"Vão Divã"

"Todo amor é eterno, e se acaba, não era amor"
(Nelson Rodrigues)



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Brazil, SP, Interlagos, Portuguese.



ESTRELINHA

Quase serenava na noite densa de ventania desmedida e eu caminhando assombrado com os fantasmas que carregava em meus ombros. Talvez fosse a garoa, talvez fosse a sombra negra, talvez fosse nada, nada, era porque não havia nada para carregar em meu coração, e eu, me largava lânguido naquela trilha sem fim, sem luz.
Cabisbaixo espiava a vida passar a cada passo que dava e de tanto olhar para baixo, não via o brilho das estrelas, não via sequer uma estrelinha. O céu então se partiu em dois e lá das suas alturas, cadente uma estrelinha, veio a mim. Era de um brilho só, único, lindo e terno. Tirou-me do chão, levando meu sorriso aos pés de Deus e num gestual gracioso me mostrou que nem os meus olhos perdidos, de até então, impediriam a cumplicidade dos nossos destinos.


Por: André R. Melchiades Segunda-feira, Junho 29, 2009



O DESCAMINHO (O DRAGÃO AZUL SEIS - EPÍLOGO)

Quase era noite quando o destino me colocou de frente com o Dragão Azul. Era um belíssimo e exótico animal que amedrontava numa primeira espiada, pois tinha um olhar enviesado, poucos sorrisos e soltava fumaça pelas ventas.
Cambaleava, o Dragão, meio capenga e devido à asinha machucada sequer voava. Parecia ele perdido, sem rumo, sem prumo, sem ninguém. Eu também estava, talvez até mais, mas não me permiti ter tempo para mim e o amparei. Havia ele, noutros tempos, voado mundo afora, visto tantas agruras, sentido tantas dores que seu corpo ficou envolto por uma couraça rústica que lhe protegia e que também machucava aos outros que lhe queriam acalentar, porém tanta blindagem não foi o bastante para proteger o que eu achava que seria o seu coração.
Ali ferido estava, sem autopiedade, mas implorando afago. Aos poucos fui conseguindo acariciá-lo, meio aos rugidos que dava consegui ainda um sorriso, um olhar menos tenso. Os dias ficaram cada vez mais longos e em muitos deles germinavam expressões sinceras de alegria em sua aura. Não demorou e o reensinei a voar e semeei mais vida em seu horizonte. Era prazeroso lhe dar o caminho, afinal sua inteligência era tamanha que parecia saber tudo de antemão, que conhecia tudo. Sem ele saber, apesar de sua paciência ranzinza, aprendi um universo de coisas também, roubei um pouco da sua determinação e guardei muito mais dentro de mim, pois chegaria a hora de aprender a usar. Nossas trocas de afago e experiências ficaram cada vez mais profundas e por vezes cheguei a crer que ele me tinha afeto, mas é da natureza dele ser Dragão, somente gosta enquanto lhe convém.
De tanto dar pequenos voos circundantes sobre mim pegou gosto pela coisa e retomou o sabor da vida, então quis alçar sonhos mais altos. Certo dia as nuvens ficaram pesadas no céu, parecia que o tempo havia parado, algo escondera o sol, trazendo a noite para o dia. Eu estava distante da vida, afinal também posso ser Dragão e cuidar um pouco só de mim. Quando dei por mim passou um Cometa flamejante lá nas alturas, bem mais alto do que eu poderia sonhar que o Dragão pudesse alcançar, mas ele o alcançou. O Dragão se encantou com as cores reluzentes, com a novidade que lhe traziam aos olhos e não se fez de rogado, amparou-se na cauda do Cometa, e egocêntrico como o escorpião que lhe tem a alma, disparou rumo ao desconhecido. Quando olhei para o céu somente me coube um aceno em forma de gratidão, sem afeto, somente um afago e ficou em mim ainda uma lágrima sentida, mas contida.
Como é próprio dos Cometas, eles voltam e um dia ele voltou trazendo o Dragão consigo. E veio triste, mais ferido que da outra vez, a história se repetia. E me doeu toda a dor do mundo. Chegou de asinha murcha, quase um trapo, estava irreconhecível e pela primeira vez eu achei que tinha visto um coração ali batendo. Chorou rios de tristeza e quase pensei que não era o meu Dragão, afinal este nem rugia mais. Nada como o tempo. Sua asinha curou e seu sorriso vinha brotando, porém, como não era conto de fadas, eu desabei. Desta vez eu caí a sua frente e estendendo a mão implorei ajuda, umas poucas, mas inconsoláveis vezes. Mas, é da natureza dele ser Dragão, eu sabia, não era por mal, não mesmo, e sendo assim, ele não me deu guarida e sem hesitar deu uns passos para trás. Quando meu desapontamento chegou aos seus olhos ele me disse que veio a mim como teria ido a qualquer um. Aquilo não me tornava único, talvez especial como tantos outros, mas não o motivo principal da sua volta, tampouco o que eu desejara ser.
E, novamente, como é próprio dos Cometas, este teria que partir. E foi. Pegou rabeira no Cometa com choro nos olhos desta vez, pois eu lhe feri a carapaça com o olhar mais cruel que consegui ter. Mas não doeu muito, ainda o pude ver de longe gargalhando com o Cometa.
Agora está ficando tarde na minha vida. E sinto que o Dragão Azul só vive dentro de mim, ainda sinto suas dores, seus medos, mas não sinto mais a sua alma. Talvez o Dragão nunca tenha existido e fosse apenas uma projeção da perfeição dentro da imperfeição que a vida exige. Vou seguir sem os tantos anis que coloriram minhas histórias, minha vida, meus anseios, e, como é próprio dos Cometas voltar, se um dia o Dragão Azul por aqui passar, não mais estarei...espero....

