"Vão Divã"

"Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois, se duvidas, Vem cá, olha estas feridas, Que o amor abriu no meu peito."
(Augusto dos Anjos)
VÃO DI "Que havemos de esperar, Marília bela? Que vão passando os florescentes dias? As glórias, que vêm tarde, já vêm frias."
(Tomaz Antônio Gonzaga)

CARAPAÇA

Muito bonita ela ainda estava, mas já não mais brilhava. Pairava em seus olhos uma negra névoa de maldade, egoísmo talvez, mas é maldade ainda assim. Vestia uma carapaça que lhe protegia dos infortúnios da sua tão bem arquitetada vida, compaixão era seu maior infortúnio, livrar-se-ia dele em breve! Rompeu em passos decididos carregando sangue nas mãos, notava que entre seus dedos escapavam-lhe outras vidas que não a sua: "ainda bem", pensou. O caminho era longo, o sangue secou, uma lágrima passou por perto, mas não veio. Seguiu forte, como era de seu desejo. Muitos eram os novos sorrisos, ainda mais belos, com os quais presenteava a todos. Estava novamente bonita, desta vez rebrilhava e muito mesmo. Tempo vai e vai e vai, até que um dia uma nuvem nefasta ziguezagueia sobre ela. Acuada, recua, prende outro coração entre as mãos, aperta-o; sangue! Caminha....

Por: ANDRE MELCHIADES Domingo, Outubro 29, 2006 Comentários:


INDEFESA E BONITINHA

Era uma vez uma águiazinha muito pequenina que vivia com a mãe, o pai e um irmãozinho. A avezinha era tão pequena que fora tratada com muito zelo desde seu nascimento, pois havia o temor dela nunca saber se defender dos predadores, de não saber caçar seu alimento, nem nada.
Moravam todos numa árvore de copa enorme, tronco maior ainda e que dava a impressão até de ser uma extensão da montanha que ficava colada nela. Alojaram-se num galho espesso que se estendia em direção às pedras. O cume da montanha ficava pouco mais de metro acima do galho onde tinham o ninho. Poucas não eram as vezes que recebiam visitas indesejáveis a lhes espreitar lá do alto.
Quando a avezinha estava aprendendo a voar vivia caindo, mal se aprumava e já vinha o irmão acudir. Tantas outras vezes vinha o pai ou a mãe evitar com que ela se machucasse. Com o tempo diziam que jamais voaria, pois era muito frágil e para completar a águiazinha também era quietinha, não entrava em discussão nem pela comida. Assim ela vivia, à sombra dos outros. Não que ela gostasse, porém não se estressaria por isto e desta fragilidade aproveitava até. Teve uma vez que tentara voar até o lago para se banhar e os pais intervieram, levando-a nas asas. Ela, com seus olhinhos azuis revirados, batia com uma asinha sob o bico e a outra na cabeça do pai, como se pensasse: "Que saco!", mas não disse nada. Lá chegando logo foi para a água, escorregou, se molhando toda e rindo sozinha batia as asinhas no espelho d'água. Subitamente o irmão vem salvar-lhe de um pseudo-afogamento, tadinha, nem brincar consigo mesma podia. Assim que chegaram ao ninho a floresta toda parecia já saber: "Viram? A águiazinha, coitada, quase se afogou". Imaginem a carinha dela!
Houve então um dia em que os pais da avezinha resolveram sair para caçarem juntos, pois fazia tempo que não conseguiam comida para os filhotes. Pensaram que em dupla talvez a caça surtisse maior efeito, mesmo porque o filhote grandinho e destemido poderia cuidar da irmã. Chamaram-no e lhe disseram:"Cuide da sua irmã que nós não demoraremos. Não se afaste do ninho sob hipótese alguma". E foram. Não sabiam todos que lá de cima da montanha a raposa também ouvira a conversa e arquitetou um plano. Passados uns minutos depois da saída dos pais, o irmão fazia sentinela, olhando pra todos os lados, afiando as garras e tudo mais. A águiazinha olhava com desdém e risos. Segundos se passam e barulhos são ouvidos do lado oposto da montanha. Entretidos pelo barulho e pela inexperiência não notaram que lá de cima a raposa de costas para a árvore, jogava para trás com suas patas dianteiras algumas pedras para lado oposto de onde estava, fazendo com que ambas as aves pensassem que algum predador estava tentando subir pelo tronco até ao ninho. O irmãozinho corajoso, arqueou as asas, caminhou para o lado frágil da árvore, ignorando inteiramente o aviso dos pais e da irmãzinha que gritava do jeito que só ela sabia fazer, com jeitinho. Mal encostou da parte fina do galho, a raposa pula lá do outro lado, numa extensão do galho. Como esta parte da árvore onde estava o irmãozinho era fraca, não foi surpresa o galho balançar com tanta força, que o atirou contra a montanha, fazendo-o rolar pelas pedras até cair no chão. A raposa calmamente volta, descendo com rapidez e cuidado em direção a sua presa inerte. Quando ela se prepara para abocanhar o indefeso no chão sente um estrondo imenso na cabeça, um eco invade seu crânio e assim que vira para trás ouve um farfalhar de asas soprando em seu focinho, umas muitas bicadas forçando-lhe as pálpebras, fazendo seus olhos arderem. Garras pontiagudas tentavam perfurar onde tocasse e conseguiam tirar muitos gritos de dor. Acuada com seus olhos lacrimejantes, entre a fera que lhe espancara e as montanhas, a raposa não pensa duas vezes: sai em disparada, toda torta, dolorida e humilhada. Carregado no colo, o corajoso irmãozinho é deixado docemente no ninho. Abre enfim os olhos, sorri e os fecha de novo, com um sentimento de vergonha e de dores pelo corpo. Logo:
-Meu Deus! O que houve com você? - pergunta a mãe-águia.
-Bom, sabe....é que...eu...quer dizer...a raposa....
-O que houve? Ela machucou você? Onde? Como?
Vendo que o irmão não conseguia explicar e estava quase em choro largo, a águiazinha diz:
-Mãe, ele ta bem! Só está cansado porque a raposa tentou invadir nosso ninho e ele me salvou a vida brigando muito com ela.
-Óhhh, meu filhote!! Sabíamos que você protegeria sua irmã. - e caíram de afagos sobre o filhote herói que sob as asas dos pais olhava docemente para a águiazinha... a águiazinha indefesa, quietinha e bonitinha....

