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A fera lá de casa
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"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."
(Fernando Pessoa)
NUNCA MAIS ONTEM
Ela deitou encolhidinha embaixo do edredom que lhe servia de afeto. Choramingava o medo vasto em seu peito e lamentava por nele só habitar quem ali nunca deveria estar. Um travesseiro entre as pernas se tornara o pecado mais permissível que seu corpo ousara ter naquele restinho de madrugada fria, chuvosa e negra de primavera. Pelo rosto escorriam um par de lágrimas que laceravam sua pele branquinha como se fossem duas adagas de fogo e os soluços lhe martirizavam a alma. A pouca luz do abajur iluminava a imensidão daquele quarto gélido que se tornara a prisão dos seus sonhos, e, seus lamentos eram contidos para que nem mesmo ela se compadecesse de sua dor. Enfim, com o alvorecer seu choro minguou e seus olhos vermelhos, de noite mal dormida, espiavam a tímida luz da manhã que invadia seu leito de martírio. Ainda que mesmo incerta, o tímido olhar vislumbrou o prelúdio de uma nova vida; como se fosse um recado divino viu que após uma noite de tórrida tempestade, com céu em pesadas cores, o sol não se furtou da vida e renasceu belo e brilhante na manhã seguinte, assim como sua vida deveria ser dali por diante.
Por: André R. Melchiades Terça-feira, Outubro 27, 2009
NÃO SOU O QUE CANSA, SOU AQUELE QUE SONHA
Acordei no meio da noite. Com pensamentos confusos por alegrias incontidas. Eu sonhei. Como tudo sobre o que escrevo, era um sonho. E sabe, se eu deixar de sonhar eu morro. "Se você parar de sonhar não é você", me disse o dragão dos sonhos. Meus sonhos estão cada vez mais etéreos, bem menos palpáveis e infinitamente mais simples; um apanhado de coisas antagônicas e abstratas. Tenho vontade das gentes e medo delas também. Amargamente eu diria que cansei, mas não sou o que cansa, sou aquele que sonha.
"você constrói um mundo só seu, repleto de perfeições e vive feliz nele, poucos entram ali, se entram, isto é raro de se ver hoje." (S.Leal)
Por: André R. Melchiades Quarta-feira, Outubro 21, 2009
NEGROS OLHOS (CONTO)
Então o anjo dos negros olhos, como a noite mais escura, me achou perdido em meus pesadelos. Seus longos cabelos de cor em fogo bailavam nervosos ao vento, buscando repouso sobre a tenra pele alva que era salpicada por mínimas sardas. Ah, e ela sorria o mais inocente e acolhedor de todos os sorrisos. Caminhava com mansidão em minha direção e estendia os braços, as mãos delicadas para mim. Tocou-me docemente, conhecendo cada parte que em mim arrepiava. Sutilmente me deitou no seu colo, acalentou minha alma perdida, deixou com que eu delirasse com seu perfume doce na vã certeza de uma proteção infinita. Senti seus lábios úmidos me encherem de desejos vis e os indizíveis sussurros, quase em pecado, se perpetuarem no beijo mais longo de toda uma vida. Quando meus olhos abriram não mais havia ela ao meu lado, meus delírios se foram numa brisa mais intensa que passou, mas eu sentia que a brisa voltaria e meu anjo ao meu aconchego viria de volta e de novo e outra vez; até que fosse para sempre e nunca mais fosse embora.
Por: André R. Melchiades Sábado, Outubro 17, 2009
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"Todo amor é eterno, e se acaba, não era amor"
(Nelson Rodrigues)
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Óia eu!!!
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