"Vão Divã"

"Todo amor é eterno, e se acaba, não era amor"
(Nelson Rodrigues)



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OLHOS DE BRONZE

Parei em frente à estátua. Era uma tarde de nuvens densas e gotas de um pesar lacrimal despencavam de Deus. Vislumbrei um colo naquele esboço de mulher, me vigiando, dominando meus deslumbres tortos, espiando de viés se dos meus olhos escorriam. Acho que se passaram séculos e eu não me mexia, sequer sentia o pulsar do meu corpo que estático virou alvo para os olhares curiosos, até para mim mesmo que me via absorto em pensamentos de afago que mais me vinha da alma fria e gélida da estátua sóbria do que de quaisquer outros olhos mais vívidos.


Gloria Imortal Aos Fundadores de
São Paulo - Amadeu Zani - 1925



Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Janeiro 30, 2009



OPONHO-ME

Sou o oposto. Oponho-me às saudades. E só tenho saudades distantes. Minha saudade nasceu na primeira vez que a vi, pois eu já sentia a sua falta no amanhã por vir. O dragão que se acha fênix, afinal renasce das cinzas, das minhas, é parte da minha saudade, saudade de ausência. Ainda assim, oponho-me às saudades, ninguém sabe, psiuuuuu...silêncio!!!!

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Janeiro 26, 2009



O DRAGÃO AZUL QUATRO (AOIRYU)
(Op's, Se tiver curiosidade e paciência, leia bem mais abaixo O Dragão Azul (um), Dois e Três.)

Daí como num delírio desmedido o Dragão insurge e se põe com as patas dianteiras curvadas, cauda eriçada e cuspindo labaredas, doces, de fogo, questionando:
- Por que sou Dragão?
O céu, de tantos azuis que até doía os olhos, tornou-se pálido, um anil com secura de cores, e se pos a alimentar o saber daquele ser tão enigmático:
- É Dragão porque assim se fez. Porque tem a candura e a crueldade nos olhos. Ser Dragão é ser forte, é ter a alma repleta de si, é ter ainda a alma muitas vezes vazia. Também é ser Dragão descender dos céus, ser divino, mais ainda, é proteger aos que lhe cabem. Dragão descende do pecado, ascende ao pecado, permanece no pecado e foge todo dia do pecado. Amanhecer Dragão é ter a plena consciência de sua dualidade; mas sempre em sua plenitude; se é bom, ótimo, se é ruim, melhor.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Janeiro 19, 2009



O DRAGÃO AZUL TRÊS (AOIRYU)

O Dragão Azul se foi. Nunca mais se ouviu falar dele. Era sabido que quando o Dragão encontrasse seu caminho o faria sem pestanejar, sem deixar traços de sua ida.
Acontece que parte do Dragão vive em mim agora:
“Sinto uma névoa de hálito acre envolvendo meu peito quando meu coração se deleita, é como se fora um presságio e assim ponho minha vida em eterna resistência.
Outras vezes sinto minhas palavras saírem quentes como se estivessem sendo guiadas por labaredas intensas com odor de enxofre que antes ataca para me proteger.
Em muitos momentos saem das pontas dos meus dedos enormes garras que se põem contra meus lábios tentando me impedir de ter um sorriso fácil.
Quando eu choro, se choro, as lágrimas escorrem ferventes sobre minha pele, me fazendo amenizar qualquer dor, impedindo meus lamentos, secando meu pranto.
E nas horas em que meu pensamento busca o pretérito perfeito ou ainda sonha com o futuro mais que perfeito sinto a cauda pontiaguda do Dragão aniquilar meus neurônios, trazendo-me aos infortúnios subjuntivos do meu presente, sempre.”
De outra forma, vejam, agora também virei Dragão, sou o todo de uma parte dele, ainda aprendiz, mas já ferino, desconfiado e caminhando pra viver num mundo só meu.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Janeiro 19, 2009