Por: ANDRE MELCHIADES Domingo, Outubro 22, 2006 Comentários:


MAR2

Soprava o vento o início da noite. Um par de saltos altos ecoa do saguão porta afora. Um corpo esguio de mulher se põe a fitar o nada do infinito ao pé da escada. Ela, linda, suavemente é atingida por uma rajada de brisa que esvoaça seus longos cabelos negros. Estufa o peito com um sorriso tímido e uma respiração profunda saúda a noite que se apresenta. Com a mão esquerda sutilmente prende sua saia bege, não muito curta, nem muito longa, e assim desce lateralmente os três degraus da escada. Passos curtos, decididos e delicados. Ela, de olhar distante, aparenta exalar um inebriante perfume ao passar pelos transeuntes que se acotovelam no semáforo ao vê-la passar. São um, dois, três, muitos, os olhares que lhe perseguem, que vigiam seu passeio pela calçada. Mais absorta ainda, nem se apercebe quando os lábios são involuntariamente umedecidos num deslize da sua língua, e, o vento, um tanto mais forte, parece ter sido impelido a se manifestar. Ela pára. Então como por magia uma fina blusinha de linha aparece para proteger seus braços. Com gestuais lentos ela desdobra a blusa: mãos, braços; veste-a. Um nó falso a prende pela frente e uma última puxadinha deixa a roupa perfeita. Seus passos são retomados num ritmo constante e calmo. O rosto de traços docemente delineados é acariciado pelas mãos finas que tentam se desvencilhar dos fios de cabelos que cobrem sua boca delicada. Enfim ela chega. Dobra a saia para sentar-se comodamente na cadeira da varanda do bistrô e seus pensamentos voam, sabe-se lá para onde! Sua alegria é latente e sua alma se enche de esperança, mas também não se sabe o porquê. Seus devaneios a prendem no mundo que só a ela é possível entender. Se há dor, não sei, mas há sorrisos, ela esbanja esperanças! Um gole da bebida quente e escura que pediu a contrai parecendo causar uma sensação de satisfação impar. Novamente ela sorri para si mesma, o sorriso acanhado de antes com um certo ar de malícia e profundidade. É, e nasce em mim o imenso desejo de lhe dar o abraço maior do mundo e o mais forte também, mas eu não a conheço. Dos céus, agora, uma tempestade desaba. Tudo desaparece em meio a tanta água e quando subitamente a chuva pára, minha musa também some. Mesmo acabrunhando vejo que nada me resta senão fechar minha janela e dormir. Agora ao menos tenho lindos motivos para sonhar.

Por: ANDRE MELCHIADES Quinta-feira, Outubro 05, 2006 Comentários:



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Óia eu!!!