Era um dia morno, quase de mormaço. Havia uma casinha no meio do nada. Cercada de menos ainda por todos os lados. Sentia-se no ar, uma paz, uma harmonia, meio monótona é verdade, mas era o ar sereno daquele quase deserto que esticava a vida docemente. O horizonte era vago, mas vagava na mente uma vã perspectiva de nele se perder ou se encontrar. Ora, isto cansava, ora era uma boa companhia.
Então trovejaram os tambores graves dos céus. Escureceu num estalo, vertiginosos ventos sopraram, alertando que a calmaria deixaria de existir dali instantes. Subitamente uma rajada mais forte estremece a casinha, a vila toda. Parecia que o horizonte se encolhera e trouxera o movimento do mundo todo para aquele marasmo. Os raios teciam cores azuladas nos céus, um espetáculo de talvez vida. Brotava uma vontade de sair correndo e se molhar nas caudalosas correntes águas que desciam os antigos córregos secos, que, já nem tinham esperança de germinar aquele também secos pomares ao lado, mas eram tantas as águas, tantas mesmo. Enfim, apareceu no turbilhão um rosto com sorriso de esperança, de meio desafio, meio receio; mas meio cheio é melhor que meio vazio. O sorriso foi se nutrindo daquelas forças todas, encontrando par em algum ponto daquele alvoroço e bailou, viajou, deleitou-se. Explodiu em densas nuvens o céu inteiro! Desabaram granizos enormes. Chuvas eram todas doídas, verticais pancadas d’água. Os ventos arrancavam as árvores no talo, todas estacas, todas as vidas.
Um sol do tamanho do mundo aparece, tímido, mas aparece. Ilumina tudo, todas as tragédias. Havia passado o tufão. Deixou seu rastro de destruição e abandono. Já não havia casinha no meio nada. Havia muitos restos de casinha, no meio de restos de nada. Olho para trás, não me lembro da calmaria, daquela monotonia da qual queria reclamar. O dia abre-se para um começo novo, mas não aponta um caminho, um destino. Olho teimosamente para trás, é inevitável, e não entendo mais nada. Abaixo a cabeça, penso. Ergo a cabeça, ando. Sem destino, sem casinha no meio do nada, sem nada, ando.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008
"PERDOA SE ME TENS, AMOR"*
Hoje sinto fragilidades de um anjo. Algo me comove ao saber que os anjos também choram, porém assusta, assombra vê-los assim frágeis. Não mais os vejo fortes, loquazes, seguros de si; eles padecem da forma mais cruel de castigo: amor. Pouco que restava de minha fé se vai, quando de fato imaginei que tivesse ido toda há tempos, pois não aceito que anjos chorem, que mártires chorem, que musas chorem; mas também me dói (e dor doída de mágoa acaba até com o amor) de nunca ver meu anjo chorar assim por minhas longas dores de amor; talvez o contrário, talvez não, talvez é a única certeza que levo pra vida; talvez.
*Trecho da música Perdoa, Meu Amor (C. Vieira), por Marisa Monte,
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Fevereiro 27, 2008
TONTICE
Antigos desejos nos assombram. Frustram os sonhos, tais como se nunca fossem nada mais que cruéis pesadelos; e pior, pesadelos recorrentes. Aterrorizam, mas passa; eternizam, mas passa; decepcionam, mas passa; eternizam, mas passa; machucam, mas passa; eternizam e passam.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008
Por: André R. Melchiades Domingo, Fevereiro 24, 2008
(EM) TRISTESSE
Ouvi de cantinho que a felicidade não pode estar nos outros e sim dentro de nós, conosco mesmo. Fosse verdade absoluta ainda teimaria e isto eu fiz, empenhei algumas míseras alegrias nos ombros de poucos. Pouco também esperei, desejei, mas esperei e desejei. Deixei meus braços estendidos e o que veio foi um vazio se aquietar no meu peito; ironia; o meu* não serve, nem quando a mim, nem quando aos outros.... se fosse diferente “não seria vida”.
Por: André R. Melchiades Domingo, Fevereiro 24, 2008
RUAS NEGRAS
Minha subjetividade me afasta do principal, por isto as meias palavras que digo se transformam em grandes verdades ocultas, veladas e assim vivo em paralelo. Até dado o momento deste paralelo se esvair, se for, me levar e enfim eu irei com um gostinho de ainda bem.
Por: André R. Melchiades Sábado, Fevereiro 23, 2008
A VIDA É FILME
O portão tornou-se ainda mais ocre após tanto tempo. Mesmo passado pelos anos, me deu amparo à zonzeira de ali estar e não ser mais nada, um estranho conhecido. Juntei-me à paisagem fria da recente madrugada e me compus, me senti parte do marasmo noturno. Fiquei espreitando o vento atravessar o portão, se espalhar casa adentro e sussurrar meu nome pelo corredor, cúmplice. Não houve eco, sequer murmúrios, não havia mais de mim. Juntei meus parcos pedaços, um pouco dos soluços, caminhei, deixando um dos últimos devaneios da minha vida tomando forma de adeus e parti.
Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008
VERDEJOU
Tingi meus sonhos com esmeraldas. Petrifiquei-os como estátuas de doces e amargas lembranças. Deixei-os inertes, jaz, naquele espaço que ocupou em minha vida e ali perpetua, mesmo que minha razão não aceite, mesmo que meu coração rejeite, é sua sina. Verdejei-os, pois das cores é esta a que nunca se vai.
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008
O ADEUS DE UM ANJO
Deixei a porta aberta e furtaram meus sonhos. Deixei-os ali inertes, amontoadinhos uns nos outros para que não aparecessem, não chamassem atenção, porém o brilho deles eram tão intenso que despertou a curiosidade alheia. Buliram neles, tiraram do lugar, remexeram até eu não os ver mais. Meus sonhos, tadinhos, eram tão inocentes, puros, não faziam mal a ninguém e foram assim usurpados do meu convívio. Errei de não pô-los, exclusivos, sob meus olhos, mas eu os pus numa redoma de devaneios e os alimentava de esperanças furtivas, só minhas, nunca os impus a ninguém. Não, não eram reais, nada era; mas eram a realidade da vida minha. Traziam-me alento com algo que, talvez, nunca viria e assim perpetuaria minha existência mais docemente, mas não se pode mais viver de sonhos, não se pode mais ter oito anos, a vida não deixa. Tomara que onde estiverem posto os meus sonhos cuidem deles, os usem com amor, pois nos meus momentos de abandono e vazio eram eles os companheiros mais fiéis.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Fevereiro 19, 2008
A CONVERSA COM DEUS: O PEDIDO
Então o anjo me disse:
- Você pode pedir pro meu Chefe me desculpar?
Embasbacado, sem saber ao certo o que o anjo fizera, mas cúmplice, prometo que sim:
Toc, toc.
-Quem é?
-Adivinha?
-Puts, você de novo?
-Hei, Deus, olhe a língua! Que exemplo.
-Tá, tá, ta, desculpe, mas o que vai pedir desta vez?
-Poxa, assim magoa, viu?
-Ah vá, sem drama, você geralmente me procura quando algo ta estranho, desembucha.
-Que nada, ás vezes até dou uma passadinha aqui para ver como tão as coisas.
-Contaria nos dedos...mas diz aí, qual é a bucha desta feita?
-Magnânimo é o seguinte, tive uma visão. Era uma luz brilhante que explodia nos céus, raios, trovões, montanhas pulsantes, mais trovoadas, rajadas de vento, garoa fina, depois chuva forte...
-Páraaaaaa de enrolar. O que você quer?
-Bom, é simples na verdade. Vim lhe implorar alento ao coração de um dos seus, dos nossos, sei lá; de um anjo.
-Qual quem?
-O meu anjinho azul.
-Demorou...É o que me faltava. Você bebe, é??
-Que humor, pelo amor de Você!!! Por que tanta dureza neste coraçãozinho?
-Humor? Dureza? Veja se você, mero mortal, me entende: não foi você que tava triste com este anjo tempos atrás? Que fugia dele em suas lembranças até?
-Idolatrado, não nego que tava triste com o anjo, mas você disse bem: sou mero mortal e assim exagero.
-O que o fez mudar?
-A vida me mudou e vi com os olhos da alma, Senhor. Meu anjo erra, como agora diz ele que o fez, e talvez quem sabe errou comigo. Talvez quem sabe não errou comigo para não errar depois. Talvez até tivesse me poupado de erros que viriam. Não sei.
-Mas seus olhos marejam pelo anjo, como o fez agora, que lágrimas são estas?
-São lágrimas de amor, mas não são de anjo. Lágrimas de anjo são vermelhas como sangue e meu anjo é todinho azul, me dói mais a dor dele que a minha.
-Que quer de mim então, criatura?
-Cuide do meu anjo porque ele não pode ser cuidado por mim.
-Por que tamanha preocupação?
-Porque meu anjo sempre foi forte ou sempre fingiu muito bem, até quase se enganava, mas agora ta fraquinho até pra se enganar.
-A qual preço quer que eu o cuide?
-Ao preço que eu tenha que pagar.
-Qualquer preço?
-Quase. De tudo que eu tenho hoje, a melhor é a boa lembrança e bem-querença do meu anjo e ao meu anjo. Não me furtando isto, me venham as contas.
-Só lhe caberão as lembranças, suportará?
-É só o que tenho, não ambiciono nada mais, apenas sonhava, delirava, mas sei meu lugar, somente não controlo meus delírios rompantes. Faça-o e chorarei, meio alegria, meio tristeza, afinal meia alegria é melhor que nenhuma.
-Mesmo abrindo mão do seu sonho, único aliás, penso que o pedido não partiu de você...
-Senhor, é dito que para se chegar ao Pai, não se deve fazer por meras palavras soltas ao vento e sim através do coração? Meu anjo pos o coração à prova, humildemente. Ele se despiu de qualquer orgulho e quase em prece me pediu para ter contigo. Lembre-se: somos, eu e o anjo, meio avessos ás crenças e fé.
