"Vão Divã"

"Todo amor é eterno, e se acaba, não era amor"
(Nelson Rodrigues)



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QUANDO EU FOR ANJO DA GUARDA

Todo dia ela se levantava pelo lado esquerdo da cama. Era um ritual de que não se dava por conta, mas o fazia religiosamente. Acordou naquele dia em que deixara de véspera seu vestido mais decotado estendido ao seu lado e como o pôs a sua esquerda teve que contornar a cama fazendo um trajeto diferente do leito ao mundo. Pensou que o caminho até era mais curto e nunca o fizera antes, sempre teve todo espaço, todas as direções, contudo, usava invariavelmente o mesmo, o mais seguro, o mais cômodo:
-Por que eu nunca vi que fazia isto antes?
-Na verdade era o que não fazia.
-Como assim?
-Arriscar-se, isto é algo que você desconhece, pois vive sua vida abaixo do limite, abaixo dos riscos.
-E isto é incorreto por acaso?
-É uma maneira de viver, se pode caminhar séculos nesta baladinha, evitando infortúnios, contendo emoções e desassossegos ou se pode dar um sprint e ter a vida passando como um raio a sua frente, repleta de laços e carregada de histórias.
-Tenho minhas histórias, muitas e posso ter quantas mais quiser...
-Claro que sim. Quem vive começa a escrever páginas de história a todo amanhecer, mas quem escolhe o lado da cama?
-Eu sempre escolho o lado esquerdo!
-Porque sua história é monótona, só você a escreve, são variações sobre o mesmo tema, nunca entrega a pena para versar a quatro mãos.
-Assim me vejo desinteressante e sei que não sou.
-As pessoas não são o que elas acham que são, elas são o que os outros acham dela. Você é uma pessoa diferente para cada um que lhe conhece, inclusive para você mesma.
-Sou a mesma pessoa para todos. Tenho uma só personalidade, gostem dela ou não.
-Não acredite nisto. Cada um vê o que quer ver, o que sente ou até o que lhe passam.
-Olha, eu sou muito objetiva e sincera, não deixo brechas para dúvidas quanto ao que sou, ao que penso, ao que faço para pensarem de mim.
-O que você traz no coração como sinceridade pode ser indelicadeza algumas vezes; suas verdades são suas, não reproduzem sempre a opinião do universo.
-Julga que sou má?
-Ninguém julga, todo mundo vê com os olhos que têm. A única cobrança tem que vir de si mesma, do seu próprio coração e nem todo mundo tem coração, ainda.
-Sei que tenho coração, eu até choro......
-Padecer por dor própria não é ter coração. Chorar a dor de outro, engolir a seco uma resposta doída, sacrificar-se pelo que lhe pediram; isto sim é ter coração.
-Então o que tenho eu se não tenho coração?
-Nascemos bons, a vida, as influências nos modelam, daí extirpamos as emoções ou ficamos escravos delas. Temos a semente do coração lá no íntimo, mas nem todas germinam.
-Ninguém pode dizer que fiz mal a outro, nunca tive intenção de magoar alguém em toda vida.
-Mas o fez, todos fazemos. É inevitável.
-Padece do mesmo pecado?
-Doutros tantos talvez, mas tenho por ânsia ser melhor que hoje.
-E escolhe que lado da cama?
-Divido a escolha e quando não tenho com quem dividir levanto cada dia de um lado, de um modo, com uma perna só, aos pulos, sorrateiramente, arrastando, mais tarde, mais cedo, bom, menos em dias de números primos porque daí saio de joelhos pelo meio da cama.
-Só para ser diferente e engraçado?
-Não, para ser novo mesmo sendo igual.
-Parece bobeira. Diferenciamos-nos porque entre os lados da cama escolho o esquerdo e você, você não escolhe nenhum!!!!
-Pode ser, pode ser....mas se esqueceu de um único detalhe: minha cama é redonda, tenho mais escolhas


Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Setembro 26, 2008



ARTROS ATROZ

Pela primeira vez na vida não terei controle de mim.
Não estou com medo, talvez meio triste, mas a terça-feira vai chegar e isto não passará de somente um ontem.


