Talvez mundo melhor fosse o de antes da Technicolor. Os meus filmes das noites soturnas as deixam inda mais, as películas se casam com o acaso e maquinam um apanhado de cenas para um desfecho lacrimoso. Quando pior, advêm as reminiscências não bem quistas, maldição Technicolor, e o coração aperta, coração dói sim! É um olhar enviesado que lhe põe noutro lugar, um lugar que lhe põe num afago, é um beijo não dado que você meio relembra o gosto daquele já esquecido, é uma jura quebrada que agora lhe aviva o gosto, amargo, do beijo.
Se não fosse a Technocolor ainda me furtaria de momentos menos abstratos dos filmes, os pastelões e romances com auge de sutis selinhos me verteriam numa alma inocente e acredito melhor.
Hei, que tal fazerem filmes com começo, meio e fim felizes? Basta de quem vê a magia somente na pluralidade dos seus neurônios insanamente nervosos, que vê a vida através de um prisma obscuro e funesto, fazendo os minutos de abraços perderem espaço para horas de desatinos por causa de frases perdidas num vazio de alma. Quem pensa demais morre só.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Outubro 28, 2008
BLUESMOON
Tornou-se lua minguante. Que antes, quando mais sutil, permissiva ficava em até duas vindas e assim ganhara nome de cor. Talvez a candura desconhecida lhe trouxera cansaço, tantos à espreita como se ofertassem suas lágrimas fizeram lhe desbotar o brilho. Ser a ribalta dos sentimentos mais etéreos não lhe mais cabia lida, quiçá nunca o devesse. O farol dos anjos sucumbiu, uma lua se enegreceu, a vida segue, meio sem graça, meio sem jeito, e, antes que o tempo feneça amanhece um sol com as luzes que se negaram à noite passada.
Por: André R. Melchiades Sábado, Outubro 18, 2008
SANTA RITA
Tudo era branco demais, até o manchado em algumas das vestes era branco demais. Todos os sorrisos, alguns nem verdadeiros, traziam os trinta e tantos dentes alvos o bastante. As roupas de cama ofuscavam com tanta brancura. Agora passavam pessoas que mal tinham rostos, estavam cobertos por máscaras claras e o branco dos olhos ressaltava alguma candura. Noutro aposento, por assim dizer, vinham luzes fortemente brancas sobre mim, iluminavam até minha alma. Lá quieto fiquei e via gente sem rosto, vozes sem fala, barulhos irreconhecíveis e depois um silêncio interminável. Aquilo poderia sim ser algo deprimente, não passava de um vazio; estava eu comigo mesmo e nada, nem ninguém mais. Na lentidão que o momento carecia, senti uma necessidade de abrir os olhos que havia posto insistentemente cerrados. Traído pela visão turva apenas vi uma mancha verde que foi paulatinamente tomando a forma de uma máscara, sim, uma máscara esmeraldina que cobria os lábios que dizia “Sou a Melissa”. Desfez-se da máscara, pois eu não me permitia ouvi-la de tão petrificado que fiquei e assim, inocentemente ela achava que a ouviria melhor. Encantado pude vislumbrar que havia muito vermelho dos lábios pintados, um leve verde escuro sombreando os olhos miúdos que eram de um castanho escuro e uns fios longos de cabelos pretos que ficavam no cantinho da boca que calmamente sentenciou: “Vou lhe deixar nos sonhos daqui a pouco”. E o daqui a pouco veio de uma vez, perdi novamente o colorido, tudo ficou branco de novo e nunca mais tive suas cores.
Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Outubro 16, 2008