É noite. Caminho pela rua, meio trôpego, meio distante, meio vivo, meio não.
Poucas são as luzes que me alumiam pelas ruas asfaltadas e ainda com uma garoa fina se achegando parece mais pesado o andar. Encosto cansado numa mureta próxima à calçada. Olho pra bem longe, lá próximo de onde está mais escuro. Um mosaico se forma em reviravoltas de luzes amareladas com densos pingos de chuva e moldam uma lembrança, talvez um sorriso, não sei. Esfrego os olhos, a imagem se vai, se foi. Forço o olhar naquele ponto ali distante das minhas mãos. Fixo-o. Repentina e vagarosamente a garoa se ajunta à neblina, que nascera sem aviso, e constroem um caminho acolhedor, quase manso, com postes altos de madeira, casinhas miúdas, estradas estreitas de terra, um sotaque de erres arrastados, uma brisa com gosto de mato, um silêncio ensurdecedor e novamente o sorriso, o mais belo que os deuses permitiriam aos mortais merecerem, enternece a seara da minha madrugada, mas, como se fosse surpresa, dura pouco e vai. Emblemado em meu peito repousava a figura tatuada do dragão que assolava os azuis de meus tormentos e parece sorrir, o mesmo sorriso da noite. Sob um raio luminoso vindo dos céus, ele, rompe o espaço que lhe tinha (entregado) em meu peito, abre as asas em curva ascendente, fita-me como se fora o adeus de toda uma vida, sacode a cauda, esbafora seu hálito quente secando suas lágrimas antes que chegassem ao chão. Rasga minha pele, despe minha alma, subjuga meus delírios e se vai. Tudo turvo, olhos em chamas, ardendo; ardentes cúmplices de outros tempos. Há mais neblina, mais molhado, afinal garoa é quase chuva (lembro...).
Ando, de novo. Ruas escuras, molhadas, vazias, nem dragão, nem nada.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Março 24, 2009
CURTAS VII – ÉRATO
Numa vila muito distante dos dias de hoje, era sabido que somente aos cegos seria permitido receber as dádivas das Musas: deusas das poesias, arte e inspiração....sábio que não sou, voltei a enxergar....
Dizem que me tornei você:
"Aprendi que não posso exigir o amor de ninguém.
Posso apenas dar boas razões para que gostem de
mim e ter paciência para que a vida faça o resto."
[William Shakespeare]