Por: André R. Melchiades Sábado, Setembro 20, 2008



DEPOIS DO NUNCA MAIS

-Respire fundo, calmamente....Agora me diga onde você mora?
-......eu..moro aqui em........aqui próx...hummmm
“Havia uma névoa se dissipando. Era clara, quase fina se pudesse, com um leve odor almiscarado. Quando se foi de todo, ao longe havia um clarão intenso e vivo, mas não de doer os olhos. Ficava ainda mais forte na medida em que se caminhava ao seu encontro, era hipnotizante, cativante, amansador. Num instante de segundo viu toda sua vida passar e se prendeu às agruras, aos erros, aos desencantos, às decepções recorrentes. Em um brilho de magia uma lágrima de arrependimento por seus pecados, que fossem, bastou para nunca mais assolarem sua paz, renascia melhor a cada passo que dava. Estava como se banhado por bálsamos de luzes, pego no colo, despido dos medos e assim deixou-se ser seduzido, possuído pela cúpula que lhe envolvia. Sentiu que não havia mais peso sobre os ombros, nenhum físico, nem mesmo os da alma. Caminhava sem pressa de chegar a qualquer lugar, era como se pisasse em flocos de algodão. Todos que lhe viam passar acariciavam seu coração apenas com sorrisos belos por serem verdadeiros. Relembrava seus dias de plena felicidade em desregradas gargalhadas e sentia que era como se fosse um gozo constante cada passo, cada lembrança boa. Olhou para um dos cantos, viu uma pessoa que conhecia, mas ninguém possuía rosto, sequer forma, era uma abstração. Trocou gestos, sabia que era uma pessoa querida que também lhe queria bem. Sentou-se no banco de madeira ao lado do singelo lago e viu pássaros darem rasantes sobre o espelho cristalino de água. Jogava pedaços de pão, sabe-se lá de onde apareceram, para o deleite das aves. Neste instante uma moça passou o braço pelos seus, uma janela se abriu no meio do lago e ele se viu na cama, prestes a cair em sono profundo, clamando a Alguém que lhe desse caminho à vida, de preferência dos braços de um amor recíproco. A janela foi esmaecendo, eles se olharam através da alma e soube então que assim seria, o afeto que vinha de dentro, não pereceria pelo tempo, muito menos pelos caprichos e desejos mundanos. Uma casa de espetáculos foi se erguendo quase sob seus pés, abrindo as portas e ambos caminharam, mal sabiam que eles seriam os artistas principais, pois era uma vida que se abria, o teatro de uma vida quase real, pois tinha a prerrogativa da pureza e sinceridades comedidas.”
- Desfibrilador!!!! Nós o estamos perdendo.


Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Setembro 05, 2008



OLHOS DE NARCISO

Amparando o espelho pelo cabo, deixou-o a frente do sorriso maroto e pode contemplar a beleza mais bela, o olhar penetrante, o jeito meigo. Fechou os olhinhos e passou a suspirar, devaneando com seu ego inflado dum tantão de si.
Ao mesmo tempo, com os pés flutuando naqueles deslumbres todos, começou a se ver com outros olhos que não os seus e parecia que sua beleza ainda era mais atraente, que seu olhar ainda era mais cativante e que sua meiguice era ainda mais doce; eram todos apenas estes seus encantos.
Jogou o espelho longe. Quebrou-o em tantos pedaços quantos eram suas lágrimas e nunca mais se viu frente a si mesma, tampouco de olhos fechados.
Seccionou o tempo, o estagnara ali com o que tinha de melhor, pois de sabido tinha que somente o tempo poderia aniquilar seu maior legado.

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Setembro 03, 2008



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Óia eu!!!



"A parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos." [ Platão ]

Clique abaixo e ouça: Roberta Sá - Cansei de Esperar Você