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COINCIDÊNCIA
Eu não tenho ninguém.
Tenho sonhos possíveis de amores um pouco impossíveis.
É irônico porque não dilacera o coração, só arranha um tiquinho a alma.
Eu não tenho ninguém,
Mas ela me tem, no quanto e nas vezes desejadas.
E gosto e amo e sorrio; e cicatriza a alma que arranha,
Mesmo eu não tendo ninguém.
Deliro porque o dia é novo a cada manhã de sol e também de chuva.
Haverá ela que me terá um dia,
Talvez não, talvez nunca, talvez outra, talvez não.
Hoje, eu não tenho ninguém, nem nada,
Nem luxúria, nem afeto, nem ternura, nem nada.
Pertenço-me aos meus devaneios apenas.
Eu não tenho ninguém, você também.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Março 25, 2008
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ALMOST “BARTLEBY*”
As cinzas de sua labuta espalharam seu suor, a angústia do trabalho sofrível. Moedas tantas largadas ao chão, desprezível paga por devassável vida a tomar-lhe de ordens, desaprovações, dúvidas. Quem o desejava bem não compreendia a imensidão de seus pensamentos desconexos, pouco inteligíveis; nem com toda crença ferrenha alcançava os meandros daquela mente insânia; fé demais até cega. Os olhos perderam o foco, estáticos, inertes. A vida escapava por aquele semblante inexpressivo, de um não sorriso de todo instante. Era quase pena, quase ira; na maior parte era indiferença mesmo, somos cruéis.
Olhei-me através dele. Via um espectro de meus momentos mais íntimos; somente meus. Não, não quisera me ver naquela cena, naquele mundo espremido entre poucas paredes, tampouco naquela alma distante de uma vida ainda mais distante. Respirei o mais profundamente que pude, guardando o soluço de quase lacrimar e escondendo para sempre o Bartleby que carrego comigo.
*“Bartleby, o Escriturário”, Herman Melville (Bartleby - Sesc Paulista)
Por: André R. Melchiades Domingo, Março 23, 2008
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A ETERNIDADE DE UM CÃO*
Uma vez certo cão se ajeitava em sua casinha contemplando as estrelas. Observou cada uma delas como se fossem olhinhos a lhe fazer companhia, a lhe cuidar á distância. Suspirou uma tristeza de segundos que se foi com uma coçadinha sob ás ancas. Voltou os olhos para cima, porém nem houve tempo para ficar contemplativo e foi vigiar seu território quando uma coruja ousada quis atiçá-lo. Destemido, mas cansado pela avançada idade, deu dois ou três latidos roucos e mais pelo tamanho da sombra que seu corpo surrado projetou do que mesmo pela sua presença, espantou a ave noturna. Cambaleou em direção aos paninhos da sua casa e cansado esticou a língua ao pote d’água. Sentia-se estranhamente inquieto, sabia apenas que a alma estava feliz, sempre, como sempre, feliz. Olhou em direção ao portão e notou uma silhueta magra e lhe saudar. Como todas as imagens, era outra em preto e branco, quase altiva, mas com um sorriso carinhoso de quase uma vaga lembrança. Por instinto, manteve-se estático, de rabo ereto, esperando um movimento a seguir do seu, até então, opositor. O que lhe veio foi inesperado: ”Alf, Alf”. Sem saber o porquê seu rabo perdeu o controle, alucinou-se. As palavras, as quais adoravam que ele atendesse quando as pronunciassem, lhe envolveram e ele sorriu, um sorriso canino. Sem perceber, fora atropelado pelo pequenino cão com cara de chocolate, tanto mais jovem e mais arteiro que ele e sentiu uma dorzinha no coração de ver aquele conhecido estranho tombar o outro pra lá e pra cá. Deu uma vontade de latir, pedir carinho, mas tava cansado demais pra isto. Deu uma última olhadinha e viu que o terceiro cãozinho, o mais mal humorado deles, também já recebia afagos, porém o que lhe doía era não ter ganhado sequer uma passadinha de mão na cabeça e aquele achocolatado todo oferecido, ganhava até festinha na barriga. Caminhou para dentro da casa e só ouvia as brincadeiras dos cachorrinhos lá fora, ficou com raiva de ser cão e ouvir tão bem. Ajeitou-se perto da manta que estava no chão e pensou na vida, em toda curta lembrança que tinha, pensou no mais importante: “onde estaria minha ração?”. Inesperadamente, como sempre acontecia, a ração aparece na sua frente, a mão que lhe estendera o rango era familiar, odor familiar, gesto familiar, era sim, daquele desconhecido familiar do portão. Balançou a cauda, sentiu a mão agora lhe acariciar, viu os outros dois cachorrinhos implorando para ter tudo aquilo que somente ele tinha na eternidade de alguns instantes. Suspirou, um suspiro de amor, de uma lembrança distante, de um carinho gratuito, quase ronronou, heresia! Agora estava ali largado, de patas estendidas, se achando o cão mais amado do mundo. O cão com fuça de chocolate e o outro de focinho fechado, se entreolhavam imaginando que o velhinho estava viajando em suas reminiscências e correram para fora. Sozinho agora olhava através da fresta da porta aquelas estrelas a lhe fazer companhia, mas agora ele lembrava que uma daquelas tinha um rosto estranhamente familiar e amanha já não mais teria. Debruçou sobre as patas dianteiras, pensou que era uma dádiva ser um cão, pois cada dia era uma eternidade e cada lembrança, boa ou ruim, durava até a próxima lembrança, durava o que tinha que durar. E dormiu.
