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"SACARINA (você não é o que parece)" *
Ela vigiava seu sono. Escapava do amado um leve suspiro. Eram doces seu hálito de anjo e o veneno dos seus sonhos de traição. Jazia seu amor e ela não sabia; sentia apenas. Tinha que amor era para sempre, as escolhas seriam para sempre ou simplesmente para nunca mais, acreditara que nada se amava pela metade, porém nunca mais é uma promessa que jamais soubera cumprir.
Finalmente o amado desperta. Olhar perdido de sono acabando e uma simpatia ímpar de peso na alma lhe fez dar um beijo seco nos lábios da menina que inesperadamente sorriu. Por minutos pensou numa vida toda e cogitou em dar de ombros, passar mais uma vez pelos burburinhos achados das incursões do amado, mas uma troca de nome ao que ele lhe diz bom dia trouxe novamente a ira ao seu peito, trouxe enfim o "nunca mais". Passou, ele sequer percebera o equívoco, levantou-se em busca das roupas que ainda, cúmplices da sua afoita chegada, estavam espalhadas pelo quarto. Alheio ao que acontecia na cabeça da, dita, amada agachou-se para apanhar a camisa e num súbito instante pode se ouvir á léguas de distância um grito forte oriundo de uma faca atravessando lentamente um peito inerte. Nada se ouvia mais. Então o farfalhar de aves sinistras interrompe o silêncio que perpetuou aquela cena: uma mulher sobre seus longos saltos bate a porta atrás dela, deixando na beirada da cama o olhar deprimente de um homem adulto chorando seco com uma aliança na palma da mão esquerda, tendo a outra presa ao anular da mão direita. Desta vez, sim, ela o usara para os instintos mais primitivos, o possuíra e satisfeita se foi. Sequer olhou para trás, pois senão voltaria, sabia de sua fraqueza, de sua bondade talvez e do seu amor então, ah, nem se fala.
Caminhava pensando que a faca que cravara no peito do ainda amado doía mais nela do que nele e iria doer ainda por muito, muito tempo. Não que desejasse, mas sabia que um dia a faca enferrujaria no peito do amado e aí sim, sua dor seria finalmente latejante. Só ansiava que quando isto ocorresse o ferimento que também lhe causou estragos já estivesse cicatrizado, pois o amara mais que a vida.
Toca o telefone, era ele, com a faca enferrujada no peito...
* Ouvindo Érika Martins, então....
Por: ANDRE MELCHIADES Domingo, Janeiro 28, 2007
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UM BREVE ADEUS
Quando ela abriu os olhos a tal luz branca não estava lá. Não havia luz alguma. Também não havia passado breve filme nenhum sobre sua vida naqueles instantes. Pensara que se estivesse viva, não teria nada mágico em ficar perto da tal travessia. Precisava saber se estava viva, mas de olhos abertos só via o teto branco e ouvia uma espécie de apito agudo de uma máquina em intervalos cíclicos. Respirou fundo e o peito doía. Abaixou os olhos e viu-se presa por um emaranhado de fios, percebera seu estado de morbidez. Vinha agora à mente os seus últimos momentos de lucidez antes de acordar ali onde estava deitada:
"Caminhara ofegante pelas escadarias da empresa, com papéis em baixo dos braços, folheando outros tantos e lendo avidamente um em especial. Carregava ainda o celular junto ao ouvido, discursando em monossílabos e pensara naquele breve instante que não tinha perspectiva nenhuma para a noite, para o final de semana, para o ano; a não ser resolver aqueles problemas. Sua vida havia se tornado amargamente rotineira e sem graça, meramente cotidiana. Nem dos poucos amigos, se um ou dois, tivera notícias havia anos. Pensara que nem o nome do porteiro do seu prédio ela sabia e tampouco ele sabia direito quem era ela. Deu-lhe um aperto, será que o porteiro sentiria sua falta se ela sumisse? Sim, aquele porteiro que não poderia descrever, pois nunca reparou nele. Quem sentiria sua falta? Quem choraria sua perda no seu último dia? Um enorme vazio se instalou dentro do seu peito. Tudo isto passara ao mesmo tempo em sua mente, mesmo falando ao telefone, pensara em tudo voluptuosamente, mas de súbito o aperto se intensificou e o dia virou noite. Pronto, acordara ali naquela maca totalmente inerte."
