"Vão Divã"

"Todo amor é eterno, e se acaba, não era amor"
(Nelson Rodrigues)



This is my blogchalk:
Brazil, SP, Interlagos, Portuguese.



A VERDADEIRA LAGOA AZUL
(ou EU E O DRAGÃO NA ILHA AZUL)

Dois corpos enfim chegam à praia após um dilúvio que tombou o barco em que viajavam. Uma moça de olhos amendoados, cabelos negros e compridos, pele lisa e branquíssima. Ele, um rapaz magro, de pouco mais idade que aparenta e traços de quem sorri muito.
Nunca se viram, mas sempre se amaram. Era um amor que brotara no navio e culminou numa troca de olhares e apertos de mãos nas ondas que os levaram à ilha deserta.
E lá estavam. Na beira da praia. Areia clara. Arbustos baixos, cachoeira de águas claras, frutos que caem do céu.
Então, era o primeiro dia no paraíso na Terra. Teriam que construir um abrigo, pois a noite logo chegaria. Pequenos galhos e folhas secas seriam seu material e daria certo?
-Bem, vamos amarar com o quê? – pergunta ela.
-Com cipó ou fibras trituradas de alguma árvore de casca solta.
-Ah, facinho. E vai cortar com a língua? – diz ela docemente.
-Ehhhhhh bom humor!!!! Sei lá, podemos pegar duas pedras, batermos uma na outra e forjarmos um instrumento para corte.
-Vem cá, você anda assistindo muito Discovery? Isto é pra hoje.
-Olhe lá, podemos ficar naquela caverna adiante, ainda é perto da areia.
-É, e como saber se já não tem dono, tipo um bicho?
-Você é difícil de agradar, né?
-Façamos uma tocha e eu espanto o que tiver dentro da caverna.
-Fogo a gente faz como mesmo, já esqueci – diz ela com ironia
-Vamos recomeçar, eu pego duas pedras...
-Ah vá se f...
-Mal educada!
-Tenha paciência! O que a gente vai fazer?
-Para de perguntar e faz algo também, dê idéias se possível.
-Tá. Pede uma pizza que to com fome! – Diz ela de sorrisinho esperançoso.
-Pode deixar, vou ligar deste telecôco e pedir pro babuíno mandar uma meia capim, meia erva-cidreira, assim você se acalma.
-Aproveita e pede cicuta também para acompanhar.
-Menos, menos. A gente ainda vai rir disto um dia.
-Quem sabe. Agora queria era fazer xixi. Onde faço? Oh, tem papel aí?
-Papel higiênico? De que cor você quer? Lavanda ou jasmim?
-Babaca!
-Linda!
-Bobo. Fala vai, quero ir ao banheiro!!!!
-Bem, pode ficar ali atrás daquele mato.
-Dali você vai ficar me vendo, o rosto pelo menos você veria.
-Quê tem? Você vai fazer número um, né?
-É.
-Então, você não vai fazer careta.
-Grosso. E se me der outra vontade? Vai dizer que você nunca foi pra um e fez o outro?
-Tudo bem. Então vamos fazer nosso banheiro atrás desta pedra.
-Mas, não quero ser chata, e os dejetos, pra onde vão?
-Você chata? Imagine....A gente pode fazer uma latrina, um buraco no chão.
-Tenho até medo de perguntar....mas como vamos cavar?
-A gente pega duas pedras...
-Vai tomar no seu...
-Pára! Já sei, já sei....Faz no mar...mas espera a corrente mudar de direção.
-Ah, ta, farei isto todo dia até vir o Greenpeace reclamar que to poluindo o meio ambiente. Não rola poluir, ainda mais se vamos morar aqui um tempo.
-Tudo bem, pega esta sacolinha do Carrefour e se diverte enquanto eu penso no futuro.
-Afff...deixa pra lá, travou! Daqui não sai nem pensamento agora.
-Nossa, você ficou toda rosada. É prisão de ventre? Se for é a mais louca que já vi na vida!!!