*Como os Royalties não foram pagos, os cães pediram para retirar seus nomes do texto.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Março 17, 2008
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PAULISTA 1842
Garoava. Vinha num vento leste que trazia um pouco de uma noite fria. Meus passos ecoavam dentro do meu peito e faziam dueto em suas batidas secas, arrítmicas como meu coração insiste em ser. Senti uma saudade de mim mesmo, dos dias de sorrisos fartos, de inesperadas sensações, de felizes perspectivas embaralhadas, de um nada com gosto de tudo.
Quase vi um vulto de melancolia ceifando minha trilha, mas não, não tenho tempo para existência confusa e retrô, tenho apenas tempo para mim e para quem me vê no que sou de bom, no que sou de ruim, basta eu que sou meu pior crítico.
Enfim chove, meus olhos ludibriam os passantes e a mim também. Carrego um sorriso e uma lágrima; somos complementos, e, de peito estufado não olho pra trás, a vida nasce agora, todo dia.
Carrego inda mais quem queira, coração vadio não tem dono, nem pena, tem instinto apenas.
Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Março 13, 2008
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DOIS MIL E DOIS*
Discretamente trêmulas, as mãos minhas, tentavam lhe dar conforto, arredia, arrefeceu-me. Então a acariciei em silêncio e à distância. Perdida nos pensamentos sobre si mesma perambulava o inconsciente e me dizia às lágrimas das fraquezas que lhe assolavam o coração, talvez da tristeza, talvez da dúvida de ser gente, não sei, não soube. Da sua acidez pouco era visível, mas mesmo mínima era intensa e ainda se mostrava, a protegia. Mas ali eram os olhos puros que estavam e se não desabou foi quase. Não houve piedade consigo, sorriu o tanto e mais que pode, ergueu a cabeça, maltratou os olhos com as mãos, respirou profundamente, relutante doou-se ao conforto do toque de um simples carinho. Embora não houvesse sorriso na alma, havia um lampejo à busca, sábia, muito. Houve um espaçamento no tempo, braços que se entrelaçaram, perfumes que se confundiram, pêlos que se roçaram, suspiros, poucos é verdade, advindos do coração inquieto e assim docemente trouxe os lábios lindos para um discreto beijo, para sempre.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Março 11, 2008
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GIRAMUNDO
Vivo numa roda. Uma roda torta que dá saltos, sobressaltos. Alguns acidentais, outros intencionais, mas não sou eu que a conduzo, é o vento, a brisa, o tufão, tudo depende do dono da roda. O dono é cruel, sádico, adora emoções contundentes, pois para ele tudo é um espetáculo, a vida que gira na roda não é a dele. Por vezes até tenta ser humano, mas não, ser Dono é não se prostrar, comover-se, é não sentir a dor alheia. A roda é rude, não pára nem se o vento cessa, jamais, a roda sempre vai, inerte, mas vai. Tem gente que salta da roda, mas nunca se soube de quem foi, nem o que o dono da roda fez, se fez. Não gosto da roda, nem quando desliza ao sopro da brisa. Porque sei que depois da calmaria ela se enerva, se multiplica nas voltas que o mundo sofre, mas, aprendo, tiro proveito de cada doce bailado, a felicidade na roda é efêmera.
Hoje, daqui de cima da roda, nem posso dizer da alegria, efêmera, que me atordoou ontem, nem da dor, irônica, que me acometeu, também ontem. O dono da roda é cruel, sádico, mas tem uma coisa de que ele não se dá por conta: ele controla a roda, mas não quem está nela.
Por: André R. Melchiades Domingo, Março 09, 2008
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QUADRO DE VIOLETA
O céu é azul quando está de bem.
O mar fica mais azul quando está também.
O azul não é só uma cor, azul é sina de amor.
O azul rebrilha na luz, a luz reflete em tom azul, a luz*.
Violeta é azul e desdenha da luz: belezas que se repulsam.
É como uma nódoa azulada no retrato antigo, um quadro que despenca e cai.
Doce, já quase é nada, ínfimas lembranças, meu azul se desbota e se vai.
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Março 05, 2008
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(C)LOSER
Dias de noites vazias:
Tantos são os vis desejos,
Tantos murmúrios contidos,
Bocas seladas sem beijos,
Tormento na alma que vagueia insone,
Silêncio sepulcral nas esquinas me consome,
Medo sem volta,
Coração sem resposta,
Verde que murcha,
Esperança em repulsa.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Março 03, 2008
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CAMINHOS
Uma luz. Pouca. Quase nada. Brilha, ainda menos. Luz opaca, amarelada, turva. Ei-la que me conduz no caminho, meio caminho, maus caminhos, quais forem.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Março 03, 2008
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Óia eu!!!
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