Lembrando aos poucos lhe deu vontade de que tudo tivesse se encerrado por ali mesmo, mas via que lhe apareceu mais uma chance e pior, sabia que a usaria da mesma forma de antes. Desta vez uma lágrima escapa timidamente, não conseguia escondê-la de ninguém. Tentou contê-la com as mãos, contudo percebe que seus movimentos estão lentos demais para alcançar a lágrima antes que caia no lençol branco do hospital. Uma mão delicada, com dedos finos e brancos faz este trabalho para ela, não permite que umedeça o rosto. Virando devagar a face pálida ela nota uma estranha simpática vestindo branco, notadamente uma enfermeira, que sorri com doçura acariciando seus cabelos lisos, ajeitando sua franja. Uma troca de sorrisos e afeto se passa naquele instante. Sonhara tanto com uma dose de carinho sincero e descomprometido, porém só o conseguiu quase à morte, através de uma estranha. Sentia no toque da enfermeira um calor incomensurável, passava-lhe paz ainda. A visão tomou prumo e não mais se sentia tão fraca, sabia que se fortalecera com aquele gesto afetuoso. A enfermeira ainda dizia sorrindo coisas inaudíveis, mas certamente acalentadoras, sentia dentro da alma que era isto. A moça tenta se levantar, soltando todos os fios que a conectavam àqueles aparelhos. Atônita a enfermeira nota a rapidez descoordenada com que a moça tentara por a roupa e ainda repartir os cabelos com as mãos, arrumando os cílios; parecia em transe. Mesmo tonta, ergueu o peito e se pos a sair, mas não deu dois passos, caíra, lentamente, morta, nos braços da enfermeira que a ampara. Do momento de seu desmaio até o fatídico tombo ainda tivera tempo de dizer:
"-Enfim, não morrerei sozinha sem ter alguém que me ame ao meu lado, obrigada."
Por: ANDRE MELCHIADES Domingo, Janeiro 14, 2007
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(Sem título)
De olhos abertos fui. Não via nada. Fui assim mesmo.
Chovia e choravam também. Tantas eram as águas.
Nem escuro estava, mas não se via nada, nada.
Havia pessoas, de todos os tipos, todas as cores, todos os odores e não havia ninguém.
Os vivos não ouviam o meu silêncio, já os mortos não sei, ainda.
Então andei de um lado ao outro até cansar. Pensei: Por que eu andava? Parei.
Agora sim cansado estava. Cansei do cansaço, não de cansaço. E não sentei.
Ajoelhei-me, mas não por fé, pois esta me foi faz tempo, por medo Dele.
Implorei, faço isto de coração, e não chorei, lágrima uma nem tinha.
Quando muito havia dor, talvez pavor. Havia perdões a doar, a pedir.
Entregue. Despido de orgulho e de quaisquer ritos.
Ergui os olhos e se disse algo fora com eles.
Minha paga um sepulcral silêncio.
Cerquei-me apenas com meus poucos pensamentos confusos.
Triste. Apenas, triste.
Eu que já não era visto, agora também não via ninguém.
Agora escuro estava e eu não sentia nada, nem havia nada.
Talvez os mortos agora me ouçam, não, eles não ouvem, Ele não houve.
Por: ANDRE MELCHIADES Sexta-feira, Janeiro 12, 2007
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O CÁLICE E O VENTO
De cristal era sim ou talvez fosse, não sei.
Perene assim ficava serenando na janela.
Já nem lembrado era mais, jazia em seu tempo.
Apenas eram solavancos que lhe sobravam.
Parcos eram os olhos que lhe viam, se viam.
Então o vento teimou em visitá-lo, assombrá-lo:
-Um dia lhe derrubo - dizia faceiro.
E soprava, soprou e ainda sopraria mais.
Mesmo assim em pé ficava, resistia.
Não por teimosia: por princípios.
De tanto soprar o vento cansou e se foi.
Nunca mais de vento soubera, nem quisera também.
Porém um dia soprou rasante a noite: era o vento.
Deliciou-se vendo a lua brilhar no cristal,
Que lívido despencava do parapeito.
Poucos não eram os estilhaços agora no chão.
Pisado e esquecido o cálice largado ficou.
Até que outros ventos os cacos espalharam afora.
Os dias passaram lentos e voltou enfim o vento.
Passeou sobre a janela, alisando-a e aninhou-se ali.
Um aperto lhe deu e triste pensou:
- Onde estaria, que fim ele levou?
Por: ANDRE MELCHIADES Quarta-feira, Janeiro 10, 2007
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ELA NÃO VEM
O dia amanheceu. Amanheceu escuro como noite. Ela não veio, outra vez. Chovia e não era motivo, não havia motivos, apenas chovia e me iludia crer que este era o motivo. Mas não choveu a manhã toda, tampouco uma hora toda, e ela, não veio. Sabia que não viria, mas o desejo me trazia quem não via. O sol apontou, teceu cores vivas em meio às gotas de chuva restantes, via seu sorriso em cada brilho, os olhos em cada cor e sentia seu perfume em cada sopro dos ventos, mas ela não vinha; sequer um sussurro, enfim eu me enganara ouvi-los, iludia-me. Abri todas as portas, janelas, coração e ela não veio, talvez fosse medo, talvez não. Agora voltava a chover; ainda bem. Assim ela não vem, posso me furtar da verdade mais uma vez. Ela não vem porque garoa é quase chuva.
Por: ANDRE MELCHIADES Sexta-feira, Janeiro 05, 2007
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Óia eu!!!
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