"Vão Divã"

"Todo amor é eterno, e se acaba, não era amor"
(Nelson Rodrigues)



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Brazil, SP, Interlagos, Portuguese.



CLARA

Quando Clara adentrou ao saguão todos os olhos da fidalguia eram para ela. Tornou-se costumeiro ter a beleza reverenciada por tantos e a moça viu nisto um ardil conveniente. Já não se vestia mais para ela mesma, cada peça de seu vestuário, sensualmente casual, passou a ser preocupação aos que outros causariam. Tanto isto lhe rendia os frutos desejados que não foram poucos os momentos em que lhe faziam a corte, mesmo sabendo que Clara fora prometida a outro e aqueles menos desavisados nem eram desencorajados por ela. A moça passou a receber em surdina pequenos mimos os quais deixava despreocupadamente dispostos nos aposentos como se fosse um troféu. Permitiu-se aos desfrutes que sua beleza e inteligência lhe trouxeram, bem como a toda conveniência de mulher inocentemente dada, pouco se importando ou até sem saber com o que a sociedade comentava. Talvez Clara nunca imaginasse que seu também prometido fosse desconfiar de sua honestidade, pois vinham de suas expressões, sob quaisquer questionamentos, respostas secas e contundentes. Com um vão desassossego o viril calava-se mesmo olhando-a com uma ternura em forma de dúvida, cegueira de quem não queria ver. Os dias de esplendor da jovem atingiram o ápice e nada a satisfazia mais, tampouco o mancebo que lhe cortejava fazendo seus caprichos dias a fio, na verdade o jovem já lhe parecia enfadonho. Tudo ficou demasiadamente insuficiente para seus caprichos e também para suas expectativas. Desejava nem sabia o quê, levava seus passos de acordo com suas banalidades e necessidades, pouco se importando com quem lhe rodeava. Não mais havia um dia em que a plenitude das suas vaidades bastava, ainda assim suas atitudes maliciosas, as intencionais e as não, traziam um lampejo vital para seus momentos. De tão evasiva não percebera que os beijos que ofertara ao seu parceiro de noites ao luar já não traziam mais carinho, eram secos como ela tornou-se. Permaneceu ainda mais distante que não se deu por conta quando o jovem se foi, sentiu-se aliviada de fato assim que notara sua ausência. Clara agora estava noutros lençóis, talvez os mesmos de noites sem luar, mas eram outros momentos e intensificava sua feminilidade com o toque de crueldade.
Recordou certa vez seu antigo pretendente, sabia que o amor que ele lhe tinha permanecia forte, aquilo a deixava toda mimosa, mesmo sabendo que o jovem sofrera e ainda sofria; pensava a moça que ninguém é dono das suas emoções, cada um que arcasse com as suas. Nisto ela sorriu e abraçou o estranho que alojara as pernas entre as suas... num breve instante, cerrou os lábios e imaginou:”Será que o mancebo de outrora também agiu comigo assim como eu agi com ele?”.... mas logo este pensamento desagradável foi-se de vez , sob um aperto carinhoso e amoroso do seu lindo afeto, voltou a sorrir como sempre o fizera...
Viu, vil!?!

Por: André R. Melchiades Sábado, Agosto 30, 2008



NA 71

Sob o crepúsculo, lá se vai.
Vai-se tarde, talvez dia, inda assim resignada, vai. De certo já havia ido; ‘ que os momentos se foram, que suas emoções se foram, agora então vai. Que é tardio o beijo do adeus, o acenar de partida, a lágrima na janela. Deixe-me as marcas, que o tempo as alojará num canto mais manso dentro de mim, leve consigo seu sorriso mais belo, qualquer um o é, pois aqui aliciaria minhas lembranças menos pueris.
Vai, amor, que eu posso chamá-la assim, só eu, vai.

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Agosto 28, 2008



DESLIZE INSONE

Não foram poucas as noites, nem os lugares em que vigiara seu sono.
Sentia prazer, nem aprendi com o tempo, isto me veio na nossa primeira manhã. Dei sentido às minhas tantas noites insones: namorei você lhe espreitando, tocava seus beicinhos úmidos de menina se alvoroçando nos sonhos de medo, tirava seus cabelos sobre os olhinhos semicerrados para vê-la ainda mais bela, lhe cobria o corpo de beijos e lençóis.
Agora que o tempo tornou distantes as lembranças, as noites voam e não a espio, não a venero, nem lhe cuido...não mais lhe tenho.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Agosto 22, 2008



SEMPRE SETEMBRO

Batem à porta, não ouço, baterão bem mais e ainda assim não ouvirei, tampouco verei, não me permitirei, inconsciente consciência. Hum, e se chorar? Talvez chore também, certeza, chorarei junto, entretanto não serei cruel, como poderia se tanto choro sozinho eu tive. Adiante só olharei meu reflexo nas lágrimas que cairão no chão, meio alívio, meio dor, de toda forma estarão à frente e nelas pisarei, atingindo uma por uma, assim não me distrairei espiando para trás.

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Agosto 20, 2008



ESCULTURA

Veio a mim como uma pedra bruta, um lasco de mármore perdido em meio a tantas outras peças menos vistosas. A vi ali, especialmente encantadora, mesmo tendo recoberta de musgos suas várias carapaças, doce rude camuflagem.
Aos poucos foi se lapidando, lentamente a fui esculpindo; não; fui deixando-a seguir seus instintos, tomando sua forma mais bela, quaisquer que fossem. Inspirava-me abrir os olhos toda manhã e vê-la, mesmo que distante, pois o amor se reverencia quando dois têm uma única alma e assim nos permitíamos sermos únicos. Cativado como estava apreciei todas suas formas, deliciando-me com a doce insanidade da fase quase Renascentista que seu coração vertia, caprichos ilusórios da Vênus latente.Quando se formou por completo foi o deslumbre de uma vida inteira, traços sutis em lábios de sorrisos de todos os encantos, expressões tênues e fortes para ricochetear os agouros. Assim ficou ali exposta para a visitação do mundo que a circundava e foi criando vida, mais que vida, mais desejos, já não era mais uma pedra bruta, era uma obra de arte. Então, desvencilhou-se do pedestal que lhe dera guarida e indo, se foi. Talvez pensasse não ser mais uma escultura, mas nas suas vagas lembranças sabia que seu coração ainda, infelizmente, era de pedra.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Agosto 18, 2008



QUANDO UM SONHO NÃO MORRE

Quando estive nos sonhos, sabia que o era. Mansos, vorazes, fortes, doces, medrosos, destemidos; dualidade de sentimentos, sonhos assim mesmo que são. Os sonhos em terra podem ser fugazes, mas são eternos, mesmo que apenas dentro da alma. Naquele deleite cada música era trilha sonora de um romance shaksperiano, houvesse uma paisagem sob nossos olhos tornava-se o Cezanne de minhas lembranças e, ainda que somente eu sonhasse, trazia dos céus toda existência divina nos afagos e promessas mutuamente perpétuas, mais ainda, vinham dos sorrisos de travessura, manhas e alegria a inspiração para minha vida inteira.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Agosto 11, 2008



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Óia eu!!!



"A parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos." [ Platão ]

Clique abaixo e ouça: Roberta Sá - Cansei de Esperar Você