"Vão Divã"

"Todo amor é eterno, e se acaba, não era amor"
(Nelson Rodrigues)



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Brazil, SP, Interlagos, Portuguese.



“SAUDOSA MALOCA”

E era quase chuva. Era quase verdade. Era quase gente.
Talvez não sã, talvez uma mente vã, talvez carência do divã.
Ausente, nem sente, nem crente, nem gente, apenas mente.


Por: André R. Melchiades Sábado, Fevereiro 28, 2009



TULE DE BEIJOS (conto)

Sutilmente se ouvia Cure ao fundo. A festa estava animada, mas com uma névoa letárgica, quase deprimida.
Era uma casa de dois andares, pintada de trepadeiras por toda sua fachada, mal se via as janelas e tampouco o portão de entrada. Com custo se achava a entrada: negra como a noite. O corredor de acesso à festa era coberto de junco seco e as paredes tinham, a um intervalo irregular, algumas tochas feitas de bambu. A sensação que aquilo pegaria fogo era assustadora. Caminhando lentamente pela passagem, via alguns casais se entrelaçando aos beijos, outros, de olhares esbugalhados, indagando sua presença.
Antes de entrar na casa, havia a recepção solitária de um isopor, escuro, e dentro algumas bebidas de teores alcoólicos variados. O enorme salão era a própria festa. No meio deste desciam véus de tule que faziam as pessoas se sentirem presas, abraçadas à força por aquele tecido áspero e com um cheiro adocicado pela fumaça branca que vinha do chão. Estava bem escuro, além da fumaça pouco se via e se via, eram vultos e falsas imagens. A luz negra criava um clima ainda mais denso e os poucos que então lançavam seus corpos ao balanço da música, pareciam embriagados pela canção, outra vezes, não só pela canção.
Cada um que passava mais perto deixava um pouco do seu semblante na memória, afinal a festa à fantasia, um quase dia das bruxas, causava mais curiosidade que medo.
E lá ele estava. Com seus pensamentos distantes, roupa que era o próprio breu, olhos avermelhados, sobrancelhas eriçadas, cabelos bem espetados, um corte longitudinal no rosto pálido, totalmente descaracterizado e com as mãos irrequietas. E assim, completamente ensimesmado, bem de perto, sentiu uma coisa tomar forma, alva, e mais doce que todo o perfume da sala:
- Quem é você? – a bruxinha de tubinho preto e bem colado pergunta.
- Eu, sou seu pior pesadelo! – responde meio rouco, nervoso com a beleza da musa, mas com um tom de sarcasmo, quase malícia.
- Hum, que medo. Você morde? – diz a mocinha de sorriso acolhedor, cabelos escorridos e corpinho de deusa.
- Só mordo mocinha bonita!
- E será que passo ilesa por aqui então? – deixando quase cair a tacinha de algo vermelho que bebia.
Ela então brinca de fugir por meio do véu. Ri, e foge, mas não muito. Olha, para trás, se vê calmamente perseguida. Os véus se entrelaçam, ela fica presa como numa teia de aranha e aos poucos sente os braços dele apertarem os seus. Seu coração acelera freneticamente ao deixar-se ser trazida para cima do peito daquele estranho. Ele a agarra pela cintura, fazendo com que seus pés flutuassem. Um beijo seco, voraz foi nascendo e aos poucos uma paixão inesperada adoça o momento. O contato dos lábios fica mais íntimo, as mãos delineiam o corpo de ambos, brotam os primeiros sussurros. Uma cumplicidade de olhares, de leves mordidas, de encantamento até, acirram os desejos e ao som de Torch se ouve um gemido acutíssimo selando a aflorada paixão.
Os dias se vão. Não há mais festa. Tampouco a fantasia que cobria seu rosto. Ele chega ao bar. Poucos eram os amigos que ali estavam e os que estavam só falavam da festa de semanas atrás. Subitamente o último chega, trazendo consigo uma companhia diferente:
- Gente, esta é a minha namorada que estava na festa comigo. Lembram dela? Ela adorou a farra. Disse que nunca se divertiu tanto......
Todos a cumprimentam. Aqueles que a viram na festa, os que não viram e ele também. E assim ele disse, sussurrando calmamente no ombro dela, ao lhe dar um beijo de boas vindas:
- Muito prazer, sou o seu pior pesadelo.......