-Nada a ver. Males de ser branca, após a água salgada e o sol. Sem dizer que estes malditos mosquitos também não ajudam. To ficando empolada.
-Você podia passar algo na pele pra evitar insolação.
-Alguma ideia Magaiver?
-Lama.
-Isto você sabe fazer e nem precisa de pedra, presumo.
-Opa, claro. Vem comigo. Chegamos. Ta vendo esta terra escura.
-Estas bolinhas não são cocô de rato não?
-Eu não entendo de merda, vai ter que se arriscar. Olha, com água, ficou uma lamazinha pretinha.
-Nem vem, prefiro torrar no sol.
-Pensa bem, isto é a verdadeira linha Natura, vai aí?
-Não. Vou nadar aqui perto da cachoeira, vai me aliviar da ardência.
-Você nada bem?
-Como uma pedra, se não fosse o colete salva-vidas nem teria sobrevivido ao naufrágio. Só vou até o raso.
-Legal, mas como vai saber se é raso? Quando afundar? Eu também nado que nem uma bigorna, não conte comigo.
-Inútil. Peguei este galho e vou ver a profundidade.
-Cuidado, pode haver piranhas, jacaré...nunca se sabe.
-Você é terrorista, né? Pode falar, você me odeia? Meu beijo é ácido?
-Calma lindinha, estou só lhe protegendo. Agora veja, que lagoa linda, todinha azul, os raios de sol reluzindo, cascata de água cristalina....Olha que bonitinha aquela cobra d’água...
-Caramba!Anda, anda, dá que ela saia correndo atrás da gente! – Sai em disparada a mocinha.
-Correr não é o forte dela porque não tem pés, mas não vou discutir contigo.
-Puf, puf....cansei....não aguento correr mais. Será que ela vem atrás da gente? – diz a moça de mãos nos joelhos.
-Não sei, mas deixou sua camiseta lá de lembranças. Era feia mesmo, né?
-Era sim, nem gostava da cor. Ganhei de amigo secreto.
-Presentes de amigo secreto é o ó; né?
-O que a gente vai fazer? To com fome, cansada, com sono...
-Senta aqui ao meu lado. Vem cá. Assim. Pelo menos temos um ao outro nesta ilha paradisíaca, quase afrodisíaca.
-Capaz! Nem vem. Não há amor que resista a estas condições. Olhe meu cabelo!
-Tá lindo assim meio, bege?
-Quê? Ta descolorando?
-Deve estar, mas você continua linda e esta sombra escorrida no canto dos olhos dá um ar quase vampiresco, exótico mesmo!
-Socorrrrrooooo!
-Hei, não precisa pedir socorro por causa disto!
-Ai, tonto, é um helicóptero! Ajuda a acenar! Grita, porra!
-Ah, sim. Deve ser o resgate que eu chamei pelo celular. Demorou, ne?
-Você tinha um celular? E não me disse nada?
-Ah, você não perguntou, você quase não pergunta....

Moral da história: Ilha deserta só é paradisíaca se tiver um hotel e muita gente!

Por: André R. Melchiades Quinta-feira, Maio 07, 2009



AMORES DISSOLUTOS
(Vatukaiéks)

Tem quase um mês que não amo ninguém em meus sonhos. Ah, cadê meus desassossegos soturnos de noites de luas vagas? São estes os únicos amores fiéis, os mais ternos, eternos, etéreos que alguém possa conceber, conceder, conseguir. Venham a mim, amores dissolutos, renascerem em meus braços nas doces vigílias desta noite.

Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Maio 04, 2009



Adicionar aos Favoritos


Óia eu!!!


Dizem que me tornei você:


"Aprendi que não posso exigir o amor de ninguém.
Posso apenas dar boas razões para que gostem de
mim e ter paciência para que a vida faça o resto."
[William Shakespeare]