Se eu fosse uma reta criada com meu próprio punho, por mais que me esforçasse, por mais preciso que conseguisse ser, nunca conseguiria a plenitude de uma reta exata. Eu teria imperfeições, meus traços seriam distorcidos em alguns pontos e talvez fossem curvilíneos em outros trechos. Mesmo lutando pra ser uma reta teria orgulho das curvas que faria e muitas vezes me enrubesceria pelos desvios mais acentuados. Contudo eu sei que por mais torta que fosse minha reta ela teria um destino, um doce objetivo e jamais atropelaria alguém para a ele chegar.
Por: André R. Melchiades Domingo, Maio 25, 2008
ANTÍTESE
Queria apagar todos os poemas de amor, pois não os sinto mais. Não sinto os pés levitarem, parece que tamanha incongruência virou desamor. Tantos amores e tantas dores, quiçá o não amar traga menos desalentos. Não suponho tornar-me amargo, mas quero tornar a olhar o horizonte, e, assim aceleradamente seguir seguro dos meus medos, que sou parte deles, mas não seu refém. Sou ainda parte de tudo isto, parte igual de cada um de vocês, apenas com uma singular diferença: se lhe magôo, me magôo mais.
Por: André R. Melchiades Domingo, Maio 18, 2008
À PERSÉFONE por Zeus
Que lhe darei, dos céus advindo, uma beleza sem igual. Encantos todos serão suas armas. Terá olhos miúdos e olhar instigante. Longas madeixas serão as telas de sua vaidade. Sorriso em pecado nos lábios grossos nascerá a cada suspiro seu. Haverá, sei que sim, um acolhedor e belíssimo colo de dar vontade de ninar, inclusive. Verterá medos em doces alegrias. Como se fossem seus, terá a todos de seu caminho. Ainda lhe virá a sapiência de quem finge não saber e terá a gana do não ganancioso.
Porém, que lhe caiba, usar do encanto para acalentar quem careça, abrir os olhos miúdos por quem lhe dê (daria, dará) os atalhos da vida, ceder o colo num carinho sem dia ou razões certas e que você aprenda também, até mesmo aprenda a amar.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Maio 16, 2008
CONTO PARA MINHA MORTE
No dia em que o cometa se foi levou minha alma embora. Foi o fim do mundo. Não houve mais dias de céus azuis, ficaram escondidos por trás das caudalosas nuvens postas pelo cruel corpo celeste. Passaram dias fingindo-se dum colorido quase lindo, mas eram tão falsos quanto meus desejos de acreditar neles. Mas houve um dia de tempestade avassaladora. O cometa regressou e por mais que eu não reconhecesse meus sorrisos eles voltaram na expressão mais pura de afeto. Os dias então começaram a retomar cores, alento e coisas comuns aos sonhos dos mais infantis aos menos pueris. Porém, como é próprio dos cometas, eles vêm, eles vão e assim todo dia eu morro um pouco vendo o cometa indo e nunca me levando...
Por: André R. Melchiades Domingo, Maio 11, 2008
ADEUS QUIMERA
Este é(?) o último conto de um cansado sonhador.
Não tenho mais tempo para sonhar, talvez seja até porque a todos eles, sonhos intensos, já reverenciei e não posso ousar ambicioná-los pela eternidade, nem que pareça curta a minha.
Minhas longas falas de anseios melosos talvez pecaram pelo excesso. Palavra curta foi-se de mim há tempos, parece que nunca a tive, nem me lembro se tive, só me encontro em longas e desarticuladas serenatas ao pé do ouvido.
A complexidade de ser nascido sob câncer e atormentado por escorpião ainda tornou-me mais turvo aos olhos de outrem e causou pena aos sonhos escassos agora.
Então ao acaso, que é o único Deus que conheço, deixo entregue os sonhos perdidos, uns quase esquecidos e vou semear sorrisos gratuitos nos lábios de quem em meu caminho passar, sem sonho, sem delírios, sem deleites, sem você, amor.
Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Maio 05, 2008
MAIS QUE AMOR
Eu vou cuidar do seu coração partido.
Farei seguras suas noites de medo e desesperança.
Redirecionarei cada passo incerto que sua vida queira dar.
Não deixarei jamais o sorriso abandonar seu rosto, pecado mortal se não o fizesse.
Guiarei seus olhos quando estiver no sereno e a serração lhe turvar o destino.
Ainda lhe farei forte para que seus entes possam tê-la quando for do acaso.
E assim, querida, quando estiver pronta para amar irei embora, levando meu coração comigo.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Maio 02, 2008