia vir me ver!
-Esta é a parte que você não estava certa.
-Como assim?
-Não quero alguém como ela. Quero alguém que cuide e me respeite, para ter no mínimo o mesmo de mim. Até onde me lembro você tinha alguém, o que posso esperar de algo contigo que não a mesma atitude na sua busca de alguém melhor?
-Toda busca tem fim!
-Estou recomeçando a minha, sozinho. Um beijo!


Por: ANDRE MELCHIADES Segunda-feira, Setembro 11, 2006 Comentários:



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Óia eu!!!