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009



GRACIOSA

Ela mirava um ponto distante, vago naquela vasta paisagem. Cercada de árvores com troncos espessos e por montanhas com as bases se encontrando no horizonte; não percebia vultos, não ouvia sons nem de seus suspiros, sequer sentia um sinal de vida, nada além das palpitações do próprio coração extenuado. Os olhos felinos perdiam-se na imensidão de si mesma, havia somente seu vazio e todo aquele mundaréu ao seu redor não passava de um beco escuro e solitário. O riso, de tantos gracejos fáceis, permanecia ali, mas estava opaco e mesmo assim, morno, permanecia cativante. Cansada dos dias insossos, ela lentamente se pos a caminhar pela relva, já vinha o despencar da tarde, com o sereno vespertino daquele fim de desassossego. E foi, e tropeçou, e se ergueu e ainda mais longe de sua mente, foi. Exaurida dos passos que dava em torno de si, estatelou-se no chão! As mãos, em cunha sobre a pele branca, cobriam o rosto deixando escapulir algumas furtivas lágrimas de um choramingo carente. Súbito, outras mãos lhe recobrem os vãos entre os dedos, impedindo que estas poucas lágrimas caíssem. Timidamente ela ergue os olhos, libera um sorriso tanto mais doce, estende delicadamente os braços, cerra suavemente os olhos e se permite a um abraço longo, apertado, eterno. Após infindáveis minutos, sente lábios umedecerem levemente os seus, brota um suspiro profundo e sutilmente abre os olhinhos marejadamente esmeraldinos e então se vê só outra vez....mas sorri, o sorriso mais lindo de Deus, pois sabia afinal que nunca poderei caminhar todos seus passos, mas estarei em você, lhe guiando, amparando e lhe esperando em cada porto por que passar.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009



BAILAR DAS MELENAS NEGRAS

Brotou a vida num sorriso
Vasto, terno: ardor sem fim!
Resenha de um mundo conciso
Paraíso, seu colo, meu jardim.

Bailam melenas negras na rua
Emolduram seu rosto com afã
Vertendo a noite escura em lua
Colorindo o raiar da manhã.

Tez de anjo e lábios delicados,
Sutis sussurros, tenros delírios,
Doce heresia do arcanjo em pecado.

Olhos, duas pedras, uns cristais:
Verdejantes brilhos ofuscantes,
Daqueles que não esqueço jamais

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009



(OLHOS COM) BRILHO DE MANGÁ

Havia ainda uma caverna abaixo do precipício. O acesso parecia intransponível, tantos eram os percalços, os medos e o desconhecido também.
Ainda assim, trôpego, fui capengando, ladeira abaixo, sentindo os passos se afundarem na lama negra do meu caminho. Teimosamente, sabe-se lá por quê, insisti nas passadas duras, na busca sem jeito, quase sem prumo, mas com o destino claro de explorar o fim do todo. De pés postos firmes sobre uma pedra lisa, observava a escuridão na entrada daquele buraco sem término. Sons pouco inteligíveis aceleravam meu pesar, me vi perdido, mesmo que o ambiente me viesse no obscuro da mente, senti meu espírito léguas dali.
Como se em perspectiva crescente duas luzes de um esverdeado cristalino propagam uma aura sobre mim. Apesar do estranho inesperado, nem senti desejo de me mover, fiquei inerte apreciando a luz tomar forma. Negros e longos eram os fios das melenas que se entrelaçavam sob a garoa, o sorriso, que compensara cada tristeza que eu tivera na vida, se vislumbrou a minha mercê, os contornos, nem tão pueris, colocavam ternura no jeito voraz de quem protege, e num levante ágil, aqueles olhos, de um brilho de mangá, me atravessaram a alma, verdejaram meus sonhos mais lindos e os mais infames também. As mãos, que de tão gentis pareciam angelicais, acariciaram meu queixo, ergueram meu rosto, me puseram de frente ao brilho cândido daquele olhar e, inebriado pelo odor do seu perfume acre, deitei os medos no abraço mais apertado que uma gentileza permitia. Suspirei a eternidade daquele abraço e quase percebi o mesmo, mas não ousara pensar isto por muito tempo. Docemente ouvi sussurros sem freio, comprometido com a pureza da verdade, mesmo as impuras. Vivi a eternidade num breve momento de ternura.
Quando as asas então se abriram, percebi: anjo. Suas mãos se afastaram e no seu semblante percebi também uma lasquinha do seu medo medo, um tantinho de tristeza. Numa revoada celestial outros tantos anjos se juntaram e acalentando quem me dera guarida até então se foram. Meio perdido, mas com a alma repleta de esperança, entrei na caverna que agora luzia com todas as cores. Não havia mais temor de invasões desmedidas dentro de mim, e, quando por um segundo uma sombra me assolou o coração, outros olhos, de um tom mais escuro, mas de igual candura ao que me deteve à porta, valsou dentro de mim...então olhei para o céu e disse: - Eu que queria tanto ser o anjo de alguém, agora tenho que aprender a desejar os anjos por perto.....

Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009



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Óia eu!!!



"A parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos." [ Platão ]