-É, para que ambos me desejassem em suas vidas, realmente o caso requer mais compaixão mesmo. Então, que seja feita a Minha vontade. Agora, que tenham uma lasquinha de paciência e fé, pois senão já viu.
-Pode deixar. O anjo que tenha a paciência que da fé cuido eu.
-Então chega, né? Vá comigo!!
-Opa, pode deixar. Fique com Você também!
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008
SEM COMENTÁRIOS
Evitei as lágrimas, os anjos param de chorar, eles têm que cuidar de tantos e de si. Anjos choram doído, mas choram de uma vez, desabam rios de lágrimas, mas é um único alvoroço apenas. Aos anjos, como às poetisas, a dor é mais doída, o sentimento é mais sentido, até maquiam seus semblantes, mas se erguem do lamaçal com asas ainda mais brilhantes; pena que às vezes demoram em se ver no espelho. Ah, mas eles se vêem, vêem sim; já vi anjinho assim no espelho lá de casa, faz tempo, mas eu vi sim.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008
PERMANECER, CONTINUAR
Não pude dar asas ao meu anjinho azul, não, não deveria ter sequer pensado isto, mas, sou humano, errante: pensei.
Pus-me em resignação a seu proveito comedido, e, creiam: senti a vida fluindo em minhas artérias. E o anjo pouco usufruiu, nadinha na verdade.
Poderia, sem desonra, sentir-me pleno agora, poderia mesmo deixar-me daqui* e me daria por feliz, mas é somente quase, pois meu anjo tornou a chorar.
Deveria ser proibido aos anjos chorar.
Vetei-me ao adeus, então em vigília fico aqui (dor em coro), mas somente se o anjinho carecer, tomara que não...minha única meia verdade até hoje ao meu anjo.
Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008
LÁGRIMA DE ANJO
Eu ouvi um anjo chorar. Vinha de uma dor contida, contínua, mas perene; este é meu anjo: não se desmancha. Ofereci, humildemente e inocentemente, uma paz, um afago, um afeto. O anjinho até suspirou e chorou diferente, menos doído. Depois o meu anjo nem chorou mais, até ria, o sorriso mais lindo de Deus. Mais depois ainda até quase se esqueceu do que doía; lágrima de anjo é séria como sangue, não pode se esvair muito. Em silêncio, agora suspiro, sei que tentei, quis eu ser o anjo do meu anjinho azul.
Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008
IRONICAMENTE
Ironicamente, meus olhares turvaram os sonhos. Já não vejo as cores em cores. Se sazonal, não sei, não adivinho o saber, mas já não vejo sonhos azuis, ironicamente.
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008
[ ]
Só para mim. Somente a mim. [Ouve,] se ouve: por mim.
Um universo de mim mesmo [é seu mundo], qualquer mundo, quaisquer.
Meias palavras, meia vida alheia, [minha vida] toda.
São os olhos que vejo, os únicos que valem, os que me cabem[!!!]
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Fevereiro 12, 2008
VISCERAL DEMAIS
A parte de mim que mais sou eu é visceral.
Pouco fui pra fora de mim, talvez menos que pouco, só não posso dizer que nunca.
Outro pouco de mim é perpétuo nos disseres, mesmo se contradizendo em míseras ações incertas.
Pouco mesmo é o que me conheço, não falo de mim pra mim mesmo; só me esculacho.
Ironicamente, sei de tudo sobre mim, mas não me reconheço, sou mais quando não sou nada.
Meus pecados, todos os têm, são só meus, este é um pecado que não me imputarão.
Quem já viu uma lágrima escorrer e fazer ponte entre os lábios saberá me ler, mas dificilmente deixarei entender.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008
TIC, TAC, TIC, TAC
O sono não me quer. Há tamanha ausência em mim mesmo. Queria outro milagre após infindas preces atendidas, mas seria abuso. Ausentei-me de mim, não me encontro em nada de mim, quis o abraço, meio aos soluços e o abraço não pude, não pode, até entendo, compreendo, mas não se nega um abraço. Quem sabe neste alvorecer ainda eu durma e possa em sonhos furtar abraços de anjos dos céus*...quiçá..
Por: André R. Melchiades Sábado, Fevereiro 09, 2008
DULCÍSSIMA
Mel, pouco, mas é doce, deixo ser pouco.
Doce, pouco, nem enjoa, nem enoja.
Sede, menos, doce pouco.
Ao meio, tanto amargo, meio-amargo, ainda doce.
Escorre, se derrete, lambida furtiva.
Suspiros, de amor distante, de doce torturante, qual?
........Se fores o doce: lambuza-me, louca!!
.............Se fores o amor: nem dói, se dói, dor pouca, amor é doce*.
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008
MORFEU
Sonho os seus sonhos, aqueles tantos que sei e tantos outros que imagino serem seus. Os quero todos pra mim também, assim são os meus: deliciar-me com os seus desejos e deleites. Tardeia, mas não esmorece; esperança e amor meus; pena causa à demora, à você. Vem, lhe espero na esquina da minha vigília noturna com os devaneios insones.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Fevereiro 04, 2008