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UM DIA (PÁSCOA) EM LISBOA
Tenho-lhe nas coisas que me lembro, que nos lembram, que nos encontro.
Nunca navegamos de desencontros, desacertos; tudo tão claro como a necessidade da distância.
Ponho um sorriso em sua face: sinto, ouço e espero.
Rua sua: são doces os perfumes de madeira; doce por mim, madeira por você.
Uma surpresa a cada voz de sono, de vontade, de dúvida e duvida?
E se me canso, durmo, sonho e lhe tenho em cada coisa que me lembrar.
Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Janeiro 31, 2008
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ÍNFIMOS DELÍRIOS
Ainda não é para mim. Tempo é demais, qualquer tempo é demais. Delírios rompantes são demais, deixe-os por menos, ínfimos já me servem. Agora tem uma garoa fina, fria; meio Sessão da Tarde e me lembro que garoa é quase chuva, quase chovo junto, mas não, porque não quero mais. Vou descer meus cinqüenta e seis degraus, correndo de olhos abertos, peito estufado, bradando meus desatinos com os braços esticados o mais possível e agarrarei cada gotícula que me saudar; afinal pelo menos a garoa veio me acariciar.
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Janeiro 23, 2008
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EM BUSCA DA INOCÊNCIA PERDIDA
Não que me ausente da vida, mas há um quê em omitir-se, vê-la como um espectador.
Tenho saudades dos sorrisos lindos e tímidos. Agora me parecem maliciosamente fáceis demais e dados a quem os quer. Encantava-me a vergonha sutil de deixar a pele vermelha, foi-se.
Furto olhares que não são pra mim: tão fútil é a paixão alheia.
Crio as pessoas que quero, pois das que vejo passarem a minha frente só preciso vê-las mesmo, afinal o tempo machuca e as transformam, mal as transformam.
Não se roubam mais goiabas, tiram-se vidas. Goiaba é mais gostoso, oras.
Dizem que os sonhos carecem de cifras, quem dera pudesse comprar os meus, que fosse um único. Meu delírio rompante é da alma, e pior, sei que não se pagará e o levarei pra eternidade.
Minhas palavras já não encontram eco, tudo bem eu nem ligo, tem que se chegar ao inferno para achar que o purgatório é o céu.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Janeiro 15, 2008
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PÓLOS N
Não havia um dia em que ela deixasse de ser agraciada pela luz da manhã. Abria a cortina, rompia um novo olhar e estava o sol a lhe paparicar.
Muitas manhãs de dias claros seus olhinhos se fechavam um tiquinho ao brilho do amigo incandescente. O sorriso que a moça despejava, o mais belo de Deus, era sua doce recompensa.
Acontecia de pós noites cansadas ficar a lhe esperar como num último alento e mais intenso vinha, trazendo um espectro de luz aos pensamentos difusos da menina.
Ainda que o dia amanhecesse turvo, de nuvens pesadas, sabia ela que sobre os cúmulos-nimbos estava o sol a lhe espreitar e cuidar, sempre. Era um carinho gratuito, desprovido de retribuição, de nada, era afago de amor apenas.
E houve que um dia parecia chover lágrimas de sangue. Descera do céu densas rajadas em forma de tempestade que se somaram com as águas que dela também minavam. Caminhou em meio ao jardim, rodopiando de mãos espalmadas para cima, fazendo arco com seu vestido rodado. O seu lamento trouxe lágrimas rubras dos deuses, chovia e as águas se misturavam, se sentiu só. Assim que seu pensamento ardilosamente versou sobre um falso abandono, espoca um raio intensamente brilhante que lhe dilata as pupilas. O raio cresce violentamente acima e rompe uma brecha entre as pesadas nuvens. Um tímido pingo de luz aponta brilhante e cresce. Ganha coragem, força, rasga as nuvens e ainda mais. Um cone abrilhantado a envolve, acaloradas as águas, todas, secam. Sentia-se tocada, protegida por um carinho distante, coisa sutilmente intensa. De sorriso refeito retoma seus pensamentos. A passos lentos, despede-se do sol, caminhando rumo á casa. Contudo sabia que agora o teria não só nas manhãs, o trazia definitivamente também dentro do coração para todos os momentos de abrir de olhos e também com eles fechadinhos.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Janeiro 14, 2008
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1978 (o último epílogo)
Era noite de lua azul. O céu insistia em presenteá-la. Contudo ainda não havia paz naqueles pensamentos distantes de seu controle, talvez fosse inaceitável subtrair sua certeza; às vezes fugaz.
Debruçou-se perdidamente largada sob o parapeito que circundava o terraço. Ela não era parte de si mesma naquele instante e deixou-se chorar, permitiu-se ser fraca. Soluçou de perder o fôlego, também gritou de perder o ar e as densas lágrimas tornaram ainda mais ocres os tijolos que lhes davam sustentação aos cotovelos que por sua vez tinham entre si o rosto pálido repleto de cabelos lisos, despenteados, grudados, úmidos.
Já não queria ser dona de qualquer resposta, nem queria saber a resposta, não havia resposta. Havia apenas questões e já perdera tempo demais no desejo de saber, conduzir tudo. Agora era tempo de deixar-se ir, de sonhar, de delirar:
- Estou com muitas saudades, você pode vir aqui hoje? – rezou.
- Nunca deixei de estar aí – jura que ouviu.
- Ah, só mais uma coisa, não tenha pressa pra ir embora, pois se vier é para sempre. – caçoando da veracidade dos céus
- Repito, amor, sempre foi meu desejo estar contigo e nunca deixei de estar. Deixa-me ir que agora é mais tarde que ontem e ainda não tenho uma flor* para lhe dar. – riu que desta vez ouvira sim!
- O quê? Ainda não tem? Mas tudo bem, se a flor for mais de duas eu lhe perdôo. – e já sorria.
- Espere por mim no portão que assim diminui a demora de poder lhe abraçar. – ah, ela estava nas nuvens.
- ........ - então não disse nada, ela está no portão à espera...desde já.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Janeiro 08, 2008
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DESESPERAR
Meus sonhos nunca foram em branco e preto:
[Verdejei por sonhos Palestrinos, algo intensamente platônico para não ter a obrigação da reciprocidade.
Deleitei-me por “Pequeno Sonho em Vermelho” e jurei eterna aquela mais de hora sentado de olhos vidrados.
Vesti-me da mais cândida brancura para receber tantos anos novos na vã esperança de conseguir apenas tudo, nada mais, somente tudo que queria.
Ousei furtar-me ao luto no derradeiro adeus usando um colorido que mais vinha dos olhos, do que da alma mesmo.
Mantive os amores perfeitos com seus montes de azuis serpenteando dentro de mim, mesmo se distante estivesse, mesmo se assim quisesse... e, se desbota, não sou eu.]
Meus sonhos nunca foram, estão dentro de mim.
Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Janeiro 03, 2008
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Óia eu!!!
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