Era quase meia-noite quando, descalça, ela atravessa correndo o jardim daquele parque escuro e sombrio, usando apenas um singelo vestidinho levemente translúcido. Chorava. Como se fora permitido aos anjos chorarem, ela chorava. Uma dor apertada, de quase sufocar seus soluços, a fez se debruçar sobre a relva úmida da noite de garoa fria, fina e constante. Um pranto incontido rasgava-lhe os olhos brilhantes e tristes. Contorceu-se no chão, juntou seu destino à lama que grudara ao seu corpo. Sua mente viajava em busca de um momento de paz, mas nada, só lhe apareciam o medo, a dúvida, a incerteza, o choro. Dos céus então desabou uma forte chuva com gotas que explodiam ao tocar o solo. Eram águas mornas, quase adocicadas, quiçá serenas. O bálsamo que nela espocava, em forma de gotas d’água, vertia imagens coloridas, abria janelas tridimensionais de sorrisos seus, como se fosse um portal de uma doce premonição. Ela se levantou timidamente, ergue em dúvida, ainda, a cabeça para o alto e aos poucos vai sentindo cada lágrima de Deus lavar sua alma, despir-lhe do rancor da vida que até então vivera. Brotou timidamente um sorriso, o sorriso! Seu vestido agora parecia ser parte de si, grudado deixou-a quase como nascida, renascera enfim. Uma enxurrada divina parecia lhe banhar os cabelos negros e este carinho molhado escorreu pelos ombros, descendo pelas costas, deslizando pelas pernas e esvaindo-se na mãe-terra. Cada gotícula que penetrava a terra levava consigo uma lasca de seus temores, de seus desassossegos e ela se sentia imponente. Olhou seu reflexo numa poça que se formara aos seus pés e se viu reluzente, viu além da beleza, viu seu futuro, seus sonhos juntados àquele sorriso inocente de outrora. De olhar de esguio pode ver que o as nuvens negras e pesadas se foram e que uma luz lhe abria um caminho, talvez sinuoso, um tanto longo, porém mais claro e cheio de esperanças antes perdidas. E ela se foi...e nunca mais a vi...nunca mais...
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Julho 31, 2009
O VOO DA BORBOLETA (conto)
Não foi o torpor devido ao seu olhar lascivo, nem o seu colo ávido como um leito quente em noite de lua fria, sequer foi sua malícia fescenina de tantos devaneios, tampouco foram suas nuances voluptuosas em falsa ingenuidade; não, nada disto foi maior que a alegria que seu sorriso me deixou, nada foi páreo à esperança quase vã que me trouxe aqui, ao julgo dos seus olhos, em jura pedir-lhe um beijo.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Julho 28, 2009
O POÇO E O DRAGÃO
Corria em desenfreada disparada. Seus olhos fixos nas estrelas acima, meio em prece, talvez em lástimas, não lhe permitiam vislumbrar a tamanha emboscada que seus passos lhe causariam. Perdendo os pés do chão sente o corpo guinar para as profundezas de um poço de paredes avermelhadas e seco. Estatela o corpo sobre uma camada de lodo verde. Ainda com as dores que mais lhe chegavam à alma, circula no fundo do poço, e, o rumo óbvio era para cima, mas inatingível, como os sonhos da vida, pensara. Preso ali naquele lodo de alma boreal, de um medo visceral, sentiu que se fosse ali o fundo do poço, bastasse! Seu desassossego seria maior ali dentro e nunca seria vergonha implorar clemência, aos céus quiçá. E então ele bradou e muito timidamente o fez. Não precisou esperar muito e lá no alto, uma cabeça de dragão escurece a pontinha de luz que vinha da beira do poço. Como por magia os olhos se cruzam, talvez uma real empatia de quase afeto lhes juntou, porém o poço era profundo demais e o dragão, de medo, de pressa, talvez do não saber, virou suavemente e partiu, deixando-o ali, só. Conformado por não se sentir surpreendido, ali permaneceu, mas, ainda que conformado estivesse, isto não lhe furtou as lágrimas e um choro de horas se avolumou naquele poço. As lágrimas foram se somando por tempos fazendo com que ele se banhasse nelas. O volume de tanto desabafo, das dores que se iam era tamanho que o poço se encheu até a boca de tantas lágrimas e ele assim foi cuspido do buraco como se jorrasse lava de um vulcão. Demasiadas eram as lágrimas que limparam tudo a sua volta, todos seu caminhos estavam às claras, incertos, mas claros, e assim ele partiu, sem olhar para trás, pois sabia do estrago que havia no fundo do poço da sua alma.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Julho 28, 2009
“BOREAL”
O dragão, de bocarra aberta e olhos em brasa, esbravejou:
- Você não sonha mais? Conta outra!
E numa mastigada só me engoliu por inteiro, levou-me consigo. Agora sim, posso sonhar de novo, aqui de dentro do dragão é escuro e vazio, porém nada me atinge, estou protegido. Psiu! Não fale nada, podem ouvir, apenas sussurre bem baixinho, pois o que eu não ouvir, eu invento, é o meu alento.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Julho 17, 2009
ESTRELINHA
Quase serenava na noite densa de ventania desmedida e eu caminhando assombrado com os fantasmas que carregava em meus ombros. Talvez fosse a garoa, talvez fosse a sombra negra, talvez fosse nada, nada, era porque não havia nada para carregar em meu coração, e eu, me largava lânguido naquela trilha sem fim, sem luz.
Cabisbaixo espiava a vida passar a cada passo que dava e de tanto olhar para baixo, não via o brilho das estrelas, não via sequer uma estrelinha. O céu então se partiu em dois e lá das suas alturas, cadente uma estrelinha, veio a mim. Era de um brilho só, único, lindo e terno. Tirou-me do chão, levando meu sorriso aos pés de Deus e num gestual gracioso me mostrou que nem os meus olhos perdidos, de até então, impediriam a cumplicidade dos nossos destinos.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Julho 17, 2009
DRAGÃO Talvez haja mais dragões, talvez na vida só haja dragões; e os Cometas que passam vêm e vão e não me lembro de como era a vida antes, sem os dragões e com sonhos.
Por: André R. Melchiades Sexta-feira, Julho 03, 2009
Dizem que me tornei você:
"Aprendi que não posso exigir o amor de ninguém.
Posso apenas dar boas razões para que gostem de
mim e ter paciência para que a vida faça o resto."
[William Shakespeare]