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Junho 12, 2009



A BORBOLETA GRACIOSA II (conto)

Era uma vez uma princesa de codinome Borboleta. Tinha os olhos tão tristes que
pareciam pedir colo. Sua pele era branquinha como a lua mais cheia da noite mais límpida.
Os cabelos pretos e brilhantes escorriam pela sua boca, boca esta que parecia delicadamente
desenhada à mão. Os traços firmes e sutis de sua face aveludada se compunham com seus
lábios densos, desejosos. A princesinha possuía um ar de maliciosa inocência naquele belo
rosto de grandes cílios arqueados. Seu colo era um convite ao aconchego, quiçá à perdição.
Era uma deusa com as curvas de seu corpo em harmonioso e ousado feitio, roubando
suspiros por onde exalava o odor doce de sua presença.
Naquela tarde de quase noite, a princesa passeava pelo jardim do castelo quando se
viu desesperadamente sozinha dentro de si mesma. Abriu os braços girando seu vestidinho
longo e branco no bailado que seu corpo insistia em realizar. Olhos voltados para o céu,
mãos espalmadas para cima e um giro seguido de tantos outros tiram seus os pés do chão.
Ela levita, transcende sua alma a um mundo multicolorido, assim como seus sonhos mais
íntimos, junto aos seus arcanjos serpenteia no ar, fazendo uma dança mística e sensual.
Seus pensamentos levam seus desassossegos para bem distante e ela sorri, o sorriso mais
lindo de todo o reino, o seu! Seu coração bate num compasso suave, lhe trazendo uma aura
de paz, então ela chora, um choro de lágrimas puras e felizes.
Valsando por seus desatinos, ela recompõe suas vestes, seus segredos, seus desejos
e, já saltitando descalça em meio às flores, mira em direção à masmorra que achava ser o
sepulcro de sua vida. Agora, presa também em seus delírios, ela põe o queixo sobre as
mãos, espiando lá bem além das montanhas e num suspiro bem profundo aguarda ansiosa
ao príncipe que lhe mostrará a magia que tão intensamente sonhara há pouco.

Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Junho 05, 2009



CURTAS IX – UM CONTO EU CONTO

Nem era tanto o frio da tarde cinza com seus úmidos ventos cortantes, foi sim a candura de um olhar perdido, de um corpo suspirando afago, que lhe trouxe aos meus braços para um breve refúgio e que agora aniversaria renovando os delírios de ontem para sempre.

Por: André R. Melchiades Terça-feira, Junho 02, 2009



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Óia eu!!!


Dizem que me tornei você:


"Aprendi que não posso exigir o amor de ninguém.
Posso apenas dar boas razões para que gostem de
mim e ter paciência para que a vida faça o resto."
[William Shakespeare]