GOTEIRA

Debruçada próxima à janela, ela via a água escorrer pela telha de cerâmica que sobrava no beiral da casa. Havia na verdade um gotejamento, cada gota era, espiando de longe, simetricamente perfeita como às demais que nasciam naquela sobra de casa. Contudo sabia que não poderiam ser tão semelhantes assim. Olhando de perto todo mundo é diferente, nem pior, nem melhor, diferente. É só ouvir e deixar sentir, logo não seria o contrário com as lágrimas do telhado, seriam diversas de uma mesma forma diferente. Por mais que olhasse os pingos d’água não podia senti-los, não percebia suas singularidades; assim como ninguém sente as dores alheias, por mais que vejam, que ousem entender e criar paralelos, ninguém sente suas dores, só você.

Por: André R. Melchiades Domingo, Janeiro 18, 2009



A FÁBULA DOS PINHEIROS

Era uma vez um pinheiro bem alto que vivia expondo seus longos galhos para o céu azul toda dia que amanhecia. Estava cada vez mais virtuoso e deslumbrante, ainda mais, parecia exalar o mais nobre dos perfumes. Não havia um sopro de vento que lhe despenteava as folhas cuidadosamente arranjadas pelo destino. Ficava o pinheiro numa planície repleta doutros tantos tais como ele, porém imaginava que talvez fossem menos glamourosos. Sabia ainda que era mais belo que os outros pinheiros que ficavam à margem da planície. Aqueles coitados não vislumbravam do mesmo solo farto de nutrientes, sequer se esbaldavam da água que desciam pela encosta da montanha em fortes cachoeiras e que trazidas pelo vento massageavam os troncos com sutis gotículas.
Então nasceu uma outra manhã e um estrondo medonho tremeu a relva toda, um feroz terremoto alargou o chão criando um vale imenso. O largo vale que se formou sugou os pinheiros que estavam distantes, aproximando todos, os mais e os menos frondosos.
Aquele pinheiro mais charmoso bem que tentou não se sobrepor aos demais, mas era da natureza dele ser assim, era de ser altivo e imponente. Os outros pinheiros, alheios aos desassossegos que lhe causavam aos nativos daquela planície, tentaram ser servis, gentis, mas suas atitudes apenas não lhe bastavam, faltavam folhas, galhos, imponência.
Deu-se então tempos depois uma intensa tempestade de ventos uivantes e cortantes. Tantos eram os trovões e raios que se espatifavam ao chão que a terra chacoalhava como se fora outro tremor. Labaredas de um fogo laminado sapecavam algumas das árvores. O vendaval contínuo não deixava folha alguma presa nos pinheiros.
A noite se foi, deixando amanhecer uma nova vida. O belo pinheiro agora era qualquer uma das árvores, não mais havia beleza de que ser sobrevivente de todas os infortúnios da vida e os poucos galhos que sobraram de pé eram como ombros para acalentar aos que deles sempre precisariam.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Janeiro 06, 2009



OUTRO JANEIRO (FELIZ ANO NOVO!!!)

Donde estava podia contemplar o pouco de céu azul que as copas das árvores permitiam. Fragmentos do pálio que recobriam o dia iam se decompondo, esvaindo-se lentamente. O mundo passou a ter sons estrondosos, nuvens espessas fatigavam meu repouso de olhar ao infinito. As nebulosas eram densas, carregadas de tanta água que mais pareciam lágrimas abundantes de um amor que se foi ainda cedo. E rompeu a aurora do meu primeiro dia, ainda que exausto, abria-se sereno e resignado, pois sabia que talvez nunca mais haveria um azul sobre meu jardim, mas sabia, sabia sim, que oazul , daquele céu de outono no berço do verão, permaneceria vivo em cada lembrança que eu desejasse.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Janeiro 02, 2009



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Óia eu!!!



"A parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos." [ Platão ]

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